Das regras (aforismo)

Por trás de toda regra há um ideal, uma premissa que lhe seja a razão de ser.

Às vezes, sempre em nome desse ideal, é lícito infringirmos a regra.

A regra que não se rende a seu ideal, na verdade, possui outras premissas.

Publicado em:  on 27 Agosto, 2009 at 7:50 am Deixe um comentário
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Travessias

Michell Lee

  De um lado da ponte, o poeta admira a margem oposta. Parecia haver maravilhas sob aquele Sol reconfortante, um ar mais límpido, cores mais vivas. Almejando-as, atravessa a ponte: um caminho sem volta-as águas do rio caudaloso devorariam o percurso conforme a travessia era feita. A cada passo, uma desconfiança cada vez maior passa a inquirir a margem idealizada: a que deixara parecia cada vez mais bela vista de longe. É de forma semelhante a esse poeta que todos nós construímos as nossas vidas: atravessamos infindáveis pontes em busca de satisfação pessoal, da construção de uma identidade, em suma, de um lugar melhor. Entretanto, esse contínuo mudar “de margens” envolve mudanças que não podem ser desfeitas, daí a importância de analisarmos se tal empreita é realmente válida.

  A necessidade de provarmos a nossa singularidade talvez seja aquilo que nos conduz a caminhos incertos. Oliver Sacks, em Um Antropólogo em Marte, conta a história de Greg, indivíduo de conturbada adolescência. Cansado das regras e comportamentos dos pais, Greg abandonou a escola, passou a usar drogas e a se ocupar inteiramente com shows e concertos de rock. Tais atitudes, embora extremadas, revelam a necessidade de se buscar novas valores e parâmetros. Afinal, somos seres contemplativos, aprendemos pela imitação; mas é pelas nossa escolhas e decisões que esses valores tomam um sentido realmente nosso, pessoal. Em outras palavras, a adolescência é uma das fases essenciais para a caracterização do “eu”, na qual o indivíduo quer parar de ecoar e, ao mesmo tempo, adquirir um comportamento e personalidade únicas.

  Não é preciso chegar à margem oposta  para saber o que podemos perder. Francis Ford Coppola, em Peggy Sue, o seu passado a espera, apresenta o anseio de muitos: a de voltar ao passado e mudar completamente a direção e conseqüências de suas atitudes. Isso é personificado em Peggy Sue, que volta magicamente ao passado. Assim, ela realiza desejos da adolescência, revive a presença dos pais e, sobretudo, tenta impedir o seu próprio casamento -na sua visão, o marido seria o motivo de sua infelicidade. No entanto, mesmo com a possibilidade de mudar o seu destino, Peggy não o faz: ela percebe que era feliz com a sua vida, que os árduos caminhos percorrido para construí-la não merecia ser desprezada; tudo isso era representado pela saudade dos filhos. Percebe-se, portanto, que alterar a forma com que enxergamos o que nos cerca pode nos poupar de perdas irremediáveis e arrependimentos.

  Mudança ou estagnação, perdas e ganhos. Essa polarização ocorre não apenas na adolescência ou na fase de reavaliação da vida adulta, mas sempre que achamos que não temos nada a perder ou quando já alcançamos o lugar onde queríamos estar. As pontes são úteis; as travessias, desafiadoras; no entanto, a nossa satisfação se dá em uma margem ou em outra: de nada adianta percorrer seguidas pontes sem nada valorizar. O comedimento, aliado ao certo balanço de nossas necessidades, é a chave para não nos perdemos em um eterno saudosismo do poeta e sua margem perdida. 

Nova onda no pedaço

“Estreia hoje em São Paulo o remake de A Onda”, alertou-me um amigo. Agradeci-lhe a preocupação, mas graças à divulgação digital que a internet nos proporciona já tinha visto o filme nas férias.

A primeira versão, feita para a TV norte-americana em 1981, já havia me trazido boas impressões. Para quem não a conhece, eis uma sinopse: professor californiano, tentando explicar a seus alunos o poder de persuasão do nazismo, resolve construir – em princípio – um grupo de estudos baseado na disciplina. Ordem, força e conjunto são os termos que os jovens passam a valorizar conforme vão incorporando os ideais d’A Onda (The Wave), nome dado ao grupo.

A maior parte dos estudantes não percebe, mas em nome de um equivocado senso de coletivismo, eles acabam abandonando suas individualidades – pensam estar se tornando especiais quando na verdade transmutam-se em simples massa.

