Flores e Moinhos

Michell Lee

 

  Um poeta, depois de ler e ouvir loas e loas sobre a rosa perfeita, sem espinhos, sai em uma jornada pelo campo aberto esperando satisfazer a sua curiosidade. Após dias procurando, só conseguira arranhões e ferimentos; a quantidade de espinhos era imensurável, contudo, encontrar a tal rosa tornou-se um requisito para a sua felicidade. É de forma semelhante a esse poeta que muitos de nós agimos: ouvimos ecos sobre o amor como expressão máxima dos prazeres, como requisito para a satisfação e bem-estar individual, como a chave para a felicidade. Esquecemos de refletir criticamente que não existem rosas sem espinhos e passamos a procurar algo inexistente. Embora pareça paradoxal a princípio, quanto mais procuramos esse amor idealizado, mais nos afastamos da felicidade plena.

 

  A felicidade é a convergência de dois tipos psicológicos que coexistem em um indivíduo. Em Dom Quixote, Cervantes caracteriza o protagonista como um sonhador, ambicioso, que busca algo a mais do que o simples tangível. Sempre em sua companhia, estava a figura de Sancho Pança, responsável por trazer Quixote de volta à realidade, de lhe mostrar as dificuldades e obstáculos. Dom Quixote e Sancho Pança representam os tipos que, em muitos aspectos, caracterizam um indivíduo. Para muitos, a felicidade é quando essas duas figuras se anulam: o nosso “Quixote” deixa de buscar necessidades a serem supridas – porque todas elas já foram satisfeitas – ; e o nosso “Sancho” para de nos apontar as dificuldades de sonhar alto – já que todos os desejos já foram consumados. É óbvio que tal estado de espírito é utópico em sua totalidade – o indivíduo feliz, de modo geral, é aquele que está sempre a sonhar com novas conquistas sem deixar, porém, de usufruir aquilo que já conquistou. Saber administrar os dois tipos psicológicos, isto sim, é a felicidade.

 

  O amor tornou-se um placebo. Desde a Era Medieval até os dias atuais, o homem sempre foi influenciado por ideias que tinham como caráter central o amor idealizado. Contudo, a perfeição é um valor dos mais abstratos e fugazes, portanto não pode ser concretizado plenamente na realidade; tanto é que Machado de Assis dizia: “A vida não é uma fábrica de sentimentos; não se vive como se romanceia”. Assim, como nem todos distinguem o ideal do factível, muitos dão demasiada liberdade para o seu “eu-Quixote”, empregando-se em uma procura constante sem, de fato, encontrar uma rosa sem espinhos – ou, metáforas à parte – sem satisfazer os seus desejos.

 

  Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, certamente concordaria que a felicidade e o amor deveriam ser naturais, ou seja, de forma livre e espontânea sem a preocupação com ideais de perfeição. Percebemos, portanto, que a felicidade ou mesmo o amor não precisam ser demasiadamente racionalizados: viver sem pensar nesse aspecto ajuda a manter o equilíbrio entre o Quixote e o Sancho que convivem dentre de nós. Assim, ao invés de o poeta  buscar uma rosa sem espinhos, e viver normalmente, é muito provável que ele ache diversos espinhos, porém, sorriria ao ver que estes possuem uma rosa muito bonita, de cores vivas e pétalas vistosas à qual ele não havia dado o devido valor. 

Meus haiquases

Ainda que morrendo
O canto das cigarras
Nada revela
.
Matsuó Bashô
(tradução de Olga Savary)

O homem médio só sabe falar dele mesmo. Foi mais ou menos isso que eu li dia desses em Memórias do Subsolo, de Fiodor Dostoiéviski. Quando otimista, como agora, consigo me considerar um homem médio, e como não sei falar de mais nada a não ser de mim, resolvi aproveitar a deixa para analisar alguns textos meus.

Há dois gêneros literários pelos quais venho me interessando ultimamente. O primeiro deles é o aforismo, a frase curta, de efeito, que consegue sintetizar um determinado raciocínio. Nos textos machadianos, por exemplo, podemos encontrar diversas frases curtas que seriam ótimos aforismos: “Há criaturas que chegam aos cinqüenta sem nunca passar dos quinze” (A Mão e a Luva), o qual poderíamos comparar com “A juventude é ótima, pena que seja desperdiçada com os jovens”, de Bernard Shaw. Cada uma delas, do seu jeito, a seu modo, repelem as idealizações tão costumeiras que se faz, respectivamente, à velhice e à juventude. O leitor, então, é convidado a refletir e, quiçá, a contestar as máximas que não raro se nos são oferecidas dia após dia.

A contraposição de ideias, aliás, é uma boa ferramenta para a construção do aforismo. Afinal, este, por se opor ao conservadorismo preguiçoso das frases feitas que são repetidas à exaustão, quando bem feito, busca justamente estimular o raciocínio, balançando nossos conceitos, fomentando o pensar. Desse modo, já que os livros de auto-ajuda enfatizam tanto o planejamento, o futuro, me senti estimulado a criar um aforismo que questionasse essa perspectiva: Não hipervalorize o futuro; quando chegar, ele não durará mais do que um instante. Talvez haja quem veja no meu aforismo uma paráfrase do famoso Carpe diem quam minimum credula postero, mas – insisto – ao optar pela litote evitei o tom afirmativo e categórico que daria ao aforismo tons de máxima. Daniel Piza, na introdução de seu livro sobre o assunto, sintetizou bem a questão: “Os melhores aforismos [...] são os que usam verbos como ‘ser’ e formas como o imperativo de uma forma relativista, não com a pretensão de criar juízos definitivos sobre o comportamento humano”.

