Essência desnecessária

Pedro Duarte Freires

Costuma-se pressupor que tudo tem uma essência e que é um dever encontrá-la por mais árdua que a busca possa ser (parece que sempre é). Assim, a vida seria uma sucessão de batalhas épicas pela integridade dessa essência e uma cirurgia plástica, um regime ou um diligente treino para a hipertrofia seriam uma terrível derrota para esse inimigo que é o padrão, que é a moda. A partir dessas premissas cria-se a idéia que interessa discutir, de que o Brasil atualmente nega sua essência ao supervalorizar seus índices econômicos.

Antes de entender por que o Brasil estaria passando por um processo de auto-negação, cabe entender por que isso seria uma derrota. Para tanto, pouco importa se existe de fato uma essência abstrata ou não; deixemos que a Fé, guardiã dos assuntos místicos, se encarregue da dúvida. No contexto da guerra épica entre essência e mundo, não é de um conjunto de características inatas que se fala, mas sim de um conjunto de necessidades concretas a serem supridas. Quando vemos alguém recorrer à cirurgia plástica ou dobrar-se aos padrões vigentes, o que devemos perguntar é se tal manobra atende às verdadeiras necessidades (econômicas, sociais, psicológicas) do indivíduo. É fácil concluir que tais necessidades não são totalmente inatas; de fato a maior parte delas é construída e deriva de escolhas que o indivíduo faz durante sua vida. Isso, no entanto, não lhes tira o valor.

Consideremos que o Brasil seja esse indivíduo buscando no sucesso de seus índices econômicos, e na manutenção deles, a cirurgia plástica perfeita. Com essa nova imagem, ele estaria pronto para seduzir grande parte dos investidores. A verdade é que esses índices econômicos não dependem necessariamente de uma reforma agrária, da criação de um país de leitores no lugar de analfabetos funcionais ou mesmo da gestão de um hospital público de qualidade com vagas para todos – essa cirurgia plástica tem um custo alto; não sobra tempo nem dinheiro para reformar tudo que é necessário. É importante perceber que esse processo é de escolha, ou seja, de construção ativa de uma nova identidade brasileira.

Até podemos dizer que o Brasil errou ao escolher esse caminho, que o silicone da prótese econômica mais cedo ou mais tarde vai estourar, intoxicando o país. Mas não raro podemos chegar à perigosa conclusão de que o Brasil está fugindo de seus verdadeiros problemas. Ainda que pareça contraditório, os índices econômicos e os sociais fazem parte de um mesmo Brasil. Do mesmo modo, uma beleza natural ou artificial pode satisfazer uma mesma pessoa. Isso prova que o país cresce, se recria. Devemos dar tempo para que a identidade se consolide sem grandes neuroses, em vez de afogá-la em dogmas e convenções.

Publicado em: on 29 Agosto, 2008 at 9:29 am Comentários (2)
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Cultura idealizada?

O diálogo que se segue foi motivado pelo texto Limitação Cultural.

 

Fonseca: Li o texto. Achei normal. Achei “Passagem da vida” e “Crescer dói” mais impactantes e bem escritos.  Esse texto novo está normal. Para mim não há nada que salte muito aos olhos e, até mesmo, achei tendencioso. Mas tem um porém aí: Minha capacidade analítica não é lá muito boa. A cada aula de leitura e interpretação de textos eu vejo isso. Às vezes, eu tenho dificuldades até em achar os movimentos do texto, oras!

Então, é melhor perguntar: Que méritos você viu no texto? Você disse antes que colocaria em seu blog textos que lhe agradassem em um ou outro aspecto. Falando desse especificamente, qual foi o diferencial? O que o motivou a escolhê-lo?

João das Flores: Tendencioso em que sentido? O texto trabalhou bem o conflito. Ele é linear, pois vale-se de uma lógica bastante racional, quase matemática. Nos outros havia mais poesia, não discordo.

