Espirre com cautela

Estou doente. E vocês sabem como a doença é algo constrangedor. É traumatizante, por exemplo, ter diarreia. Até o nome é incoveniente. Em grego, diarreia “é fluir por todos os lados” – prefiro nem imaginar como isso seria possível. Já em português, até fizeram o acordo ortográfico para lhe tirarem o acento. Mas para quê? De nada vale tirar o acento da diarreia, melhor seria tirar a diarreia do assento. Enfim… Outra enfermidade das mais incômodas é o resfriado.

 

Dia desses, estava eu num baile da terceira idade tomando meu suco de ameixa quando soou claro e imperativo um espirro daqueles. Uns tiveram pena, outros se comoveram, eu me assustei, mas sempre tem alguém educado que diz:

 

- Deus te proteja, meu filho!

 

A frase não poderia ser mais precisa. O espirro, etimologicamente, é o antônimo do sopro divino no barro adâmico. SPIR, vocês sabem, é “soprar” em latim. Deus soprou a Adão seu espírito, o espirro nada mais é do que um sopro escandaloso.

 

É difícil acreditar, mas tem gente que faz faculdade de espirro. Quero dizer: de sopro. Peraí, deixe-me explicar. Não disse que tem gente que faz cursinho, presta vestibular e, entre uma cerveja e uma festa, estuda a filosofia do espirro – imaginem como não seria a tese entitulada O feudalismo em Branca de Neve e os sete anões pela perspectiva do anão Atchim ou O resfriado na Idade Média: assim começou a inquisição. Nada disso. Lembrem-se: como é sopro em grego? Psyque. Psicologia é, em primeira instância, o estudo do sopro divino, o estudo do espírito, o estudo da alma. Sem mistérios, certo? Se algum dia, na fila do pão ou no ponto de táxi, alguém lhe perguntar sobre com que nomes o livro de Aristóteles Peri Psykhês foi traduzido, você certamente saberia identificá-lo como o De Anima, na tradução latina, ou o Da Alma, na tradução portuguesa. E isso sem que ninguém precise lhe soprar a resposta.

Publicado em:  on 25 Fevereiro, 2009 at 4:53 pm Deixe um comentário
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Filho da mãe

Etimologia é um negócio perigoso. Tem um aluno meu que se encantou tanto com etimologia que se tornou meio vagabundo nas outras coisas. Veja só: um pouco antes de estudar etimologia, ele falou para a mãe que queria aprender piano. Daí ela fez um esforço danado, comprou um piano de cauda – daqueles bem caros – para ele, contratou um professor particular, mas foi só começar a estudar etimologia e ele deixou tudo de lado. Obviamente, a mãe ficou muito brava. Pô, Jaime! Eu comprei o melhor piano que pude – ainda estou pagando as prestações –, deixei de trocar de carro por causa disso.

 

E passou um belo dum sabão no coitado. Falou, falou, falou até a orelha do menino começar a arder de tanto falatório.

 

- bem, mãe! Vamos parar com isso. Vou considerar.

 

A mãe ficou radiante. Ele falou que ia considerar. O pessoal diz que adolescente é mal educado e tal, mas meu filho não. Meu filho ficou de pensar no assunto. Ele ficou de refletir o problema. Então, num pulo, ela foi correndo à cozinha preparar a sobremesa favorita do garoto. Ela ficou lá um tempão, quando a torta de sorvete ficou pronta já era noite. Foi quando ela notou um estranho silêncio pela casa. Ué, não era para ele estar tocando piano? Ela foi até a sala e não o viu. (Não viu o menino, pois o piano pelo menos ainda estava lá). Ela o procurou no quarto, no banheiro, na outra sala e nada! A mãe foi encontrá-lo na varanda, deitado, olhando para o céu.

 

- Seu mentiroso! Safado! Você me disse que ia tocar piano!

 

- Não disse, não.

 

- Você me falou que ia pensar no assunto!

 

- Não disse, não.

 

- Você me falou que ia considerar!

 

- E eu estou considerando.

 

- ?

 

- Mãe. Veja bem. “Considerar” vem de síder (que em grego significa astros, estrelas). Etimologicamente, “considerar” significa examinar, observar atentamente as estrelas. Como o papo estava meio chato eu vim para cá relaxar um pouco.

 

Não me pergunte o que a mãe fez com a torta de sorvete.

Manhã enfezada

Hoje cedo eu estava vindo para cá de ônibus. Estava lá sentado, lendo um livro calmamente. Atrás de mim, tinha uma mulher com uma criança no colo, um menino de uns cinco anos. Percebi quando ela começou a puxar papo com a vizinha de banco:

 

- Esse meu filho é uma peste!

