Dos propósitos

Aos que já me perguntaram o que é mutuca (e também a quem nunca fez questão de saber), coloco esta antiga auto-entrevista. Há nela algo que morreu com o tempo (o site não existe mais, os links talvez não estejam funcionando), porém a essência – aquilo que me fez não apenas construir páginas na internet, mas principalmente abdicar de uma vida mais cômoda para ser professor – permanece. Eis a justificativa de eu ressuscitar este velho texto.

 

O que significa “Mutuca”?

1º de Março de 2006

 

O que significa “mutuca”?

Mutuca é uma mosca que incomoda o gado e os homens com sua picada dolorida. O dicionário diz ainda que é maconha enrolada, mas essa acepção nada tem a ver com o site.

 

Podemos esperar muitas polêmicas então?

Não pretendo chamar a atenção desse modo; seria um recurso barato. Tampouco considero que meus possíveis leitores sejam gado. O fato é que há muita coisa interessante que passa despercebida por todos nós. Meu intuito é facilitar o encontro de meus leitores com essas informações.

 

Não haverá poemas no site? Por ora só há prosa. A poesia não é algo interessante?

Não vejo problema algum em publicar poemas. A única restrição é quanto ao conteúdo. Prefiro temas objetivos. Se for um poema objetivo, tudo bem; se for lírico, irá destoar do meu propósito. O site se mira no conteúdo, não na pessoa que escreve.

 

Você é professor de Português. Será um site sobre literatura?

Também. Mas prefiro dizer que é um site sobre idéias. Não será surpresa encontrar algum artigo sobre Exatas. Há link para uma página de Biológicas, por exemplo.

 

Um site sobre idéias. Já não há fontes de informação o suficiente por aí?

Com certeza há. Visito diversas páginas por semana, fora os livros da minha biblioteca. Mas eu estaria me iludindo ao acreditar que todo aluno acessaria dezenas de sites de informação por semana ou formaria sua biblioteca em curto prazo (mais importante que formá-la é conhecê-la). O site será não mais que um almanaque.

 

Ele não corre o risco de ser superficial?

Não me preocupo com isso. Não é uma página para estudantes universitários se especializarem – pelo contrário! Meu público-alvo é aquela pessoa que procura abrir sua mente, para aquele que procura expandir seu leque de opções. Isso não significa, no entanto, que o conteúdo será ruim.

 

Não seria mais oportuno se seu site fosse só de Humanas?

Mais importante que escolher entre ser de Humanas ou ser de Exatas é optar pelo conhecimento. Restringir nossa área de interesses é mais nocivo do que parece.

 

Isso contradiz a necessidade de uma especialização cada vez maior.

É possível se especializar sem se fechar. Especialização e abertura são dois movimentos de extrema importância. Sem a primeira seremos superficiais, sem a segunda não saberemos pra que serve a primeira.

 

Você foi técnico eletrônico, hoje trabalha com Humanas. Foram essas situações que determinaram o que você é?

Creio que é simplismo dizer que o indivíduo é determinado por elementos externos. Muitas pessoas têm contato com Humanas e Exatas (todo mundo que faz colegial). O diferencial é que eu procuro vê-las como ferramentas conciliáveis. Não que eu busque uma síntese, mas muitos limites são desnecessários. Dizem que a ciência é mais precisa e a arte mais densa, mas o contrário também se pode verificar. Há diversos pontos de interseção; há muitas áreas de contato. Minha paixão pelas Exatas e pelas Humanas se liga à minha curiosidade e à capacidade que esses conhecimentos têm de alimentá-la.

 

Insisto: Você foi influenciado pelas Exatas até os 19 anos. Só depois é que começou a se interessar pelas Humanas. Você nega, mas seu site propõe uma síntese dessas ciências. Dá mesmo pra negar que o indivíduo seja um produto do meio?

De certa forma. Afinal o indivíduo tem condições de escolher o meio que irá influenciá-lo. Ele não é tão passivo assim.

 

Talvez isso seja polêmico…

Se eu não acreditasse que o indivíduo pode mudar sua história não teria feito este site.

 

 

 

 

Publicado em:  on 16 Janeiro, 2009 at 8:44 pm Comentários (6)
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Conhecer e saber

            Talvez o alho combata a gripe, a asma e até mesmo o câncer, mas que fede, fede. Na árdua missão de cortar calorias e cicatrizar uma úlcera, fiz ontem à noite lentinhas com ervilhas e alho (também fiz cogumelos com tomilho, mas isso não importa). Sobrando um pouco da gororoba, a pus na geladeira e fui dormir. Hoje pela manhã, quando fui hidratar meu estômago, senti algo estranho e, como minha esposa não costuma fazer sucos temperados, logo cheguei à conclusão que abre este texto.

           

            Sem ter mais o que fazer, fui até o Peg & Faça da Rua Cerro Corá (número 2222, se servir às posteriores investigações de algum cabalista). Chegando lá, fui direto expor ao atendente minhas misérias:

 

- Bom dia. Minha geladeira está fedendo e eu sei que carvão absorve o odor, mas não sei se vocês vendem carvão aqui.

 

Com o sorriso malicioso de quem se vê obrigado a conversar com um imbecil que acredita em mandingas, ele me respondeu gentilmente:

 

- Não temos carvão, mas temos algo que funciona. (Se por acaso alguém não se lembra dos significados semânticos das conjunções, traduzo o raciocínio do vendedor: Não temos carvão, felizmente, pois carvão não serve para nada, mas temos outro produto, o qual, jovem estulto, funciona.