Infelizmente, agora não posso colorir o texto acentuando as oposições.

Fonseca: Assumindo que adjetivo é uma palavra que caracteriza, eu achei o texto tendencioso por que, na hora de trabalhar o conflito, as palavras usadas para quem busca a cultura são positivas e para as pessoas que não buscam a cultura, pejorativas.

Aqueles que não buscam a cultura estão classificados como imediatistas, simplistas, acomodados etc.

Foi isso.

João das Flores: Wall, cultura vem de cultivo, logo, impossível não associá-la ao inverso de rapidez, imediatismo etc.

Você confunde ter opinião com ser tendencioso. Na opinião de quem escreveu o texto, a cultura é algo positivo, por isso a seleção dos vocábulos adequados a expressar essa idéia.

Dizer que o comunismo foi uma catástrofe não é, necessariamente, ser tendencioso. Seria se o indivíduo, para isso, idealizasse o capitalismo, escondendo os defeitos deste.

Fonseca: Seu exemplo do comunismo e a etimologia esclarecem um pouco.

O que me fazia achar o texto tendencioso era uma reação antagônica que eu via nele. A cultura como boa e o imediatismo como ruim. Sem que este tivesse méritos nem aquela defeitos.

João das Flores: Qual seria o defeito da cultura?

Fonseca: Eu lhe faço a mesma pergunta de forma inversa. Seria a cultura perfeita?

Cultura extensa como citada no texto exige muito tempo e dinheiro. E vamos fugir dos extremos aqui. Veja, por exemplo, a média de estudos mesmo nos países desenvolvidos. O número de pessoas com doutorado é bem menor do que o número de bacharéis. Por que isso? Seria simples preguiça de continuar os estudos? Ou há motivos mais práticos que impediriam o progresso intelectual?

João das Flores: Se cultura é cultivo, trata-se de uma ação que visa a obtenção de um lucro futuro. Sabendo que perfeito é aquilo que já está feito, pronto, acabado (em outras palavras, perfeito é aquilo que não evolui), o indivíduo que busca aumentar sua cultura tem plena ciência de que ele próprio não é perfeito – e mais: ele sabe que a perfeição é uma noção abstrata que jamais será alcançada. Não à toa, ele deixa essa questão metafísica de lado e busca conhecer um pouco mais aquilo que de fato lhe importa.

Note que a perfeição, ou o senso de perfeição, cabe mais a mentes acomodadas, aquelas que se consideram satisfeitas – quem busca a cultura foge da saturação mecanizada e massificada; sempre há algo a aprender.

Assim como na agricultura, a aquisição cultural está sujeita a boas e más colheitas. Mas isso não significa que o indivíduo deixará de plantar. Olhar, simplesmente olhar o terreno, não traz frutos.

Acrescente a isso que a cultura não precisa ser algo oficializado. Ela não se restringe a diplomas ou títulos de louvor. O fato de o indivíduo não freqüentar mais escolas não significa que ele seja um acomodado (Alberto Caeiro está aí de prova).

Fonseca: Humm, note que a minha pergunta sobre a perfeição da cultura levou a um enunciação de suas qualidades e a questão metafísica de perfeição.

Acho que apesar de interessante a pergunta e a resposta que você deu – gostei dos exemplos – cabe ainda a pergunta: Não há defeitos práticos na cultura? Não para dizer que ela não seja perfeita, mas uma explicação mais vertical do que falta de tempo ou acomodamento para não buscá-la?

Sim, há indivíduos ilustres sem diplomas não discordo. Usei o exemplo do doutorado por que para obter um é necessário muito esforço e estudo.

Uma digressão: Saindo da esfera da perfeição da cultura e entrando na de perfeição pura e simples: Qual é a metáfora, ou qual o significado escondido no nome do tempo verbal: “Pretérito mais-que-perfeito”?

João das Flores: Pretérito perfeito: passado terminado. (Você chegou.)

