A estrutura das coisas e do nada,
o caos do universo, em ordem, disfarça,
falsifica cores, luzes apaga,
tira das formas sua essência rara.
sobre a metafísica
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - IX]
VI
Estava novamente em minha casa. Dessa vez, porém, sem o mesmo ânimo da noite anterior. Talvez tenha me desgastado a reflexão sobre o quadro, as pedras de gelo no café, o debate com Renato, o incidente com as mocinhas; não seria exagero dizer que a própria ida a Santo Amaro tenha sido um prenúncio. Seria injusto com meu amigo se lhe imputasse toda a culpa, afinal há aperitivos que selam o apetite.
A lucidez deveria ter me guiado a aprofundar as diferenças entre esses dois dias. “Catar o mínimo e o escondido”; como seria bom ter posto em prática esse aforismo machadiano. Mas não foi Machado a me dar as mãos, a mão ou mesmo a apontar-me o caminho com o indicador. Em vez da prática, preferi a teoria e comecei a divagar. Que bela palavra a lucidez! Ter luz para iluminar os caminhos escuros, romper os obscurantismos, pôr a ciência a serviço do saber. É por ela que se dá o entusiasmo (transporte divino, em grego)! – gritaria se fosse capaz. Mas… – poderia ter me perguntado – quem é Deus? Como diferenciá-lo do demônio? Como saber a diferença entre um entusiasmado e um energúmeno, o possuído pelo demônio? Temos as rédeas da vontade? Livre-arbítrio? O dáimon é a autenticação da liberdade ou o disfarce da submissão?
Preciso me conter. Importa menos adicionar o presente ao passado que o passado ao presente. Não posso assoprar ao velho Autran onde este pisou em falso, mas talvez ele me mostre como reencontrar o caminho.
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - VIII]
***
Renato voltou com três livros em mãos:
- Vejo que você fez amizade com a herdeira.
- Herdeira?
- É a filha do dono. Ela caminha por aqui como ninguém. É uma moça muito esperta.
- Um pouco petulante, eu diria.
- Gosto de pessoas corajosas, prontas para o ataque.
- Não sei. Vamos lá! Diga-me o que tem aí.
Não me lembro o que ele tinha lá. Creio mesmo que isso hoje não tenha relevância alguma. Atentemo-nos ao que importa.
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - VII]
***
Munidos da bússola, não tivemos dificuldades em encontrar o sebo. Meu amigo tirou uma lista do bolso e rapidamente desapareceu na floresta de livros. Já eu fui mais contido. Vi duas jovens adolescentes entretidas com certa estante. Sempre me inquieto por saber o que atrai as pessoas à leitura, mas não imaginando como iniciar um bate-papo, amoitei-me na prateleira defronte, fingindo consultar um velho livreto:
- Esse livro é muito bacana.
- Como você ficou sabendo dele?
- O Pedro que me contou.
- Que Pedro?
- Aquele que eu conheci pela internet. Ele também está na comunidade do Harry Potter.
- Ah, nem me fale esse nome. Pena que acabou a série.
- Mas este livro parece ser ainda melhor.
- É a história de quê?
- Não é um livrinho de histórias.
- Como assim?
- Lembra-se de quando a gente, ano passado, comentava o quanto seria interessante ter um livro de magia?
- Este é um livro de magia?
- Não. É um livro de “química” – disse com um sorriso malicioso.
- Está doida? O que uma coisa tem a ver com a outra?
- É uma diferença sutil. A mesma que há entre ser mocinha e mulher.
- Devo temer suas intenções?
- Não mais que ao homem que está nos espionando. Senhor?
- Fala comigo?
- Pretende me convencer de que está mesmo interessado nesta edição barata de Dom Casmurro, sendo que há no mínimo três melhores logo ao lado?
- Hum… Não vale a pena. Estou certo de que se eu procurasse alguma desculpa, não conseguiria nada que satisfizesse sua inteligência.
- Em que nossa conversa lhe interessa?
