III
Nesse dia quase não deixei que Cecília falasse. Empolguei-me tanto em contar-lhe curiosidades etimológicas que o mundo ao redor se resumiu no vulto azulado de seu vestido e nas fragrâncias que chás e licores exalavam pelo ambiente. Havia o predomínio de cheiros impositivos – como damascos e nozes – mas, toda vez que sorvia do meu licor, encarava Cecília e me sentia renovado. Ao final, ela brincou:
- Estou em débito contigo, meu caro. Precisamos nos encontrar novamente.
Despediu-se de mim. Fiquei no bistrô. Só então deixei que meus olhos passeassem pela casa. A meia-luz do salão acentuava a tranqüilidade do local: uma mosca, visitando o lugar, ia de mesa em mesa buscando alguma sobra, farelos de torrada, pingos de alguma bebida; em vão. Fugiu pela varanda em busca de luz e alimento. Os insetos, com sua irrelevante existência, ao menos servem de símbolo aos desejos de quem os desenha:
- Café, por favor.
Uma lâmpada é acesa, tornando visível a placa de madeira em que se lê:
O paladar se treina com pequenas
porções. O olfato integra – sinestésico
e agudo – a visão e o tato; todos
eles mais o silêncio: ingredientes
básicos e precisos para a mesa.
- Aqui está, senhor.
- Obrigado.
Com uma certa dificuldade em mirar-se fundo em meus olhos, o garçom , escondendo algo atrás de si, puxou conversa:
- Desculpe-me a ousadia. Tenho de confessar: anotei inúmeras de suas dicas etimológicas. Gostaria de retribuir com isto.
- Um livro?
- Trata-se de um empréstimo. O amigo lê, vê se gosta e me devolve num momento oportuno.
- Mas…
- Sem contar que serve de pretexto para uma nova visita. Aliás, este licor fica por minha conta.
- Doce e levemente ácido, mas não é limão…
- É cambuci. Não está no menu. É especial, veio de Paranapiacaba.
- Muito bom! Senta-se comigo?
- Claro.
- Diga-me, por favor, de quem é aquele poema na parede?
- Meu.
- Posso arriscar uma interpretação?
- Faça-me esta gentileza.
- Vejo-o como um interessante exercício de hermenêutica: A parte depende do todo, o qual é feito das partes. Deixe-me esclarecer, tenho uma forte tendência a abstrações: O paladar é treinado, apurado pelo jogo sinestésico com os demais sentidos. Estes, por sua vez, são catalisados pela intocabilidade de um outro sentido, a audição. É como se houvesse uma dependência, uma interligação metafísica entre os sentidos. Certo?
- Em termos. Na verdade, há uma interligação física mesmo entre eles: o cérebro. A divisão tende a ser um pouco arbitrária quando não nota as influências de um no outro. Lembre-se de que é por meio de uma intelectualização, de um desdobramento simbólico, de uma fragmentação didática que o indivíduo deixa de reparar nas pequenas coisas concretas. Mas em todo caso, sua leitura é válida. Deve ser a primeira pessoa culta a não pegar no pé da metrificação.
- Ah, os encadeamentos…
- Pode chamar de falsos decassílabos. Já me acostumei. A mim importa mais o conteúdo, se bem que…
- Ora. Mesmo ao lê-lo do modo convencional, percebe-se o ritmo. As oclusivas do primeiro período parecem interagir com a idéia de “pequenas porções”. Já a pausa entre o segundo e o terceiro versos (“sinestésico e agudo”) realça a integração dos sentidos. A analogia audição-silêncio, a capacidade física pelo ente abstrato, é uma metonímia de bom gosto. Trata-se de versos, vá lá, simples mas tocantes.
- “Básicos e precisos”?
- Pois é – respondi sorrindo.
- Você quer me agradar em retribuição ao licor e ao livro…
- Eu? Ora, você que os ofertou para me agradar.
- Vadim! Clientes na varanda – disse uma voz que vinha não sei de onde. Os habitantes da noite haviam chegado. Com um sorriso e um aceno nos despedimos.