 

Na hora, pensei, torci – só não rezei porque não deu tempo – para que a outra ignorasse ou respondesse algo como “problema seu!”, mas infelizmente elas começaram a conversar.

 

- Quando eu vou ao supermercado, ele pede um doce, uma porcaria qualquer. E se eu não dou, ele se joga no chão e fica esperneando. Esse meu filho é um peralta, um energúmeno, um capeta. Teve uma vez…

 

Como se pode imaginar, eu nem sabia mais de que tratava o livro que eu tentava ler.

 

- Esse meu filho é muito enfezado. Não sei o que fazer com ele.

 

Nesse momento, minha vontade foi de virar para trás e dizer “dê um laxante a essa criatura!”. Mas a mãe não ia entender:

 

- Laxante, seu moço?

 

- Isso mesmo. Aquilo que relaxa os intestinos, que libera a obra, que nos estimula a fazer um cocô gostoso, que ajuda a botar um ovinho, sei lá que nome a senhora dá a isso…

 

- Mas o que o laxante tem a ver com isso?

 

- Se ele está enfezado, etimologicamente ele está recheado, ele está repleto de fezes. Talvez por isso ele seja tão chato.

 

Infelizmente, não tive coragem de abrir a boca. Aquela situação toda me deixou meio bravo. A melhor coisa a fazer seria descer do ônibus e ir logo me desenfezar num canto qualquer.

Publicado em:  on at 2:05 pm Comentários (2)
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Sobre “Benjamin Button”

 

“A vida é breve” – Há mais de dois mil anos, Hipócrates já havia percebido o óbvio: um dia deixaremos de existir. Nosso corpo, nossos gestos, nosso olhar, tudo aquilo que hoje é nosso, amanhã só restará em retratos e lembranças. Estamos sempre ao alcance da ameaçadora sombra da morte; não há o que fazer. “No fim, todos vamos para o mesmo lugar, apenas pegamos caminhos diferentes para chegar lá” ouve-se em certo momento de O curioso caso de Benjamin Button, este sutil filme sobre os caminhos da vida.

 

A sinopse é simples: Benjamin é um sujeito que nasce velho e, à medida que o tempo passa, começa a rejuvenescer. Com esse esquete, seria possível fazer uma comédia tosca como De repente 30 e coisa do tipo, mas felizmente não foi isso que aconteceu. O filme começa em meados de 2005 num hospital de New Orleans, onde uma velha senhora (Dayse) sabe estar vivendo seus últimos momentos. A data e o lugar não foram escolhidos por acaso; há um evidente paralelismo semântico: enquanto Dayse aguarda a iminência da morte, todos os demais vivem a expectativa do Katrina, furacão que destruiu parte da cidade naquela época – seria a primeira de muitas associações envolvendo morte e mar.

 

A personificação, por si só, diriam alguns, é mero enfeite, chavão, arremedo de poesia. De fato assim seria se a metáfora se perdesse do todo, o que felizmente não acontece. É importante lembrar que a personificação dá corpo a substantivos abstratos: os ventos são a respiração ofegante da morte; a umidade, sua pesada sombra. Evidência flagrante de que a analogia não fora escolhida ao acaso se encontra na cena seguinte, em que se narra a história de um relojoeiro cego que, desolado com a morte do filho na Primeira Guerra Mundial, constrói um relógio cujos ponteiros caminham no sentido anti-horário – símbolo não só de sua revolta contra a violência desumana das batalhas, mas também de seu lamento diante da implacável e irrevogável força do tempo. Tendo perdido seu norte, desorientado em seus ponteiros, Mr. Cake, o relojoeiro, aponta a bússola para o grande e misterioso mar, onde desaparece.

 

A vida é breve, vamos todos para o mesmo lugar. A cabeça da criança envelhecida, a quem desde sempre foi dito que viveria pouco, deveria se inundar do mais profundo e pesado pessimismo. Se ela tivesse lido Sêneca, este lhe diria que “não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela”.[i] Como Sêneca não aparece no filme, é com outras pessoas que Benjamin começa a aprender a lição. Com a velha de cujo nome ele não se recorda, aprendeu que, mais importante que tocar bem o piano, é sentir a música que está tocando; com Mr. Oti, um pigmeu africano que entre inúmeras outras aventuras se fingia macaco assustando crianças brancas num zoológico, aprendeu que o mundo não se restringia à casa de velhos em que morava; com o capitão Mike, ele aprendeu que deveria ir em busca de seus sonhos. Em suma, o recado do pensador romano, de um jeito ou de outro, o alcançou; Benjamin percebeu que, sendo a vida incerta, o melhor seria saboreá-la da melhor maneira possível.