- Não é interesse, é mais uma curiosidade.
- E qual a diferença?
- O interesse é algo mais essencial, a curiosidade, neste caso, é um cuidado em conhecer. Quase uma vaidade.
- Vaidade?
- Sim, no sentido de vazio. Não me orgulho de ser intrometido.
- O senhor não parece entende de química tanto quanto de palavras…
- Estou certo de que não.
- Uma pena. Para ambos.
E elas se foram. Como dois anjos gregos perdidos em meio a pedras.
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - VI]
***
Santo Amaro sempre me pareceu uma espécie de zoológico, daqueles em que os animais vivem soltos. O amontoado de camelôs e barracas das mais diversas espécies e gêneros nada devia à mata atlântica, pelo contrário, tinha a vantagem de se expandir enquanto a outra se extinguia. Houve uma época em que me simpatizava com o jeito “simples e rústico” desse modo de civilização, como diriam alguns velhos conhecidos. O problema é que cada vez mais me convenço de que não devemos gostar da pobreza, pois seria este o primeiro passo para nos acomodarmos com ela. Note que mesmo os termos não são tão ingênuos quanto parecem: simples se confunde com simplista e mal-feito, ou seja, torna-se uma gambiarra quando deveria ser uma solução prática e lógica para as questões mais complexas. É sutil? Tanto quanto a diferença entre desembaraçar o fio e usá-lo cheio de nós. Além disso, a questão do rústico soa como uma desculpa preconceituosa à falta de higiene e organização. A complacência com a desigualdade e outras formas de injustiça muitas vezes se disfarça em benevolência; a virtude nomeia o vício.
- Virtus vitium nominat? Ficou bem em Latim – devolveu-me Renato.
- Falo sério.
- Gosto de aforismos. Os bons sintetizam o raciocínio de modo ímpar. Encomendarei uma placa com essa frase.
- Creio que o amigo não me deu plenos ouvidos.
- Ora, meu chapa. Sejamos coerentes. Desenvolva o subsolo e desvalorize a cobertura. A desigualdade gera lucros não só para mim como também para você. Enquanto esses cabras transpiram saúde por nossos trocados, você mal suspira meio período no banco e está livre. Suponha uma revolução social, educação, saúde e oportunidades para todos, onde estaríamos nós? Longe de mim gozar da miséria alheia, mas não poderei nunca negar que me beneficio dela.
- Renato, não está sendo muito cruel?
- O alheamento é minha forma de sobrevivência. E isso também ficaria bonito em Latim. Alienatio… preciso consultar meus dicionários.
Endossei seu argumento. O sol estava forte; eu, indisposto. Censure-me, se for o caso, mas não se luta contra Apolo desperto.
Um sonho atípico
Era madrugada e eu caminhava por uma alameda na Tijuca. A leste, sentia a sombra escura e densa que parecia vir do outro lado do Atlântico; a oeste, os ventos e sussurros da floresta carioca. Olhei o firmamento e neste as estrelas fingiam bailar como naqueles jogos de ilusão de óptica. Sentei-me num banco e percebi dois sujeitos conversando:
- Ora, ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso – disse o ontologista.
- Para ouvi-las - respondeu o metafísico - muita vez desperto e abro as janelas, pálido de espanto… e conversamos toda noite, enquanto a Via Láctea, como um pálio aberto, cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto, inda as procuro pelo céu deserto.
- Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido tem o que dizem, quando estão contigo?
- Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas.
Mirei o homem de bigodes e resolvi participar do embate:
- Meu chapa, que razão te leva a ouvir as estrelas?
- São elas mais companheiras que meus companheiros.
- O que te dizem vai mais a teus sentimentos?
- Tocam-me a essência…
- Interessante…
- Tendo a trazê-las para dentro do peito…
- Importante…
- Sim.
- Amigo poeta – disse o sério e calmo portuga de olhos azuis retomando a palavra – agora vais me contar que também o vento te faz confissões?
- O vento também me é querido. Nada ele te diz?