O segundo gênero a que me referi é o haikai, o poema curto de origem japonesa, onde muitas vezes encontramos uma falsa simplicidade sintetizando belezas ímpares. Aqui no Brasil, diversos autores o cultivaram, desde Guilherme de Almeida (o qual aprisionou o poema japonês em rígidas formas parnasianas) a Paulo Leminski, passando por Millôr Fernandes, do qual retiro este belo exemplar que, coincidentemente ou não, tem muito a ver com o aforismo que deixei lá em cima:

A vida é um saque
Que se faz no espaço
Entre o tic e o tac.

Quando li esse haikai, a primeira coisa que me veio à cabeça foi uma bonita música do Vitor Ramil em que o cancionista consegue fazer melhor que  Millôr, pois transmitiu a ideia tanto pelas palavras quanto pelo malabarismo fonético com que intercalou aliterações oclusivas e assonâncias deslizantes.

Bem, voltando agora à mediocridade daquele que só sabe falar de si mesmo, vou analisar alguns de meus textos recentes. Nada direi sobre os cinco aforismos que escrevi tempos atrás, considero-os crescidinhos o suficiente para que se defendam sozinhos. Falarei então dos meus haikais, aliás, haiquases, visto que faltando-me habilidade para criar algo decente, optei por mesclar (assim ingenuamente creio) a sutileza do epigrama japonês com o tom incisivo da frase curta que os gregos nos legaram. (Não vá embora, leitor. Aforismos e haikais são textos curtos, daqueles que a gente lê sem perceber. Quando acabar, você nem perceberá o tempo que perdeu).

Fim de tarde
A borboleta repousa
                                            no sino
O padre atrasa o sermão.

O primeiro verso faz referência às 18 horas, momento em que se costuma entoar o famoso cântico de Bach / Gounod em homenagem à virgem Maria, momento em que os sinos da igreja costumam projetar aquele som forte e penetrante. No entanto, a borboleta, símbolo da ingenuidade e fragilidade, repousa no sino, colocando o padre perante uma difícil questão: cumprir com um costume de sua religião ou deixar que a pequena e frágil criatura de Deus continue seu repouso? Enquanto reflete sobre as formas abstratas e concretas com que o espírito religioso se manifesta, o padre deixa seus fiéis esperando enquanto contempla a borboleta.

No segundo verso, creio ter usado um renso, figura de linguagem japonesa que consiste na associação de ideias que uma palavra gera em relação a outra. Desse modo, o verbo “repousa’ guarda em si o movimento com que a borboleta chegou ao sino, justificando assim a quebra do verso em dois, como se eu desenhasse no verso o pousar do pequeno inseto.

Feriado
taco fogo
no formigueiro.

Nesse haikai, é possível perceber facilmente o encadeamento das assonâncias (feriAdo, tAco; fOgo, fOrmigueiro) o que, em si, serviria apenas para deixar os versos gostosos de se ouvir (ou enjoativos, depende do gosto). Há, porém, um elemento sonoro mais significativo para o poema. A aliteração das consoantes fricativas (Feriado, Fogo, Formigueiro) sugerem o ar que se sopra ao fogo para que este se espalhe. Já em relação ao conteúdo, é importante observar a antítese entre feriado (símbolo do descanso) e formigueiro (símbolo do trabalho), o que explicaria a postura um tanto macunaímica do eu lírico.

No inverno
o sol é ilusão
do vento.

O inverno nem chegou, mas acho que todo mundo aqui em São Paulo entende bem o que quero dizer.


solidário
o silêncio.

Há aqui outra tentativa de praticar o renso. O raciocínio raso sugeriria ao segundo verso o adjetivo solitário, o qual seria bastante pertinente, mas daria ao poema um tom demasiado negativista. Valendo-me do princípio do aforismo, procurei contestar esse lugar comum, insinuando que o silêncio, às vezes, pode nos ser uma sólida companhia.

Achei na internet um haikai de Bashô, o grande mestre japonês:

E tu, aranha
como cantarias
neste vento de outono?

O poema, no entanto, ficou a desejar (refiro-me claro à forma com a qual ele se apresenta em nosso idioma). Há nele um tom excessivamente didático. Buscando dar um toque a mais de sutileza, fiz este haiquase de dois versos:

Aonde se esconde
o canto da aranha.

Em que a preposição a aponta para o lugar onde se esconde uma preciosidade da natureza, da qual poucos podem usufruir. A sequência das nasais, não por acaso, procura tornar a pronúncia leve e sutil, pois o barulho atrapalharia a busca.

O galho seco
sustenta o corvo.

Para terminar, quero falar sobre meu haiquase favorito. Acho que ele admite quatro leituras. Vamos a elas:

1 – O galho seco sustenta (segura) o corvo;
2 – Pela técnica do renso: O galho seco sustenta o corvo. Mas como denotativamente isso não faz muito sentido, teríamos: A morte é tentada (atraída) pela velhice;
3 – O galho seco sustenta o corvo (a velhice alimenta a morte). E por último:
4 – O galho seco sustenta o corvo (a velhice resiste à morte).

Caso eu soubesse pintar, faria em sumiê justamente essa imagem.