sobre a metafísica

A estrutura das coisas e do nada,
o caos do universo, em ordem, disfarça,
falsifica cores, luzes apaga,
tira das formas sua essência rara.

Publicado em: on 29 Março, 2008 at 7:59 pm Comentários (1)
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Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - IX]

VI

Estava novamente em minha casa. Dessa vez, porém, sem o mesmo ânimo da noite anterior. Talvez tenha me desgastado a reflexão sobre o quadro, as pedras de gelo no café, o debate com Renato, o incidente com as mocinhas; não seria exagero dizer que a própria ida a Santo Amaro tenha sido um prenúncio. Seria injusto com meu amigo se lhe imputasse toda a culpa, afinal há aperitivos que selam o apetite.

A lucidez deveria ter me guiado a aprofundar as diferenças entre esses dois dias. “Catar o mínimo e o escondido”; como seria bom ter posto em prática esse aforismo machadiano. Mas não foi Machado a me dar as mãos, a mão ou mesmo a apontar-me o caminho com o indicador. Em vez da prática, preferi a teoria e comecei a divagar. Que bela palavra a lucidez! Ter luz para iluminar os caminhos escuros, romper os obscurantismos, pôr a ciência a serviço do saber. É por ela que se dá o entusiasmo (transporte divino, em grego)! – gritaria se fosse capaz. Mas… – poderia ter me perguntado – quem é Deus? Como diferenciá-lo do demônio? Como saber a diferença entre um entusiasmado e um energúmeno, o possuído pelo demônio? Temos as rédeas da vontade? Livre-arbítrio? O dáimon é a autenticação da liberdade ou o disfarce da submissão?

Preciso me conter. Importa menos adicionar o presente ao passado que o passado ao presente. Não posso assoprar ao velho Autran onde este pisou em falso, mas talvez ele me mostre como reencontrar o caminho.

Publicado em: Sem categoria on at 6:35 am Deixe um comentário

Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - VIII]

***

Renato voltou com três livros em mãos:

- Vejo que você fez amizade com a herdeira.

- Herdeira?

- É a filha do dono. Ela caminha por aqui como ninguém. É uma moça muito esperta.

- Um pouco petulante, eu diria.

- Gosto de pessoas corajosas, prontas para o ataque.

- Não sei. Vamos lá! Diga-me o que tem aí.

Não me lembro o que ele tinha lá. Creio mesmo que isso hoje não tenha relevância alguma. Atentemo-nos ao que importa.

Publicado em: Sem categoria on at 6:28 am Deixe um comentário

Mascate de palavras [fragmentos aleatórios - VII]

***

Munidos da bússola, não tivemos dificuldades em encontrar o sebo. Meu amigo tirou uma lista do bolso e rapidamente desapareceu na floresta de livros. Já eu fui mais contido. Vi duas jovens adolescentes entretidas com certa estante. Sempre me inquieto por saber o que atrai as pessoas à leitura, mas não imaginando como iniciar um bate-papo, amoitei-me na prateleira defronte, fingindo consultar um velho livreto:

- Esse livro é muito bacana.

- Como você ficou sabendo dele?

- O Pedro que me contou.

- Que Pedro?

- Aquele que eu conheci pela internet. Ele também está na comunidade do Harry Potter.

- Ah, nem me fale esse nome. Pena que acabou a série.

- Mas este livro parece ser ainda melhor.

- É a história de quê?

- Não é um livrinho de histórias.

- Como assim?

- Lembra-se de quando a gente, ano passado, comentava o quanto seria interessante ter um livro de magia?

- Este é um livro de magia?

- Não. É um livro de “química” – disse com um sorriso malicioso.

- Está doida? O que uma coisa tem a ver com a outra?

- É uma diferença sutil. A mesma que há entre ser mocinha e mulher.

- Devo temer suas intenções?

- Não mais que ao homem que está nos espionando. Senhor?

- Fala comigo?

- Pretende me convencer de que está mesmo interessado nesta edição barata de Dom Casmurro, sendo que há no mínimo três melhores logo ao lado?

- Hum… Não vale a pena. Estou certo de que se eu procurasse alguma desculpa, não conseguiria nada que satisfizesse sua inteligência.

- Em que nossa conversa lhe interessa?

- Não é interesse, é mais uma curiosidade.

- E qual a diferença?

- O interesse é algo mais essencial, a curiosidade, neste caso, é um cuidado em conhecer. Quase uma vaidade.

- Vaidade?

- Sim, no sentido de vazio. Não me orgulho de ser intrometido.

- O senhor não parece entende de química tanto quanto de palavras…

- Estou certo de que não.

- Uma pena. Para ambos.

E elas se foram. Como dois anjos gregos perdidos em meio a pedras.

 

Publicado em: Sem categoria on at 6:27 am Deixe um comentário