Nunca contentar-se

 

A contenção, o autoconhecimento, a humildade, eis os pilares em que o indivíduo deve se apoiar em busca de proteção e segurança. A contenção nos ensina a segurar o ímpeto, a respirar fundo antes de qualquer ação precipitada. Esse intervalo de tempo, essa lacuna entre o desejo e a decisão, permite ao indivíduo uma melhor aferição de si, de suas forças, de seu poder. A conclusão lógica desse processo é a compreensão daquilo que está a nosso alcance; saber até onde a mão vai é essencial para evitarmos esforços vãos. Conhecer a si próprio é conhecer seus próprios limites.

Nem todo indivíduo, porém, aprecia a vida em cativeiro. A domesticação não lhes cai bem. Excesso de proteção, eles percebem, é igual a medo em demasia. O melhor autoconhecimento é aquele que se reconhece insuficiente para delimitar o que pode ou não pode o indivíduo. A contenção, analisada dessa forma, é a renúncia à investigação dos nossos poderes, é o descaso com aquilo que vulgarmente chamamos de potencial. Rebaixar-se, aceitar passivamente as conquistas do passado, sem nelas enxergar um estímulo a novos desafios, é desrespeitar o jovem ambicioso que já fomos um dia. A pretensão, por si só, não é um defeito. Pelo contrário, pretender um futuro melhor, sonhar com mudanças que engrandeçam o indivíduo é, ou deveria ser, pré-requisito para que continuemos vivos. Por isso mesmo incomoda saber que muitos confundem ambição com inveja. Enquanto esta se caracteriza por uma postura complacente (invejoso é quem vê, com maus olhos, o mérito alheio), aquela prima por um comportamento ativo (ambicioso é aquele que não teme encarar novos caminhos). Dentro de um contexto que procura domesticar o indivíduo, mais do que nunca é importante relembrar a famosa máxima latina: errar, aventurar-se por caminhos desconhecidos, é sem dúvida alguma humano.

Publicado em:  on 26 Setembro, 2009 at 8:17 pm Comentários (2)

Revisitações idealizadas

[exercício redacional: dissertação básica]

A casa dos avôs, o pátio da escola, as festas com a família, até mesmo o gosto das frutas parecia diferente. Conforme se folheiam as fotos do velho álbum, diversas lembranças vão sendo retomadas – reconstruídas? – na memória. Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Isso, porém, talvez não seja resultado da vivência de épocas deslumbrantes, mas sim do contrário.

O presente, só este ínfimo e fugaz espaço de tempo, nos pertence. O resto é abstração, é aquilo que já nos pertenceu ou que irá talvez nos pertencer. Em todo caso, no presente do indicativo de nossa vida, só temos mesmo esse instante, e é a ele que devemos devotar nossas preocupações e empenho.

Muitos indivíduos, porém, parecem viver no passado. A distância temporal parece fazer com que eles não mais percebam nitidamente que aquela época também tinha seus desagrados. Mas o pior de tudo é saber que, por melhor que ela tenha sido, ela já foi, não existe mais. Se o indivíduo quiser retomar aqueles prazeres, se quiser reviver aquelas situações, é imperativo que ele volte a focar seus interesses no presente. Só assim, e não esperando um milagre divino, ele poderá viver o tempo que de fato ele possui.

É verdade que as abstrações são importantes, que a memória deve ser preservada. No entanto, o que não pode acontecer é um fetiche pleno das lembranças. No final da vida, provavelmente, elas serão nosso bem mais precioso, mas até lá o melhor a fazer é garantir que nossas boas recordações não venham apenas de um pequeno intervalo de nossa vida.

A casa do meu avô.

[exercício redacional: relato]

Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Não digo da infância toda; ir obrigatoriamente às aulas de catecismo, ficar de castigo, perder a tampa do dedão jogando bola na rua são, de fato, experiências que não gostaríamos de reviver. No entanto, mesmo os desprazeres, vistos agora de grande distância, parecem ter seu colorido, seu encanto.

Foi na casa do meu avô, por exemplo, que tive o primeiro contato com outras formas de vida: lembro-me de ficar olhando diversas folhas contra o sol – aquilo que lhes parecia veias a lhes carregar a seiva sugeria-me mesmo um percurso, uma espécie de mapa rodoviário que eu já começava a folhear com interesse. Foi lá também, na casa do meu avô, que pela primeira vez vi – e que brinquei com – gatos e cachorros. Talvez tenha sido ali que eu percebi que uma criança pode ser ruim com os mais fracos. Não tenho orgulho dessa lembrança, mas acho que esse episódio me ajudou a corrigir uns defeitos.

