Haiquases (?) – 2

O galho seco
sustenta o corvo.

***

a memória
o tempo
sussurra.

***

Aonde se esconde
o canto da aranha.

***

Rápido
rapto
os sonhos vagueiam

***

Da flor escondida
o perfume basta.

***


solidário
o silêncio

***

No inverno
o sol é ilusão
do vento.

***

Feriado
taco fogo
no formigueiro.

***

Fim de tarde
A borboleta repousa
                                            no sino
O padre atrasa o sermão.

Publicado em:  on 30 Maio, 2009 at 11:09 pm Comentários (1)

Sem refugar

 

No início da semana passada, mal havia controlado a balbúrdia da sala de aula, notei que um aluno magrinho de cabelos emaranhados se aproximava segurando um pequeno pedaço de papel. Ao contrário do que eu supus, não era daqueles bilhetes que recebemos no trem (Sou surdo, minha família não me alimenta, me arruma uns trocados, que Deus lhe abençoe), mas um folder, uma espécie de convite para a peça de teatro da qual o Lucas (o menino magro de cabelo emaranhado) participa.

Talvez por pena da cara de dó com a qual o aluno me abordou, talvez por não querer limpar a areia dos gatos, chamei minha esposa e fomos ao teatro. A expectativa era ver o Lucas escondidinho em algum canto escuro do palco, fazendo cara de paisagem ou – por que não? – numa participação especial como defunto que não fala, não se mexe, não atrapalha ninguém. Felizmente, porém, tive a segunda surpresa positiva da semana, pois além de ele ter conquistado um dos três papéis mais significativos da peça (havia uns sete ou oito atores), teve uma atuação bastante convincente, sem refugar.

Isso por si só já teria valido a pena, mas a peça também ajudou. Refugo conta a história de um jovem ebúrneo que, após perder a família, vai parar num abrigo de jovens no Reino Unido. A polissemia explora a analogia entre refugiado e refugo (lixo, sobra), mostrando com certa delicadeza a questão humana por trás de jovens que podem ser tornar a “escória da humanidade” (curioso como quase sempre a ênfase desta expressão recai sobre escória e não sobre quem a produziu).

Ainda que o nome do teatro faça com que muitos esmiúcem a peça à procura de um tom panfletário, creio que há coisas mais importantes a encontrar. E quem for assistir, encontrará.

Se a peça fosse minha, obviamente algumas escolhas, algumas ênfases seriam diferentes. Isso, no entanto, em nada desmerece a peça. Se for para ir ao teatro e encontrar algo que eu já conheça, algo com que já estou intelectualmente habituado, ficaria em casa me olhando no espelho.

E você?

 

***

 

Informações e reservas: 8634-2385

Publicado em:  on 27 Maio, 2009 at 9:46 pm Deixe um comentário

O Gabinete do Dr. Caligari: Uma metáfora do totalitarismo

Frederico Di Giacomo Rocha

 

caligari

 

A mente de um louco nas telas de cinema, a consciência sombria traduzida em imagens góticas que tanto simbolizam uma história de terror quanto representam uma crítica ao totalitarismo. “O Gabinete do Dr. Caligari” é um marco do cinema mundial infinitamente resenhado e comentado. Sua importância é indiscutível, foi o primeiro e mais importante filme do chamado expressionismo alemão que reinou entre 1918 e 1928. Antecedeu os clássicos “Nosferatu” de Murnau e “Metrópolis” de Fritz Lang, tornando-se o primeiro sucesso do cinema de horror. Segundo Fritz Lang, no livro “O Século do Cinema” de Glauber Rocha, não existia um movimento expressionista organizado no cinema austríaco/alemão, esse foi apenas um rótulo achado pela imprensa para catalogar aquele cinema primitivo de começo de século. Polêmicas a parte, não se pode negar as semelhanças estéticas entre as obras desses autores e a influência dessa escola de arte no filme de Wiene.

O roteiro é aparentemente simples: Francis, um homem internado em um hospício, fala a um outro, em flashback, de uma série de assassinatos cometidos em uma cidade do interior alemão (Holstewall) a partir da chegada de uma feira itinerante na qual se destaca o Dr. Caligari (Werner Kraus), uma espécie de pai do Zé do Caixão* com sua cartola e sobretudo negros, que controla Cesare, um sonâmbulo (Conrad Veidt) que dorme em um caixão e aparentemente prediz o futuro. Francis havia ido à feira com seu amigo Alan (Hans Heinrich), que tem sua morte prevista por Cesare ao visitar a “cabine” do velho doutor (daí a origem do nome do filme). Após o assassinato de Alan as suspeitas recaem sobre o Dr. Caligari e inicia-se uma luta contra o tempo para impedir novos assassinatos e provar a culpa do doutor, que revela-se alter-ego do chefe do hospício da cidade.

A astúcia do roteiro está no final, que muitos dizem ter sido criado sobre pressão dos produtores.(Se você ainda não viu o filme e não que saber o final, pule essa parte) Antes mesmo de obras como “Sexto Sentido” ou “Os Outros”, nas quais o fim muda completamente o sentido da história, Wiene transporta o narrador para o hospício, como um louco, sendo a primeira história um delírio e o Dr. Calegari, na verdade, um bondoso médico.

Uma das marcas que garantiram imortalidade à película de Wiene é o retrato surrealista do universo narrado por Francis, representando os delírios de um doente mental. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm (que hoje fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris) são contorcidos, escuros e criam um ambiente de opressão, tal qual as catedrais barrocas. O tempo é desterritorializado, não há menções à época em que se passa o filme, assim como ocorre na maioria das obras expressionistas. A maquiagem é pesada e tudo remete a um mundo confuso, assim como era a Alemanha da pós-guerra, marcada pelos traumas impostos pela derrota na Primeira Grande Guerra, as crises econômicas e a ascendência do nazismo ao poder. O nazismo, inclusive, selou o destino dos dois atores principais: Conrad Veidt fugiu da Alemanha para se tornar um astro nos Estados Unidos (interpretando o nazista em “Casablanca”) e Werner Krauss permaneceu na Alemanha para se tornar então o ator principal do filme de propaganda anti-semita “Jud Suss”.

O “Gabinete do Dr. Calegari” é um aviso, uma premonição do mal que viria varrer a Europa nas décadas de 30 e 40. Assim como “O Vampiro de Dusseldorf” de Lang, o filme de Wiene expõe os efeitos do autoritarismo, totalitarismo e da forma de influenciar as massas através do hipnotismo. É uma obra crua, de um tempo em que o cinema era mudo, preto e branco e começava a buscar sua linguagem própria. Uma vitória para o diretor que conseguiu transmitir com imagens fortes toda a angústia, medo e opressão vividos na entreguerras. Mal sabia Wiene que diante do horror de Hitler, seu Dr. Calegari poderia estar ao lado de Rapunzel nas histórias de carochinha.

Assista o filme aqui.

Publicado em:  on 9 Maio, 2009 at 9:16 am Deixe um comentário

Haiquases – 1*

O galo desperta,
inflama os pulmões
e acorda a manhã.

***

Pequeno como um haikai,
que surge e some dos dedos,
um desprezível haikai.

* O título foi sugerido por meu amigo Mário.

Publicado em:  on 4 Maio, 2009 at 10:04 pm Deixe um comentário