”Você é especial” - assim funciona o principal argumento massificador de que temos conhecimento. Soa, sim, a paradoxo. Não por acaso, poucos percebem as artimanhas dessa falácia. Não por acaso, essa arapuca se mostra tão eficiente.
O filme A Onda ilustra bem essa teoria. Os fatos se passam numa pequena escola da Califórnia. Numa aula de História, a aluna pergunta ao professor como os alemães puderam ser tão coniventes com o nazismo. O que poderia justificar ou explicar a adesão a algo tão nocivo à humanidade? De bate-pronto, nem o docente sabia, mas ele se propôs uma investigação extremamente dolorosa, principalmente a seus alunos.
Pouco a pouco, suas aulas passaram por uma imensa modificação. Aos avacalhados alunos era exigida uma melhor postura não só física como moral. Disciplina era a palavra da vez, dela se desdobrando outros conceitos, como ordem, força e conjunto. Rapidamente os alunos foram induzidos a se acreditarem melhor do que eram antes. O grupo que eles estavam formando, a Onda, se mostrou forte e impetuoso; exatamente o oposto de seus integrantes – fato este que se lhes acentuou a importância do grupo. Não tardou, porém, para que os problemas começassem a surgir.
”Filha, você foi criada para ser ímpar”, com essa frase tão individualista e – principalmente – tão libertária uma aluna foi despertada por sua mãe. A Onda, longe de ser um catalisador do potencial humano, se mostrou um inibidor de sua individualidade. Há quem diga que o capitalismo – a onda da vez - privilegie o individualismo. Me parece o contrário: ele (aqui no Brasil ao menos) instiga a massificação. Os frascos de perfume, os maços de cigarro não cativam apenas nosso olfato; eles visam cativar nosso raciocínio. Não à toa as propagandas enfatizam tanto a imagem, deixando de lado aquilo que de fato caracterizaria os produtos.
As imagens são nosso cativeiro. Há como escapar? Uma resposta generalizante é o primeiro passo para não compreender o problema. A falácia dos grupos é sedutora, afinal estes são conduzidos por indivíduos que conhecem bem os instintos da massa. Enfrentar a onda, nadar contra a corrente talvez seja cansativo. Mas é a melhor alternativa para manter o espírito livre.