Naquela época eu sempre jogava bola no campo à tarde. Às vezes estávamos apenas eu e um amigo. A gente ficava batendo falta, chutando a bola um contra o outro. Do lado do campo, havia um riozinho do qual nunca conseguíamos tirar peixe algum. À noite, porém, a diversão era garantida. Como havia muitas árvores e alguns terrenos baldios perto de casa, os meninos gostavam de brincar de esconde-esconde.

Hoje talvez o campinho não exista mais. Algumas árvores podem ter caído, brotos podem ter sido plantados, casas podem ter sido erguidas naqueles terrenos. Ou talvez não. Pouco importa. A infância não são os lugares onde a gente viveu, mas sim as situações, o contexto todo. Talvez a casa de meu avô ainda exista. Mas ele não está mais lá, e aquele menino que o visitava não é mais o mesmo.

Velório

Não, Isaac não era judeu; o nome bíblico lhe fora dado por uma avó religiosa que não entendia muito de religião. O paradoxo era compreensível por aquelas bandas, afinal quando jovem ela não conseguiu ou não pôde frequentar a escola por mais de três anos; uma semi-alfabetização que lhe permitisse a leitura de títulos e manchetes, e manejar duas  das quatro operações já era o suficiente. Mesmo sendo uma fiel sem conhecimento de causa, havia conseguido certa influência naquela pequena cidade do sul de Minas, ao menos em relação ao povo pobre que dependia, em inúmeras ocasiões, da pouca, mas bem ofertada ajuda daquela senhora. O tempo não a tornou uma pessoa sábia, tolerante ou amiga, mas isso nunca lhe impediu de ser ouvida pelo séquito que ano após ano ia se ajuntando em torno dela por meio do compadrio.

- Aposto que é um afilhado da senhora – alguém disse.

Mais do que um dos tantos afilhados, era seu neto de dez anos – o primogênito, quase um filho. Como sua avó não tivera filhos (casou-se com Benedito, e comungou suas três filhas), Isaac acabou recebendo uma predileção contra a qual um dia iria se rebelar. Mas isso não faz parte da história. Ambos acabaram de chegar à casa de Nicolau, tio materno da avó que estava sendo velado. Nicolau, sim, era uma pessoa de grandes posses. Ainda que também não tenha frequentado escolas e tirado diplomas, ele conseguiu, terreno após terreno, administrar uma grande fazenda de gado leiteiro. Se a produção pecava pelo desperdício e falta de planejamento, ao menos conseguiu lhe dar uma vida muito mais abastada que a de qualquer outro jovem que cresceu junto consigo.

Dia de São João: a maior parte das visitas teve a gentileza ou o cuidado de permanecer na casa, mesmo sendo dia de uma das melhores festas do ano. Marcelo, o filho mais velho, cumprimentava a todos os presentes com uma frequência ameaçadora:

- Muito lhe devo. Meu pai não me deixará esquecer de sua amigável presença. Os amigos a gente não abandona – dizia dando um leve e preciso tapa nas costas dos criados, como se marcasse de vista e tato aqueles que mereceriam mais atenção.

Tudo ali cheirava a marasmo: no céu, nuvens grossas e lentas; na terra ao longe, bois pastavam perto de uma lagoa; dentro da casa, as pessoas regurgitavam elogios e orações ao morto. Isaac não se percebia entediado; fora brincar de seguir formigas: desciam a goiabeira com uma grande folha às costas, cruzavam o quintal, despistando galinhas e pisadas, adentravam por uns galhos secos caídos e desapareciam num canto de terra. Depois, com os olhos fechados, o menino imaginaria a continuação da busca…

- Isaac, meu filho, venha conhecer sua prima.

E Isaac conheceu sua prima Luísa, de treze anos. O sorriso, ingênuo ou malicioso, com que ela o encarou foi forte o bastante para lhe despertar um misto de simpatia e temor.

- Você gosta de observar formigas?

Envergonhado, Isaac não conseguiu responder.

- Venha, vou lhe mostrar umas plantas bem bonitas. Se dermos sorte encontraremos alguns insetos curiosos.

Mãos dadas à prima, caminharam longos passos em volta do quintal, longe da vista de qualquer um. Não encontraram nenhum inseto especial, mas Isaac não pensaria em reclamar da sorte. A prima lhe mostrou uma jabuticabeira, pés de morango, as flores do maracujazeiro…

- Nunca vi algo tão bonito.

- É bom se acostumar, mocinho.

- Mas se eu me acostumar, perde-se a graça, não é verdade?