- Ora, diz que é vento, e que passa, e que já passou antes, e que passará depois.
- Só isso?
- Só. E a ti o que te diz?
- Muita cousa mais do que isso. Fala-me de muitas outras cousas. De memórias e de saudades e de cousas que nunca foram.
- Bobagem. Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, e a mentira está em ti.
- Meu jovem – intrometi-me novamente – tuas palavras soam envelhecidas.
- E o que seria a velhice, se não um nome?
- Como assim?
- Tu me julgas em nome de uma regra predeterminada. Olha-me como sou!
- Queres que eu te olhe?
- Na verdade não. Sinta o vento, sinta a noite. Deixe de lado tua inquietação quanto a mim.
- Recusas-me um comentário?
- Claro que não! Diz, anda!
- Ao ouvir o vento e as estrelas, concordo que nosso amigo está a escutar vozes interiores – talvez a mente não lhe queira encarar, então os sonhos lhe sussurram as palavras. Que achas disso?
- É o que penso.
- Se é o que pensas, achas mesmo que as idéias escondidas de nosso amigo poeta lhe sejam falsas?
- Falsas?
- “A mentira está em ti”, não foi isso que escutei?
- Quase me entendestes. O que o amigo sente é falso enquanto se lhe soa uma voz objetiva e concreta. Trata-se de uma subjetivação – disse, apontando os olhos ao metafísico.
- Não tens ouvido capaz de ouvir e de entender…
- E tu? Tens a audição fantasiosa. Eu só ouço o que se pode ouvir. Tu ouves o que queres…
- Ouço o que se deve ouvir, tu aceitas passivamente o que te dizem…
- Tu é que imaginas ouvir o que tua filosofia prega…
E continuariam nessa lengalenga, mas tentei dar um basta:
- Amigo lusitano, não percebes que tua filosofia também é símbolo? Ambos se exaltam por terem a mesma razão e desrazão. Tudo é símbolo e analogia. As estrelas e a névoa podem representar, num raciocínio seco, a ciência objetiva, mas também o convite à passividade do não pensar. Por outro lado, podem trazer filosofias íntimas ou alienações recorrentes. O vento que passa, a noite que esfria, são outra coisa que a noite e o vento – sombras de vida e de pensamento.
- Epa! Essa frase é minha – disse o ontologista enquanto deixava cair sua máscara. Continuou:
-Tudo o que vemos é outra coisa. A maré vasta, a maré ansiosa, é o eco de outra maré que está onde é real o mundo que há.
Assustei-me: bigodes invadiam sua face, um chapéu preto enfeitava-lhe a cabeça, um cheiro de café misturava-se à neblina.
- Tudo o que temos é esquecimento – finalizou triunfante. A noite fria, o passar do vento, são sombras de mãos, cujos gestos são a ilusão madre desta ilusão.
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - V]
***
Encontramo-nos perto da esquina da Rebouças com a Faria Lima, num sebo – não por coincidência, mas por costume. Dessa vez ele chegou antes de mim e estranhou o fato de eu não me interessar por olhar as estantes antes de irmos ao ponto.
- Está triste, Autran?
A pergunta, longe de incomodar, me inquietou. Embora a inquietação seja um tipo de incômodo, segundo a etimologia.
- Ah, meu velho amigo. Não, você não muda.
Até tentei desenvolver minhas idéias, mas o calor do meio-dia e o engarrafamento me impediram.
- Que tal um refresco?
Não valia a pena tomar o ônibus àquela hora. Fomos à cafeteria, onde fui apresentado a um milk-shake de café. “Chama-se frappuccino”, corrigiu-me a atenciosa atendente. Curioso como algo que deveria ser redundante (“atenciosa atendente”) se transforma em exceção. Meu amigo simplesmente riu do meu comentário.
O café não foi aprovado. Se a temperatura estava adequada e o licor de menta convidava a um reencontro, as pequenas pedras de gelo da batida mal-feita forçaram-me a desertar. Sem mais o que fazer, pegamos o cardápio com inúmeros nomes de sabores e nos deliciamos em inquirir mais etimologias e outras abstrações.