Pretérito mais-que-perfeito: passado terminado antes do pretérito perfeito. (Quando você chegou, eu já comera o bolo.)

Fonseca: Perdoe a minha insistência em procurar um defeito na cultura.

Eu fiquei tão espantado com a sua pergunta: “Qual seria o defeito da cultura?” que me coloquei a matutar sobre isso. Mas qual é o defeito mesmo?

Na Filosofia nunca há consenso. Há sempre um contra argumento, um filósofo que discorde, uma briga, um debate. Então, quando eu não achei um defeito na cultura fiquei pasmo.

Agora nesse caso da cultura só consegui pensar em defeitos relativos a ela, mas não em defeitos nela em si. Por isso o meu espanto e a pergunta sobre a perfeição.

É isso. Não vejo nenhum. Quem sabe em minhas leituras isso se solidifica ou eu acabo pensando em algum?

Até mais.

Publicado em: on 28 Agosto, 2008 at 8:43 am Comentários (1)
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Limitação cultural

Marina Mayashida Zoega (mahayashida@hotmail.com)

“Cultura não se herda, conquista-se”. Trata-se de uma frase do pensador francês André Malraux acerca do conjunto de manifestações artísticas, intelectuais e comportamentais de um coletivo. Mesmo diante de um contexto em que cresce o acesso mundial a livros, tecnologias e informações, percebe-se que a sociedade, no geral, tende a se afastar cada vez mais de uma formação ampla, de uma cultura extensa, seja pela falta de oportunidades ou pelo desinteresse.

Já é senso comum a idéia de que a globalização é um fenômeno intenso e que atinge diversas partes do planeta. Com a crescente melhoria dos setores de comunicação, bem como a consolidação de vias de entroncamento informacionais, o acesso à cultura torna-se algo relativamente simples. Contudo, pode-se notar um suposto paradoxo: cresce a popularização da cultura e, concomitantemente, o desprezo por ela.

Há, de fato, maior disponibilidade e maior acesso aos conhecimentos mundanos, mas quem realmente está apto a absorvê-los? Analisando por meio desse prisma, destaca-se que não é somente o contato com informações que faz o homem adquiri-las. Muito menos, como bem percebeu André Malraux, se herda conhecimentos. Somente com certa base educacional é que se adquirem interesse e maior capacidade de assimilação. Dessa forma, num mundo em que a educação ainda é restrita e onde nem todos que sabem ler são, de fato, leitores, o real alcance da cultura geral não se mostra tão amplo.

Somado ao fator educacional, há de se observar o desprezo por parte de uma crescente parcela da população mundial, a qual se acomodou perante as atitudes mais fáceis e rápidas que o contexto globalizado exige. Mesmo com os conhecimentos gerais e irrestritos estando em toda parte, os homens visam cada vez mais à economia de tempo e a uma formulação extremamente especializada, mas limitada a um específico campo de atuação. Sendo assim, o paradoxo acerca do maior acesso e menor interesse à cultura vai se desfazendo, na medida em que se analisa o contexto geral no qual o ser humano hoje se insere: é a cultura do mundo simples, fácil e rápido sobrepondo-se à cultura histórica que a tradição foi construindo ao longo dos anos.

Em suma, o desenvolvimento das redes informacionais com o fenômeno da globalização permite que a população mundial tenha teoricamente maior acesso à chamada cultura geral. No entanto, da mesma forma que cresce sua disponibilidade, revela-se um certo desinteresse por conhecimentos que remontam ao passado ou a uma amplitude maior. Isso se dá tanto por razões de oportunidades como por novos valores que priorizam a vida mais imediatista e restrita do mundo atual. Assim como constatou o pensador francês, a absorção de cultura não ocorre passivamente; é necessário que haja interesse e energia para conquistá-la.

* * *

Observação - veja a polêmica que este texto causou:  http://mutuca.wordpress.com/2008/08/28/cultura-idealizada/.