- Quem lhe falou isso?

- O padre. Ele disse que dia após dia a gente precisa treinar os olhos para enxergarem algo de diferente. Que a partir do momento em que a gente se acostuma, a vida perde a graça e a gente, o desejo de viver. Deus, certamente, não gostaria disso, ele me contou.

- Que padre é esse?

- Ele rezava missas perto de casa, não reza mais. Teve uns problemas, foi embora mês passado. Gostava de conversar com ele.

- Homem sabido. Gostei dessa frase. Você é um rapaz sabido, mais do que os que eu conheço.

- Sério?

- Claro, meu bem. Venha, posso lhe ensinar uma coisa?

- O quê?

- Bonita esta flor, não?

- Sim, muito bonita.

- Sabia que maracujá é a flor da paixão? Foi meu professor de ciências que me contou.

- Por que esse nome?

- Que importa? Tome – E Isaac corou ao receber tão delicado presente.

No céu das cinco e meia alguns feixes vermelhos anunciavam o prematuro anoitecer da mais invernal das noites. Não seria oportuno ficarem os dois sozinhos naquele vazio. Luísa aproximou os lábios do ouvido de Isaac e sussurrou:

- Tenho umas histórias muito interessantes para lhe contar. Histórias da roça.

E assim que voltaram para o velório, Luísa logo tratou de dividir-se às outras crianças – todas menores, de uns cinco, sete anos. Isaac não apreciou o distanciamento da amiga.

- Ora… – pensou, sem conseguir desenvolver uma continuação.

- Que tal um café, jovenzinho? – ofereceu uma velha senhora que acompanhava a cena.

- Não me permitem. É bebida para adulto.

- Você precisa ficar desperto. Afinal, estamos prestando honras a seu tio-avô Nicolau.

E Isaac aceitou, tragando de uma só vez a meia xícara de café amargo que lhe serviram.

- Coma isto!

- Hortelã?

- Não se esqueça de beber meio copo d’água. Ou você quer que todo mundo veja matinhos verdes nos seus dentes?

Isaac, um pouco assustado pela voz imperativa e pelo rosto envelhecido daquela senhora, obedeceu. Seria uma espécie de bruxa? Padre Ludovico, certa vez, havia conversado com ele sobre o assunto. Antigamente, era provável que muitas mulheres tenham sido injustiçadas; afinal como reconhecer uma bruxa? Se elas existiam e eram de fato poderosas aliadas do mal, talvez pudessem se confundir facilmente com uma camponesa qualquer. É difícil distinguir o certo do errado.

Sem ter mais o que fazer, Isaac sentou-se nas raízes de um limoeiro, de onde tinha vista privilegiada do quintal. Armaram uma grande fogueira em torno da qual o povo aquecia as mãos, pequenas doses de cachaça eram servidas, uma carroça trazia pães que a cozinheira iria servir dali a pouco, três capiaus entoavam cantigas à viola. Em sinal de respeito, evitava-se a bebedeira e riso nos rostos, menos as crianças, alegres e vívidas com a presença cativante de Luísa. O que essa prima tinha de especial? Isaac sentia algo em seu corpo, como se órgãos despertassem para a vida – sentiu em sua barriga o movimento e o calafrio de partes que sequer suponha possuir. Fechou os olhos, o calafrio subiu para o peito, sentiu a testa transpirar. De longe, Luísa lhe sorriu. Deve ter corado, como saber? Ele não tinha o costume de ficar acordado tanto tempo; a noite crescia, a penumbra invadia-lhe o espírito, ele sabia – ou desejava – que algo iria acontecer.

Publicado em:  on 18 Setembro, 2009 at 11:10 pm Comentários (1)

Nem verde, nem passado

Geiza Máximo

Sete dias; o que para um doente pode representar a esperança, para a História se torna algo insignificante. A concepção de tempo se mostra extremamente intimista, pois reflete a forma como a humanidade se posiciona perante sua passagem pela vida. Ainda que haja uma concepção coletiva sobre as noções de passado, presente e futuro, nem sempre o homem vive, de fato, no presente do infinitivo.

Poucas coisas são tão infalíveis quanto a passagem do tempo, e este fato atormenta parte significante da sociedade. Negando-se a aceitar as “marcas do tempo” cresce, cada vez mais, o número de pessoas que se submetem a intervenções cirúrgicas em busca de um rosto mais jovem. Este fenômeno representa o sentimento saudosista em parte destas pessoas que, opondo-se ao seu presente, limitam suas vidas ao que já está findo.