Pode-se dizer que Renato seja meu pupilo. Conheci-o fazia uns três ou quatro anos. A partir de então sua vida mudaria muito: entrou e abandonou o curso de engenharia, planejou diversos eventos quando diretor do centro acadêmico da faculdade, ensaiou o início de algumas pesquisas, deixou as raves e se tornou um rato de sebo, como gostava de dizer.
- Somos homens da tarde ou da madrugada? – filosofava Renato. Se entendermos tarde como experiência e maturidade intelectual, os livros todos que me acompanham na mochila e afeição impedem-me de recusar tal alcunha. Mas se tarde for vista como o prenúncio da noite, o gosto pela obscuridade, não. Se assim for, sou um homem da madrugada; aquele que matina para admirar o provir das primeiras luzes.
- Exalta-se, meu amigo.
- Sim, mas me dê este momento. Que é a vida além dos instantes? Foge-me o dono deste aforismo.
- “Cultura é o que sobra quando a gente esquece o que aprendeu”, citou Carpeaux num de seus livros.
- Sim, o resto é vaidade. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade…”.
- As águas dos rios não escapam do mar – disse uma desconhecida, aproximando-se do meu amigo. A pedra, do pó; Pedro, da pedra… que dirá nós, impuros descendentes do barro? Mas isso cheira a materialismo barato. Resiste em nós o sopro da inteligência geratriz.
- Louvado seja o fogo de Prometeu!
- A hipótese grega para a verdade cristã? – devolveu sarcasticamente a jovem.
- Sim! Hi-pó-te-se. A “tese de sustentação” da cultura ocidental, ou se me permite, da cultura simplesmente. A substância só é plena quando independe de adjetivos. Verdade cristã? Sim, trata-se de uma verdade cristã, mas não da Verdade.
A desenvoltura de meu amigo foi forte o bastante para vencer o debate e perder uma possível amiga.
- Desculpe-me, mas o senhor é ateu? – perguntou um senhor que presenciou o diálogo.
- Sou um guerreiro do conhecimento. Ou um polêmico gnóstico se o amigo preferir.
O senhor não preferiu nem um nem outro, apenas se afastou desconfiado.
- Um cafezinho antes de partirmos?
Aceitei.
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - IV]
IV
As lembranças daquela noite? Hipoteticamente é possível que eu tenha ouvido música, lido alguma coisa ou até mesmo ligado a tv. Mas não. Hoje sei que naquele dia eu fui dormir extremamente feliz. A jornada havia sido muito proveitosa. Sempre é bom começar uma amizade, aproveitar-lhe o sabor do não saber, permitir que seu cheiro desconhecido apresente-se a nossas narinas.
V
O dia seguinte foi bastante agitado. Logo cedo fui acordado pela ligação de um amigo que me convidou para ir com ele a um sebo em Santo Amaro.
- É longe.
Mas aceitei. Os argumentos eram cativantes: eu não conhecia o lugar, poderia encontrar bons livros, revistas antigas e até filmes raros por um bom preço.
- Esse pessoal não sabe o que tem em mãos.
Esse foi um argumento coringa, afinal a ignorância tanto pode fazer o indivíduo pedir pouco por algo valioso como pode fazê-lo inflacionar tudo que desconheça. Mas aceitei.
Saindo do quarto, mirei a parede da sala: havia uma belíssima reprodução do teto da Capela Sistina, a imagem de Deus querendo tocar o dedo humano é um símbolo inquietador. Certa vez a interpretei como a insígnia da sabedoria em busca do homem, como se este não tivesse forças ou interesses necessários para adquiri-la. Não, não foi uma leitura determinista; o homem não é um cativo da ventura, pelo contrário, ele deve pretendê-la. Por maior que seja a vontade divina, o toque só se dará de fato com o esforço adâmico. É preciso buscar o conhecimento, sair das sombras. Vinde, portador da Luz! Serei vosso irmão. Irmão dileto na mesma lucidez.