Passagem da vida

CMSK (cintiama@globo.com)

 

“O encanto da Londres moderna não é ser construída para durar, é ser construída para passar”. Virgínia Woolf, em Cenas Londrinas, explica um dos motivos pelos quais é tão apaixonada pela capital inglesa: esta não fica presa ao passado, mas está constantemente  mudando. De fato, tal característica é fascinante; trata-se de um desperdício estacionar a vida no que já foi, nos que já foram e em tudo que poderia ter sido, quando se pode deixá-la passar para que se aproveitem todas as novas experiências e oportunidades que ela pode trazer. Eis a beleza do presente: apenas nele a vida tem movimento; passa, rumando para o futuro e deixando o estático passado.

 

Deixar aquilo que passou não significa esquecer, mas compreender que a história não pode ser mudada. É claro que estudar e entender experiências passadas é importante para aprender com os erros antes cometidos e entender por que eles aconteceram, por exemplo. Por outro lado, cabe lembrar que as pessoas recorrem ao passado, na maioria das vezes, para buscar refúgio do presente ou para entender as origens de determinadas situações atuais. Assim, a grande relevância dele se dá em função do presente.

 

O presente é o único tempo passível de ser vivido deveras, de modo que aqueles que não o acompanham estão dessincronizados com a realidade. Por causa disso também, apenas no presente pode-se ser feliz por inteiro. Aqueles que foram felizes no passado e estão miseráveis no agora tendem a viver das boas lembranças. Ocorre que isso muitas vezes impede que eles vejam as novas possibilidades de serem felizes, uma vez que a história não se repete e, para eles, a única felicidade é a que viveram e à qual ainda estão presos. Analogamente, existem pessoas que projetam para si um futuro glorioso, mas agarram-se tanto a ele que não percebem alternativas. As escolhas de cada um devem ser feitas, claro, tendo-se em vista o passado e o futuro, mas sem que se esqueça que é o que realmente importa é ser feliz no presente. A felicidade, bem como todos os sentimentos bons, atemporais e universais, deve ser “eterna enquanto dure”, nas palavras de Vinícius de Moraes.

 

Tais sentimentos, e o amor é um bom exemplo, não mudam, por mais que o tempo passe, mas só podem ser vividos enquanto duram; e não é sempre que eles se manifestam na alma humana. Por isso o homem está sempre a buscá-los: ele quer amar, quer ter esperança, quer ser feliz, e planeja seu futuro de modo que este seja repleto dessas emoções. Entretanto, na verdade, o que se busca é garantir que o futuro seja bom porque um dia ele será vivido, será presente.

 

Há pessoas que vivem de lembranças, se alimentam daquilo que perdura, outras, por sua vez, vivem em função do futuro, mas dessa forma elas o estão adiando, pois se agarram a um projeto que, por mais que seja completado, não garantirá a felicidade, objetivo maior da vida. A vida ganha sentido à medida que pode ser, de fato, vivida e sentida. O encanto da vida não é ser construída para durar, nem ser construída para um dia ser vivida; é ser construída para passar, e assim permitir que cada um aproveite o máximo que ela pode oferecer.

Publicado em: on 23 Agosto, 2008 at 7:28 am Comentários (2)
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Crescer dói

Fernando Sakamoto (fernandoysakamoto@gmail.com)

 

Na natureza, a chuva, em períodos adequados, possui um papel fundamental, auxiliando no crescimento de vegetais e na manutenção do ecossistema. Uma planta, porém, não depende apenas da água para conseguir crescer e amadurecer, necessita, também, de uma série de outros fatores, tais como a luz e a temperatura. O Brasil é como este vegetal, que encontrou um ambiente favorável para se desenvolver, mas, por algum motivo, cresce lentamente, o que o distancia de seu pretenso ápice.