As experiências e as emoções que compõem o passado o tornam um fator primordial na construção de um cidadão. A reflexão sobre o passado, em termos, impede que erros sejam repetidos, mas este aprendizado não deve limitar totalmente as ações de um indivíduo.

Da mesma maneira que o presente é influenciado pelo passado, o futuro pode incidir sobre ele. As vislumbrações que a modernidade e suas tecnologias causam nos seres podem determinar a forma com que vivem o presente. Na obra de Eça de Queirós, A cidade e as serras, há Jacinto, um personagem que num primeiro momento mostra-se completamente encantado com as “maravilhas da civilização”. Posteriormente, Jacinto viu-se fatigado das inovações e passou a perceber as maravilhas que o mundo comum lhe proporcionava.

Por mais que alguns não aceitem, o tempo sempre passa, deixando suas marcas e suas lições e, mesmo que outras desejem, o futuro não chega de “pronta-entrega”, caminhamos até ele. Cabe ao homem aprender a aproveitar seu presente sem se desligar do passado e sem tirar seus pés do chão. A vida é um fruto que renova suas virtudes com o passar do tempo.

Publicado em:  on 11 Setembro, 2009 at 10:30 pm Comentários (1)
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Francis Stémon*

Como uma luz
que busca pouso
para assumir
e comprovar
sua existência…

* Na tela, em Outubro.

 

Publicado em:  on 10 Setembro, 2009 at 7:57 am Deixe um comentário

*

O aforismo é a caricatura não caricatural do pensamento.

Publicado em:  on 9 Setembro, 2009 at 9:12 pm Deixe um comentário

Das vitrines

Michell Lee

 Andando pela avenida, o indivíduo depara-se com um sujeito muito curioso. Pelo reflexo de uma vitrine, o vira fazendo uma careta: o levantar de sobrancelhas com um sorriso enigmático despertara intensamente o seu interesse. Fez, então, o caminho de volta para casa imitando, continuamente até a total semelhança, a careta do tal sujeito. É assim que Oliver Sacks descreve, em Um antropólogo em Marte, uma das características da síndrome de Tourette: a obsessão por imitar o comportamento alheio. Essa compulsão, entretanto, não se limita a um caso clínico. Ela levanta um questionamento se há, de fato, no indivíduo uma personalidade consolidada ou se se trata apenas de um plagiador que expressa feições de outrem. Percebe-se que muitos de nós agem de maneira semelhante: acreditam possuir uma personalidade desenvolvida com caracteres exclusivos, mas imitam outros, quase sempre de forma inconsciente. Vemos, desse modo, que a ânsia de valorizar a própria individualidade é equivocada: a construção de um “eu” sempre envolve influências extrínsecas.

Somos naturalmente o resultado de uma composição de personalidades. Em um de seus artigos, o ensaísta Daniel Piza, sugere que nós somos seres contemplativos: aprendemos pela imitação. Assim, ele prossegue afirmando que o próprio design do cérebro é adaptado para captar movimentos e detalhes que pareçam informativos ou estimulantes. Para ilustrar essa ideia, basta tomarmos como exemplo máximo e caricatural o pseudodocumentário Zelig, de Wood Allen. Nele, o personagem que dá nome ao filme está constantemente assimilando características e feições daqueles que o rodeiam, sendo por isso chamado de “camaleão humano”. Percebemos que, em maior ou menor intensidade, todos somos “camaleões”: somos levados a interagir e a nos comportar de acordo com o que aprendemos com nossos pais, parentes, amigos, filme, livros. Não há dúvida de que o indivíduo seja em parte uma remodelagem das influências que ele recebe.

O que nos caracteriza, entretanto, são as nossas singularidades – de nada adianta somente se camuflar. No filme, Zelig torna-se conhecido por alterar a sua fisionomia e caráter toda vez que se sente acuado e inseguro. Ou seja, Zelig abandonava constantemente a sua real essência para se tornar igual aos outros, irrelevante, obtendo assim uma aparente segurança. Em uma análise mais profunda, percebemos que a crítica de Woody Allen é direcionada à massificação da sociedade, na qual os indivíduos agem como “zeligs”, abdicando do seu “eu” de forma irracional. Contudo, essa busca por aparente aceitação social impede a formação de uma real personalidade. Em seu livro, Sacks explica que a identidade é construída através da experiência, classificação, memória e – sobretudo – acontecimentos interessantes. O indivíduo que aceita as influências sem análise não só está a um passo da alienação como também acredita possuir uma personalidade fora do comum. Vemos, portanto, que também possuímos certas características da síndrome de Tourette. Contudo não somos dominados por tiques ou compulsões: somos nós que decidimos se seremos meras cópias ou se conseguiremos ser inovad0res, como o sujeito que primeiro expôs sua careta na vitrine.