Por muito tempo essa interpretação me satisfez. Afinal, segundo uma teoria nietzschiana, tratava-se de um raciocínio meu, obra de minha própria vontade e esforço. Não a recebi passivamente de uma ideologia escamoteadora, fora obra minha. Mesmo assim, porém, talvez tenha sido iludido. Ilusão, ludismo, como desconfiar das regras do jogo que eu mesmo criei? Não tenho a chave, mas entrei.
A Luz que guia é a mesma que embaça a visão. Lúcifer não me parecia um ser movido pela vontade de elucidar o caminho dos homens, ao invés disso, queimava-lhes as retinas. Olhei novamente o quadro, com o sincero desejo de realizar uma nova leitura. Como é difícil subirmos o degrau do esclarecimento! Fácil nos parece ao mirarmos o que fomos, perceber as ignorâncias que nos acometiam, os equívocos que deixamos de cometer, mas para onde lançar o passo seguinte sempre é um mistério, tal como o bom senso, o qual só percebemos não ter quando passamos a tê-lo. Boa essa máxima. Gosto de frases curtas; frases de efeito. Elas indicam, muitas vezes por um raciocínio paradoxal, pistas valiosas.
E assim, palavra-puxa-palavra, máximas e paradoxos me levaram a antítese. Tentei o método das inversões. Se minha interpretação era metafísica e racional, quem sabe algo mais concreto e sutil pudesse funcionar?
Mirei novamente o quadro buscando especular algo de novo. Dessacralizei Deus e Adão, tornando-os uma espécie de pai e filho terrenos; este e aquele na iminência do toque, do contato humano. Ou seria contato humanizador? Temo outra vez fragmentar meu raciocínio com abstrações; a metafísica pode iludir. “Mas também pode dar formas ao que não tem”, veio-me uma voz não sei de onde. Resolvi experimentá-la. Pelo que intuí, o contato humanizador não seria uma abstração pura e simples; é antes o verbo que dá vida à coisa concreta que conhecemos de mais especial e complexa, o próprio homem. O quadro, desse modo, simbolizaria não o raciocínio individualista, mas a interação de indivíduos, o tato, o calor, o contato físico. Um símbolo da amizade? Talvez. Em todo caso, porém, não consegui escapar da abstração, minha doce companheira.
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - III]
III
Nesse dia quase não deixei que Cecília falasse. Empolguei-me tanto em contar-lhe curiosidades etimológicas que o mundo ao redor se resumiu no vulto azulado de seu vestido e nas fragrâncias que chás e licores exalavam pelo ambiente. Havia o predomínio de cheiros impositivos – como damascos e nozes – mas, toda vez que sorvia do meu licor, encarava Cecília e me sentia renovado. Ao final, ela brincou:
- Estou em débito contigo, meu caro. Precisamos nos encontrar novamente.
Despediu-se de mim. Fiquei no bistrô. Só então deixei que meus olhos passeassem pela casa. A meia-luz do salão acentuava a tranqüilidade do local: uma mosca, visitando o lugar, ia de mesa em mesa buscando alguma sobra, farelos de torrada, pingos de alguma bebida; em vão. Fugiu pela varanda em busca de luz e alimento. Os insetos, com sua irrelevante existência, ao menos servem de símbolo aos desejos de quem os desenha:
- Café, por favor.
Uma lâmpada é acesa, tornando visível a placa de madeira em que se lê:
O paladar se treina com pequenas
porções. O olfato integra – sinestésico
e agudo – a visão e o tato; todos
eles mais o silêncio: ingredientes
básicos e precisos para a mesa.
- Aqui está, senhor.
- Obrigado.
Com uma certa dificuldade em mirar-se fundo em meus olhos, o garçom , escondendo algo atrás de si, puxou conversa:
- Desculpe-me a ousadia. Tenho de confessar: anotei inúmeras de suas dicas etimológicas. Gostaria de retribuir com isto.
