Era madrugada e eu caminhava por uma alameda na Tijuca. A leste, sentia a sombra escura e densa que parecia vir do outro lado do Atlântico; a oeste, os ventos e sussurros da floresta carioca. Olhei o firmamento e neste as estrelas fingiam bailar como naqueles jogos de ilusão de óptica. Sentei-me num banco e percebi dois sujeitos conversando:
- Ora, ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso – disse o ontologista.
- Para ouvi-las - respondeu o metafísico - muita vez desperto e abro as janelas, pálido de espanto… e conversamos toda noite, enquanto a Via Láctea, como um pálio aberto, cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto, inda as procuro pelo céu deserto.
- Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido tem o que dizem, quando estão contigo?
- Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas.
Mirei o homem de bigodes e resolvi participar do embate:
- Meu chapa, que razão te leva a ouvir as estrelas?
- São elas mais companheiras que meus companheiros.
- O que te dizem vai mais a teus sentimentos?
- Tocam-me a essência…
- Interessante…
- Tendo a trazê-las para dentro do peito…
- Importante…
- Sim.
- Amigo poeta – disse o sério e calmo portuga de olhos azuis retomando a palavra – agora vais me contar que também o vento te faz confissões?
- O vento também me é querido. Nada ele te diz?
- Ora, diz que é vento, e que passa, e que já passou antes, e que passará depois.
- Só isso?
- Só. E a ti o que te diz?
- Muita cousa mais do que isso. Fala-me de muitas outras cousas. De memórias e de saudades e de cousas que nunca foram.
- Bobagem. Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, e a mentira está em ti.
- Meu jovem – intrometi-me novamente – tuas palavras soam envelhecidas.
- E o que seria a velhice, se não um nome?
- Como assim?
- Tu me julgas em nome de uma regra predeterminada. Olha-me como sou!
- Queres que eu te olhe?
- Na verdade não. Sinta o vento, sinta a noite. Deixe de lado tua inquietação quanto a mim.
- Recusas-me um comentário?
- Claro que não! Diz, anda!
- Ao ouvir o vento e as estrelas, concordo que nosso amigo está a escutar vozes interiores – talvez a mente não lhe queira encarar, então os sonhos lhe sussurram as palavras. Que achas disso?
- É o que penso.
- Se é o que pensas, achas mesmo que as idéias escondidas de nosso amigo poeta lhe sejam falsas?
- Falsas?
- “A mentira está em ti”, não foi isso que escutei?
- Quase me entendestes. O que o amigo sente é falso enquanto se lhe soa uma voz objetiva e concreta. Trata-se de uma subjetivação – disse, apontando os olhos ao metafísico.
- Não tens ouvido capaz de ouvir e de entender…
- E tu? Tens a audição fantasiosa. Eu só ouço o que se pode ouvir. Tu ouves o que queres…
- Ouço o que se deve ouvir, tu aceitas passivamente o que te dizem…
- Tu é que imaginas ouvir o que tua filosofia prega…
E continuariam nessa lengalenga, mas tentei dar um basta:
- Amigo lusitano, não percebes que tua filosofia também é símbolo? Ambos se exaltam por terem a mesma razão e desrazão. Tudo é símbolo e analogia. As estrelas e a névoa podem representar, num raciocínio seco, a ciência objetiva, mas também o convite à passividade do não pensar. Por outro lado, podem trazer filosofias íntimas ou alienações recorrentes. O vento que passa, a noite que esfria, são outra coisa que a noite e o vento – sombras de vida e de pensamento.
- Epa! Essa frase é minha – disse o ontologista enquanto deixava cair sua máscara. Continuou:
-Tudo o que vemos é outra coisa. A maré vasta, a maré ansiosa, é o eco de outra maré que está onde é real o mundo que há.
Assustei-me: bigodes invadiam sua face, um chapéu preto enfeitava-lhe a cabeça, um cheiro de café misturava-se à neblina.
- Tudo o que temos é esquecimento – finalizou triunfante. A noite fria, o passar do vento, são sombras de mãos, cujos gestos são a ilusão madre desta ilusão.
Não poderia ter texto melhor. Um diálogo entre Olavo Bilac, Alberto Caeiro e Fernando Pessoa é surreal!