 

Não cabe aqui detalhar o enredo do filme, no entanto alguns pormenores merecem destaque. Capitão Mike, por exemplo, tem tatuado no peito a imagem de um beija-flor. O filme nos entrega de lambuja um significado importante: de acordo com o homem do mar, o pássaro morre assim que se vê impedido de bater suas asas, simbolizando a importância da liberdade à nossa natureza. No entanto, não é só isso. As pequenas asas daquele pássaro minúsculo descrevem no ar o oito deitado; uma pequena metonímia ecoando a mensagem: nos mínimos detalhes, podemos encontrar o infinito. Ainda que soe a breguice, o problema é atual e constante: quantos de nós não deixamos de lado o mundo real e concreto para nos evadirmos num devaneio que nada de proveitoso nos traz? Nas palavras do poeta Bruno Tolentino “o mal do pensamento é abandonar o efêmero, trocá-lo pelos ossos do Ideal”.[ii] Como bem notou o crítico Luiz Carlos Merten, a famosa cena em que Benjamin e Dayse se miram no espelho, no exato e único momento em que ambos estão com a mesma idade, também remete à importância da concretude, de curtir o momento presente, sem que as abstrações (sejam disfarçadas de saudades, sejam disfarçadas de planejamento) nos raptem.

 

Estaríamos aqui no segundo terço do filme. Muito mais poderia ser dito, mas – ora bolas! – deixe este texto de lado e vá ao cinema. Nenhum manual substitui o próprio paladar.


[i] Sobre a Brevidade da Vida (tradução de Lúcia Sá Rebelo). São Paulo: L&PM, p.26.

[ii] O Mundo como Idéia. São Paulo: Globo, p. 393:

Porque pertence ao instinto natural

desejar, cortejar o passageiro,

o coração em busca do real

é como um perdigueiro atrás do cheiro

 

fugitivo da vida, um perdigueiro

imaginando a presa. Mas o mal

do pensamento é abandonar o efêmero,

trocá-lo pelos ossos do Ideal,

 

 e o pobre perdigueiro pouco a pouco

desiste da aventura da caçada

e desenterra um ossuário. Rouco

 

de ladrar noite adentro contra o nada,

no coração há um perdigueiro louco:

o que Uccello soltou contra a alvorada.

 

Conspiração do universo?

João Francisco Ferreira de Souza

            Existem registrados na história vários famosos feitos e descobertas que, aparentemente, começaram com um acaso ou lance de sorte. Kekulé, ao sonhar com uma cobra mordendo a própria cauda, foi capaz de criar um modelo para a estrutura do benzeno, substância química importantíssima para a sociedade moderna. Isaac Newton, ao ser atingido na cabeça por uma maçã em queda, começou os esforços científicos que resultariam na mecânica gravitacional. A invenção do velcro foi feita por um suíço que, após um passeio no parque, ficou impressionado com os poderes adesivos do carrapicho. Mesmo em épocas, regiões e áreas de atuação diferentes, essas três figuras históricas apresentam muito em comum.

            Sexto sentido, intuição, pressentimento, cisma: vários são os nomes para a voz do inconsciente. Através de um processo pouco conhecido pela ciência, nosso cérebro é capaz de trazer à luz pensamentos formulados inconscientemente. É o início de uma idéia. E todas as idéias trazem questionamentos junto consigo. Talvez o velcro não tivesse sido inventado se há algum tempo não houvessem se perguntado: por que o carrapicho gruda tão bem nas roupas? Seria possível imitar tal mecanismo?

            A idéia, o questionamento, a busca por respostas. Muitas pessoas já foram atingidas por maçãs em queda livre e o Brasil é o país mais rico em carrapichos do mundo, mas foi Newton que descobriu a gravidade e foi um suíço o inventor do velcro. O que separa esses extraordinários cientistas da maioria de seus contemporâneos é que eles foram capazes de perceber a realidade de uma maneira crítica, notando aquilo que passou despercebido por todos os outros. A partir daí, a repetição exaustiva de experimentos e o uso da razão para montagem de uma teoria foi imprescindível para o sucesso.

            Outra característica comum entre grandes cientistas é a tenacidade, pois nem sempre os modelos teóricos funcionam na prática, sendo necessário reformulá-los. A convivência com erros é uma constante, servindo aquilo que fracassou como aprendizado e estímulo. Einstein teve de reformular sua teoria várias vezes até que chegasse à fórmula definitiva que o deixaria eternizado: E = m.c².

            Grandes homens foram, antes de tudo, grandes observadores, que souberam lidar com fracassos, usando a mais poderosa ferramenta humana: o cérebro. Intuição e tenacidade misturaram-se na História e daí surgem grandes idéias e descobertas que sustentam nossa base de conhecimento até a atualidade.

           

Publicado em:  on 1 Fevereiro, 2009 at 10:13 pm Comentários (3)
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