- Um livro?
- Trata-se de um empréstimo. O amigo lê, vê se gosta e me devolve num momento oportuno.
- Mas…
- Sem contar que serve de pretexto para uma nova visita. Aliás, este licor fica por minha conta.
- Doce e levemente ácido, mas não é limão…
- É cambuci. Não está no menu. É especial, veio de Paranapiacaba.
- Muito bom! Senta-se comigo?
- Claro.
- Diga-me, por favor, de quem é aquele poema na parede?
- Meu.
- Posso arriscar uma interpretação?
- Faça-me esta gentileza.
- Vejo-o como um interessante exercício de hermenêutica: A parte depende do todo, o qual é feito das partes. Deixe-me esclarecer, tenho uma forte tendência a abstrações: O paladar é treinado, apurado pelo jogo sinestésico com os demais sentidos. Estes, por sua vez, são catalisados pela intocabilidade de um outro sentido, a audição. É como se houvesse uma dependência, uma interligação metafísica entre os sentidos. Certo?
- Em termos. Na verdade, há uma interligação física mesmo entre eles: o cérebro. A divisão tende a ser um pouco arbitrária quando não nota as influências de um no outro. Lembre-se de que é por meio de uma intelectualização, de um desdobramento simbólico, de uma fragmentação didática que o indivíduo deixa de reparar nas pequenas coisas concretas. Mas em todo caso, sua leitura é válida. Deve ser a primeira pessoa culta a não pegar no pé da metrificação.
- Ah, os encadeamentos…
- Pode chamar de falsos decassílabos. Já me acostumei. A mim importa mais o conteúdo, se bem que…
- Ora. Mesmo ao lê-lo do modo convencional, percebe-se o ritmo. As oclusivas do primeiro período parecem interagir com a idéia de “pequenas porções”. Já a pausa entre o segundo e o terceiro versos (“sinestésico e agudo”) realça a integração dos sentidos. A analogia audição-silêncio, a capacidade física pelo ente abstrato, é uma metonímia de bom gosto. Trata-se de versos, vá lá, simples mas tocantes.
- “Básicos e precisos”?
- Pois é – respondi sorrindo.
- Você quer me agradar em retribuição ao licor e ao livro…
- Eu? Ora, você que os ofertou para me agradar.
- Vadim! Clientes na varanda – disse uma voz que vinha não sei de onde. Os habitantes da noite haviam chegado. Com um sorriso e um aceno nos despedimos.
Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - II]
II
Meia hora depois estávamos numa espécie de bistrô. O temporão sol outonal das cinco deu-nos a oportunidade única de deixarmos os casacos aos cuidados do mancebo. Feliz com a nova amizade conquistada por força de meu intelecto, decidi retribuir-lhe com um pouco de cafeína:
- Nada disso! Licor de gengibre para meu caro amigo, por favor – disse Cecília ao garçom. Antes mesmo que eu pudesse compreender sua reação, explicou-se:
- Está quente. E gengibre certamente é uma bebida mais apropriada a momentos como este.
- Ora, café excita os sentidos. É até curioso – permita-me a divagação – como isso soa a tautologia. Se opusermos sentidos a sensações, estas são subjetivas, internas; aqueles físicos e externos. Logo, uma mente descuidada diria ser possível excitar apenas as sensações, afinal, são elas que estão escondidas. Mesmo assim, porém, muitas vezes os sentidos não dão o ar da graça, é preciso buscá-los, fazê-los vir à tona.
- Tome – disse entregando-me uma corrente de prata, combina com o relógio, acredite.
- Para que os presentes?
- Uma inteligência como a sua merece incentivos, estímulos. Encare isso como um jogo: você me anima com suas palavras, eu me dispo dessas velhas prendas e, pronto!, tudo seu.
- Sua companhia basta. É sempre bom ter alguém com quem conversar.
- Gosto de coisas concretas – insistiu.
- Uma metonímia de sua presença? Tudo bem.
Ela sorriu.