 

O Brasil, desde a descoberta pelos portugueses, fora visto como um paraíso, onde os recursos abundavam e a terra era “de muito bons ares”. Talvez, por esse motivo já enraizado na mentalidade dos futuros descendentes e, provavelmente, na maioria daqueles que formarão a cultura brasileira, tenha-se criado uma situação de acomodamento. O país, como um todo, nunca precisou batalhar pela sua própria sobrevivência, já que os recursos necessários estiveram sempre à mão, não adquirindo uma experiência básica ao amadurecimento.

 

Ainda no retrospecto brasileiro, percebe-se que o país nunca foi totalmente independente, pois quando teve a oportunidade de adotar uma postura sensata, preferiu o epifitismo, sempre precisando de um apoio. Um símbolo capital desse distúrbio foi nossa independência ter sido declarada pelo imperador da própria metrópole. E, mesmo depois de desvencilharem-se os laços portugueses, vieram os ingleses e, posteriormente, os estadunidenses; “apoio” que perdura até hoje. Por não saber se conduzir por si só, o Brasil aceitou passivamente se submeter a desmandos alheios.

 

Através dos anos, é possível notar um traço no caráter do brasileiro, no qual há predomínio do emocional sobre o racional. Conseqüentemente, é perceptível o gosto por privilegiar os pequenos e aparentes benefícios de curto-prazo em vez de pensar sobre a raiz dos problemas, comumente levada ao descaso. Como diria Confúcio, “pensar dói” e dá trabalho, ainda mais quando se possui uma propensão à preguiça e ao comodismo barato. A dor que agora se ameniza, entretanto, pode ocasionar uma forte enxaqueca no futuro, assim que os ventos favoráveis ao Brasil cessarem.

 

Um exemplo daqueles para os quais nem sempre os Zéfiros sopraram favoravelmente é o Japão, um pais pouco privilegiado e quase sem recursos minerais, mas que nem por isso deixou se acomodar. Adotando uma postura mais racional, trabalhadora e com uma raiz independente, gerou seus próprios ventos e já atingiu seu amadurecimento. Tal processo, porém, não se deu de maneira imediata, tendo sido necessário um longo e árduo caminho.

 

A chuva há muito tempo já precipita sobre o Brasil, permitindo o seu crescimento mas, assim como na natureza, a água em excesso não é saudável ao desenvolvimento de um vegetal; não podemos depende exclusivamente de um fator. O problema é interno, devemos ter atitude e trabalhar, semeando de maneira mais racional, removendo as raízes calcadas em velhos preceitos e instalando-se o hormônio certo do crescimento. Só assim teremos a oportunidade de ver nossa flor desabrochar e gerar bons frutos.

Publicado em: on 21 Agosto, 2008 at 7:03 am Comentários (1)
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Homens e livros

Débora Coutinho (binhacoutinho@yahoo.com.br)

 

Integrar-se, eis uma das inúmeras buscas do indivíduo. Há entre nós a necessidade de interagirmos com o coletivo, e a principal ferramenta que utilizamos para nos interligarmos é a comunicação. Em primeira instância nos valemos do choro, e com o passar dos anos rebuscamos essa comunicação com o auxílio da fala e, por fim, da escrita. A leitura não só nos integra como participa direta ou indiretamente da nossa própria evolução individual; por isso mesmo ela se torna um pilar fundamental da nossa sociedade.

 

É notável a fragilidade desse pilar, uma vez que grande parte da população atual não se inclina à leitura, preferindo a cultura do “ágil, fácil e pronto” dos domínios da internet. Essa substituição é preocupante, pois interfere nos planos socioculturais da humanidade. A cultura massificada que não valoriza a leitura ameaça a compreensão dos mecanismos sociais nos quais estamos inseridos.

 

Ler possibilita ao indivíduo expandir sua concepção de mundo, aproximando culturas, permitindo a tolerância e o conhecimento ao que nos é estranho. Faz-nos questionar posições (e imposições), tira-nos da inércia do consumismo puro e inconsciente e nos motiva a procurar respostas.