 

*

A gastrite é um rato que foi viver no estômago. Ainda que comportado, ele sente fome.
 
Todos herdamos as costas de Sísifo – ainda que não percebamos a pedra.
 
O músculo atrofiado das manhãs frias me sugere o que será o descanso eterno.
 
Prejulgar é inevitável, mas não essencial.

Publicado em:  on 6 Setembro, 2009 at 12:06 pm Deixe um comentário
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Outras torres

Michell Lee

 “Vozes veladas, veludosas vozes”. Névoa translúcida até o horizonte sem fim. O luar, em raios difusos, a iluminar o poeta em sua torre de marfim. Para ele, era uma torre tão alta quanto a de Babel seria; para outros, não passava de excentricidade. É de forma análoga a essa imagem poética que muitos de nós temos a nossa existência retratada: subimos e permanecemos em torres de marfim, uns mais ao alto, outros, quase ao chão. No entanto, quanto mais se sobe, quanto mais se avoluma um desejo de Ícaro de se afastar do chão, mais o indivíduo se isola da realidade. Isso pode ocorrer de tal forma que muitos chegam a um limiar ao qual uma sociedade estereotipada, padronizada, passa a chamar de loucura. Mas esses indivíduos aparentemente próximos ao chão se esquecem que também estão, de certa forma, presos a sua torre de marfim: olham para o alto sem olhar para si próprios.

 Há torres tão altas que não é mais possível uma volta pautada em esforços individuais. Em Um estranho no ninho, filme de Millos Forman, é retratado um sanatório no qual há diversos indivíduos com supostos problemas neurológicos. Bastante curiosa é a presença voluntária de personagens que, devido a problemas como ciúmes em um casamento conturbado, ausência de confiança ou medo do mundo social, se isolam neste lugar em busca de apoio e segurança – mais até do que da própria cura. Em uma análise mais profunda do filme, percebemos que o espaço físico do sanatório é uma representação da mente humana: todos nós já tivemos uma fase ou momento em que desejamos nos isolar, nos fecharmos em nossa própria realidade. Isso ocorre porque, no fundo, queremos reestruturar nossas atitudes e pensamentos, direcionar a nossa vida, – em suma – manter a unidade do nosso “eu”. Entretanto, há indivíduos que sucumbem a problemas fisiológicos e, sobretudo, sociais enclausurando o seu “eu” de tal forma que perdem a noção da realidade, dando vazão a ações inconscientes de agressão e insanidade. Apesar da “altura”, porém, há caminhos de volta.

 Certamente “doenças mentais” é um termo a ser repensado. Oliver Sacks, na introdução do livro Um Antropólogo em Marte, nos conta que está escrevendo o livro com a mão esquerda (a outra estava inutilizada). Ele especula que cargas sinápticas, conexões e sinais cerebrais se alteraram para adaptá-lo à sua nova situação. Assim seriam as “doenças” neurológicas: uma adaptação às necessidades do corpo e ao meio social, podendo resultar em mudanças extraordinárias se comparado com uma pessoa “normal”. Um ótimo exemplo é a história de Bennett, que sofre de crises de compulsões, tiques e bruscas alterações de humor – as quais Sacks chamou de síndrome de Tourette. No entanto, Bennett conseguia suprimir tudo isso quando realizava as suas cirurgias médicas – a sua maior paixão -, de forma tão detalhista e com eficácia sem precedentes. Percebemos que é preciso haver algo que ligue o indivíduo ao mundo real, seja a arte, a profissão, a música – em suma, um estímulo exterior à mente, um canal de expressão do “eu”. Até o título, Um estranho no ninho, sugere isso: é preciso que haja algo ou alguém que desperte os pacientes de seu estado de torpor – isso, no filme, é personificado em McMurphy (o “estranho” que gera uma reviravolta no sanatório).

 Um antropólogo em Marte: um homem que estuda o seu semelhante – e as relações sociais envolvidas – em outro planeta, em outra mente que não a sua. Percebemos que todos nós deveríamos ser esta figura: não há torres alinhadas na mesma altura, as nossas mentes se estruturam de forma desigual. Assim, seria preciso ter um conhecimento prévio, mínimo, da mente alheia, de forma a estar com ela numa mesma ou compatível realidade, de forma a compartilhar momentos e prazeres. Infelizmente, muitos acham ter os pés no chão, quando, na verdade, podem estar  tão deslocados quanto o poeta e sua torre de marfim.