No fim do filme, o professor lhes revela o verdadeiro propósito do grupo: mostrar de que modo um partido ditatorial, como o nazista, pode ser persuasivo a ponto de conquistar pessoas (ingênuas, mas) bem intencionadas. A cena final é significativa: Robert, o aluno deslocado que viu n’A Onda um sentido para sua vida vazia, fica em prantos. Para ele, talvez, assumir as responsabilidades decorrentes do livre-arbítrio fosse mais um fardo do que uma dádiva. Quando escrevi sobre filme, mais do que me preocupar com a superficialidade de adjetivá-lo como bom ou ruim, hipervalorizado ou menosprezado, preferi analisá-lo como um oportuno recado contra a massificação travestida de solidariedade (a virtude nomeia o vício). Alguns amigos não gostaram do filme, pois viram nele um alerta maniqueísta contra a ditadura comunista. Concordo com eles, mas só em parte. Creio que, assim como A revolução dos bichos, de H. G. Wells, A Onda traz um alerta contra diversas formas de totalitarismos, não apenas contra o império vermelho.

 

O filme que chega hoje em cartaz possui nova estampa: a história é agora ambientada na Alemanha; o professor responsável pelo projeto é caricaturalmente mais jovem em amplo sentido: possui vigor físico, ouve rock, é simpatizante da anarquia e não se preocupa em preparar suas aulas com muita antecedência. Se eu me preocupasse em fazer uma leitura paralela, destacando as vantagens e desvantagens de uma ou outra versão, diria que a segunda é menos clara – talvez menos didática – no que diz respeito a associar A onda (Die Welle) ao partido nazista. No entanto, isso não me parece o essencial. Por outro lado, considero extremamente relevante comparar a diferença nos desfechos.

Na versão norte-america, podemos dizer que, exceto para Robert, há final feliz: o professor se valeu de uma dura, mas competente lição de vida. Me pergunto: qual seria a função de refazer esse filme sem incorporar nenhuma nova reflexão? Sem – digamos assim – atualizá-lo? Imagine o perigo que seria um educador que, inspirando-se no final feliz do primeiro filme, pretendesse pôr em prática ideia similar. Pensando nisso, ou não, Dennis Gansel, o diretor da versão atual, resolveu problematizar um pouco mais a história. Como Reiner Wenger, o professor, assumiu um risco imenso ao tentar controlar os cérebros de seus pupilos, seria forçar demais a barra se ele passasse impune. A história cultural nos mostra que aquele que busca sorver-se de poder absoluto (vide Blade Runner, O Golem, Frankstein, ou o “conto alexandrino”, este de Machado de Assis) acaba se afogando.

Ao contrário do que o amigo me disse, Die Weller não é um remake de The Wave. Trata-se de um, na expressão de Ezra Pound, make it new. Mais importante do que refazer por refazer, é renovar aquilo que a cultura já produziu. É uma diferença pequena, mas fundamental.

Publicado em:  on 21 Agosto, 2009 at 9:13 pm Deixe um comentário
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O Chef da Folha

O paladar se treina com pequenas porções, mas às vezes um bom prato nos convida à gula. É o que aconteceu quando meus olhos começaram a mastigar Seleção Natural, livro de ensaios culturais e políticos de Otávio Frias Filho. Como bom ensaísta, o autor não se limita a escrever sobre as grandes obras, mas consegue tirar de um filme mediano, como Peggy Sue, seu passado a espera, grandes reflexões. É isso que importa.

Ler o Otávio é ter uma conversa descontraída com uma pessoa inteligente, daquelas cujo olhar investiga, capta e interpreta detalhes que deixamos passar. Otávio evita a adjetivação vazia e generalista. Em vez disso, prefere indicar cuidadosamente seus percursos argumentativos (leitores que não gostam de pensar o chamariam de redundante) num tom que se vale de boa didática, mas sem desprezar a capacidade intelectual do leitor.

Há pessoas que se assustam quando lêem um bom livro, mas acho que a lição é completamente oposta. Otávio, como um daqueles chefs cujas mãos são capazes de dar sabor a um jiló, é um ótimo exemplo de que uma pessoa inteligente consegue tirar proveito intelectual até mesmo de cartolas baratas.

Assim são amigos preciosos, aqueles capazes de temperar qualquer programa.

Publicado em:  on 15 Agosto, 2009 at 4:36 pm Comentários (2)