farsa da boa preguiça

A Farsa da Boa Preguiça, de Ariano Suassuna, certamente tem momentos muito engraçados. Me diverti à beça com as insinuações maldosas aos modernistas de 1922, cujo grupinho foi bem representado pela Dona Clarabela, vulgar esposa de Aderaldo Catacão, patrocinadora das artes na zona da mata e no sertão nordestino. Sua sanha em encontrar a cultura popular autêntica lhe cobre de conceitos pré-estabelecidos que a impedem de apreciar o que o poeta popular, Joaquim Simão, teria a lhe oferecer. Até aí, nenhuma novidade – o saudoso sambista Moreira da Silva interpretou uma divertida música de Miguel Gustavo que muito bem satiriza o intelectual modernista (http://letras.terra.com.br/moreira-da-silva/1227524/) – mas é bom tirar as teias de aranha dos livros e polemizar o status quo de uma cultura que se quer antenada e chique à custa da eliminação de um individualismo que, ainda sendo anacrônico (eufemismo de que se vale Clarabela para julgar a crença do poeta como mera superstição), não deixa de ser o bem mais preciso do indivíduo.

 

Integrar sem desintegrar, digo antes que os coletivistas – massificadores? – de plantão tentem me pegar pelas laterais. De fato, a arte deve comunicar, ela deve ser a forma de expressão dos sentimentos e ideias do artista (quem nunca se incomodou com o onanismo intelectual – expressão atribuída ao crítico uspiano Davi Arrigucci Júnior – dos poetas concretistas?), mas – veja bem! – de expressão, não de aceitação passiva. A base do raciocínio, como bem sabem meus alunos do oitavo ano, está no contraste de ideias (Quem não for meu aluno do oitavo ano pode conferir aqui: http://mutuca.wordpress.com/2008/11/19/das-matizes/). O indivíduo que representa metonimicamente o senso comum, sem nada lhe acrescentar, não merece ser chamado por esse nome.

 

Mas voltemos à peça. Apesar das certeiras insinuações maldosas contra os modernistas de 1922, o público ria mesmo era quando os atores usavam (abusavam?) das gags sexuais. Obviamente, não deve ser nada horrível interpretar tais cenas com a Bianca Byington, mas quem ri com isso deve adorar o Zorra Total. O curioso é que a luxúria com a qual o público tanto se identificou é questão central na peça: mais do que a preguiça – que, vá lá!, pode ser produtiva – a luxúria sim se torna a perdição dos personagens; ela é a geratriz (ou o desdobramento) dos seus problemas mais significativos. É buscando a luxúria que Aderaldo vai atrás de Nevinha, a mulher do poeta. É à luxúria por Dona Clarabela, mulher de Aderaldo, que Simão Joaquim vai se entregar tão logo enriquece.

 

É significativo perceber que Simão é absolvido por “vencer” a luxúria mesmo sem ter vencido a preguiça. Porém mais significativo do que isso – eis onde Ariano Suassuna decididamente acertou a mão – é perceber que quem absolve o poeta não é Cristo, mas uma representação – popular – de Cristo. Mais do que termos sido criados à imagem de Deus, criamos um Cristo particular à nossa imagem de modo a termos a sensação de que seremos perdoados? Se for, isso é bastante coerente com a preferência que se dá à imagem do Filho (jovem e benevolente) e não do Pai (poderoso e tirano – pergunte a Jó ou a Lúcifer). 

 

Essa relação malemolente entre o protagonista e Deus também aparece em O Auto da Compadecida. Porém lá, mesmo quando a coisa aperta, João Grilo não hesita em mandar o diabo às favas. Nesta peça, mais ainda do que em Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, a absolvição do parvo nos convence. Mas o mesmo não se pode dizer do protagonista preguiçoso.

Joaquim Simão é ao mesmo tempo conservador e desleixado. Se eu dissesse isso apenas devido à forma displicente como ele se esforça para resistir aos encantos e “catucadas” de Clarabela, estaria perdendo nosso tempo. O que mais me interessa na verdade é o parentesco entre o herói da história e homem cordial sergiobuarquiano (Raízes do Brasil, capítulo V), aquele que confunde flexibilidade com aversão às normas; liberdade com descompromisso; tolerância com desapego às ideias. No folder distribuído na entrada do teatro, leio “o autor nos leva a perceber as sutilezas e artimanhas do caráter humano, mas também sua complexidade e suas potencialidades – de grandeza e de mesquinharia,  às vezes na mesma pessoa”. Mesquinharia tudo bem; grandeza não vi.

P.S.: a peça reestreia em Agosto no  teatro do Shopping Eldorado. Dependendo de como estiver minha agenda, irei lá me divertir novamente.

2 thoughts on “farsa da boa preguiça

  1. Realmente, público que ri de humor do tipo “Zorra Total” tem de ficar em casa e se orientar antes de assistir a qualquer outro nível de programação que esteja um pouquinho acima! Isso me lembra o humor fraco e previsível da peça “Trair, Rir e Coçar, é só começar”, outrora considerado sucesso total de publico. Vai mal o grande público, hein? Parabéns pelo texto! Voltando aos palcos, pretendo assistir à peça e conferir in loco.

  2. Pingback: Almoço em Agosto « Mutuca

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