 

Agradecido pela gentil referência a meu estado de conservação, saí da loja, e como não tinha nenhum livro em mãos comecei a ler a embalagem do produto, onde estava escrito claramente:

 

COMPOSIÇÃO: carvão ativado.

 

Mas o Zacarias (ele tinha cara de Zacarias, o vendedor) estava certo: segundo alguma teoria científica que ainda não foi publicada, talvez seja o revestimento de plástico que dê ao carvão seu princípio ativo. Sentindo-me o próprio Zé das Couves, reconheci minha ignorância. Que mais fazer? Viva a tecnocracia!

Publicado em:  on 15 Janeiro, 2009 at 1:59 pm Comentários (2)
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Cinco Aforismos

Quem não leu a introdução, clique aqui.

 

ü  Não hipervalorize o futuro; quando chegar, ele não durará mais do que um instante.

 

ü  As mulheres são como o labirinto ideal: sugerem, mas não nos revelam o percurso.

 

ü  Só há virtude se houver escolhas.

 

ü  A inteligência catalisa a beleza; esta, por si só, não basta.

 

ü  Falar é fácil; dizer é difícil.

 

 

 

Publicado em:  on at 11:53 am Comentários (9)
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Dos aforismos

Definir é importante; limitar, não. Como resistir? Um texto sobre aforismos deve se iniciar com aforismo. Mas por que este, aparentemente paradoxal, visto que definir e limitar são aparentemente sinônimos? Aí está, as palavras devem ser lidas dentro de um determinado contexto, caso contrário corremos o risco de não as compreendermos devidamente. Leis e regras, amizade e coleguismo, alegria e felicidade, ética e moral, qualquer um desses esses pares exemplificaria bem a questão: podemos analisá-las pelo grau de sinonímia ou pela antítese que elas provocam.

O que importa aqui, no entanto, é o duplo do aforismo inicial. Na frase em questão, definir significa buscar finalidade – já pôr fins, fronteiras, seria o papel do limitar. Assim deve ser o aforismo: ele deve ser incisivo sem ser taxativo; ele deve estimular o raciocínio, e não fomentar preconceitos.

 

Uma redondilha contra o determinismo.

Uma borboleta pousa
no arame farpado;
cansada de flores.

O olfato inda vinga;
também a visão, perfeita.
Mas flores são só flores.

Já a liberdade é tudo.

Publicado em:  on 14 Janeiro, 2009 at 10:34 pm Deixe um comentário
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É a genética que determina o caráter?

“Quem quer que levante a voz contra a ciência deveria ser obrigado a viver sem eletricidade, papel higiênico e água potável”.  Com outras palavras, mas com o mesmo tom e ênfase, o discurso em prol da ciência às vezes se utiliza de um raciocínio pra lá de questionável. Não raro, escuto e leio argumentos legitimando as tentativas de se provar que as ações individuais resultam menos de escolhas propriamente ditas do que de uma propensão genética contra a qual nada se pode fazer. A semântica até tenta disfarçar, mas o que se esconde por trás do falatório é uma espécie de determinismo enrustido, novamente fora de hora.

 

A exaltação cega da ciência faz com que as borboletas do estômago se transformem em taturanas. Traduzindo a metáfora: quando a paixão se torna passividade; amor se torna angústia; prazer, obrigação; conhecimento, presunção. De nada vale aceitar passivamente aquilo que se divulga como conhecimento científico sem o assimilar devidamente; o conhecer sem o saber é mero disfarce de quem tenta se passar por sabido. Aliás, nunca é demais lembrar que etimologicamente sabedoria vem de sabor; é preciso treinar o paladar, reconhecer na língua e no raciocínio a veracidade de uma teoria.

 

O exemplo que me incomoda atualmente ilustra bem o poderio do discurso científico: a dita opção sexual é ou não uma opção? Muitos argumentos defendem que a consciência individual provém de determinismo genético. A discussão poderia se arrastar em meio a elucubrações retóricas e disputas erísticas, mas longe de pôr em prática o debate democrático isso me cheira a desvio de foco.

 

Mais do que uma polêmica, percebo uma questão filosófica das mais importantes: quais as consequências de se negar a responsabilidade do indivíduo sobre suas ações? Em 2008 eu assisti a dois filmes que, de um modo ou outro, tocam no assunto: Ninguém escreve ao coronel e Meu irmão é filho único, sobre o qual ainda não escrevi. Obviamente algum dia na vida todo mundo ouvirá um amigo frustrado dizer que foi culpa do destino, sem que ninguém lhe aponte o indicador citando, ainda que indiretamente Nietzsche: “Ninguém pode construir em teu lugar as pontes pelas quais precisarás passar para atravessar o rio da vida – ninguém, exceto tu, só tu”.

 

Certa vez, não sei onde, li que na base do Cristianismo está a valorização do indivíduo em oposição à opressão do estado romano. Por isso mesmo causa-me estranheza e certo temor ler que “Uma grande vantagem de nossa liberdade em Cristo é que não precisamos mais depender de nossos próprios esforços e atos para salvação!“.

 

O que pode o indivíduo num meio em que ciência e religião tentam lhe raptar a consciência? Mesmo com meus parcos conhecimentos sobre o assunto, apostaria que nem a verdadeira ciência nem o verdadeiro cristianismo defenderiam tamanha violência contra a única coisa que de fato nos diferencia na multidão. Ou eu deveria admitir que os livros que leio, as amizades que faço, os ideais que defendo são imposições aleatórias vindas sei lá de que antepassado?

Publicado em:  on 13 Janeiro, 2009 at 8:49 pm Comentários (32)
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