 

Integrar-se não se resume a aceitar conceitos. Talvez provenha daí a insatisfação que assola a todos hoje em dia. Integração requer estudo, análise conhecimento, e nada disso é possível de se obter em sua totalidade sem a leitura. Esta insere o indivíduo na humanidade, tornando-o consciente de suas responsabilidades, permitindo assim as mudanças. São estas últimas, aliás, as alavancas para a evolução da sociedade, pois permitem a concretização dos erros e dos acertos que nos regem e que nos regerão.

 

Os livros nos possibilitam um amadurecimento através da “vivência” de experiências que talvez nunca nos ocorresse. Aquele que lê amadurece intelectualmente e compreende o mundo com menos dificuldade a partir do momento em que se despe de preconceitos. Só se livra dos preconceitos quem se aventura em culturas que lhe são estranhas. Afinal, está aí o principal papel do livro: apresentar os seres humanos uns aos outros.

 

Uma vez apresentados, é possível iniciar o diálogo, compreender impasses, buscar soluções. A leitura nos integra e nos permite evoluir. Para o desenrolar da nossa História, precisamos não só de homens que vivam, contestem, errem e aprendam, mas também de livros que nos recordem os feitos e que nos inspirem ações ou reações novas. Em suma, como diria Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”.

Publicado em: on 20 Agosto, 2008 at 9:17 am Comentários (1)
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Amar não é…

 

Por Amanda Rossetto (mandinhaross@gmail.com)

A idéia do amor vem sendo propagada há milênios. Irracional, inexplicável, irreprimível… De Camões a Rita Lee, todos têm algo a dizer sobre o mais nobre dos sentimentos. É um querer mais que bem querer. É para sempre. Essência do altruísmo, manifestação de Deus em seus filhos… Na prática, não é nada disso. Aos mortais, filhos do cianeto e do amianto, o amor como descrito acima é mera fantasia.

 

Apesar de haver sempre alguma loucura no amor, há também sempre alguma loucura na razão, e é por via da última que ele vem sendo dissecado. Voltaire uma vez afirmou ser a paixão uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma – mal sabia ele estar tão perto da verdade. Assim como analgésicos, amar desencadeia uma série de reações fisiológicas no corpo humano. Cientistas afirmam ser uma das causas da paixão o baixo nível de serotonina no cérebro; e já existe registro de ferormônios capazes de induzir o amor. Claro, amar não é apenas uma questão de Química. Em meio a neurotransmissores e hormônios, é preciso haver o desejo, ou melhor, a carência.

 

Segundo Platão, amor é o desejo por algo que não se possui, sendo nesse sentimento de falta o amado tido como complemento. Uma pessoa só nunca poderia ser inteiramente feliz, pois sempre careceria de algo. Logo, todo amor é antes amor-próprio, já que se ama não em prol do próximo, mas em benefício de si. Amam-se as sensações agradáveis que o amor produz; é amado o desejo, não o desejado – talvez por isso esse mude com tanta freqüência.

 

Realmente, o amor é eterno enquanto dura – o que nos tempos atuais é cada vez mais efêmero. Troca-se de parceiro tão depressa quanto de modelo de celular, muitas vezes amando com igual intensidade tanto a nova companhia afetiva quanto a telefônica. Faz sentido o fenômeno: se amar consiste em olhar juntos para a mesma direção, a qual na sociedade contemporânea é o espelho, o amor hoje em dia é um dos mais duradouros – o reflexo dos próprios anseios está sempre presente na vida de cada um.

 

Amar é divino, o homem é animal. Como tal, vem utilizando o amor como passatempo, droga momentânea a entorpecer necessidades pessoais de afeição e aprovação. Banalizado, industrializado, deturpado. Amar não é racional. Amar não é egoísta. Amar não é passageiro. Amar não é. Mas são as mentiras sinceras que interessam.

 

Publicado em: on at 7:35 am Comentários (1)
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