A estante do seu Luís

Certa vez numa entrevista, percebi assim meio de lado o escritor definindo o que seria a função do livro:

- Abrir-se, transpor o mero papel, escapar das linhas e do mofo, arejar as idéias de seu autor, ser solto, ser livre.

Não sei se captei o que deveria captar ou se insinuei saber apenas o que me interessava. De todo modo, isso é o que menos importa. A história começa num outro tempo, mas no mesmo ritmo. Digamos que num velho sebo paulistano, daqueles bem tradicionais; fuçava eu pelas estantes bagunçadas em busca de uma velha Bíblia do padre Antônio Pereira de Figueiredo; indicação valiosa de um amigo também fotógrafo cheio de virtudes o qual lamentava ter-se fechado a oportunidade de comprá-la por módicos quinhentos reais. Como também me considero uma pessoa simples, sem complexidades éticas, resolvi ajudá-lo a pagar tal quantia.

- Duzentos? Ótimo!

A reserva feita logo às dez da manhã já me garantia um adequado lucro que ainda poderia aumentar de duas formas: encontrando um exemplar mais barato ou expandindo um pouco os quinhentos que meu ingênuo amigo considerava oportunos. Fosse uns cem, duzentos a mais, sabe ele, a porta continuaria aberta. A vaidade, talvez diga a Santa Igreja, não é um bom vício; já a sapiência que multiplica peixes e moedas deve ser uma casta virtude.

Um exemplar do Bernanos, dois do Corção, um autografado do Tolentino, cada qual por duas notas miúdas!?  O seu Luís deve ter perdido o jeito com a coisa. Mas o importante, ei-lo ali numa encadernação amadeirada, sem contraste com a estante velha, em harmonia com o bolor das paredes, o melhor dos cães comuns não o encontraria.

- Meu chapa, aqui na minha mão. Fiz esforços enormes, gastei o que não devia, tive de pagar comissão, mas consegui! – Não sem um pouco de rubor imaginava-me pronunciando essas palavras. Afinal, sou uma pessoa tímida. E humilde.

Assim abaixei-me para folhear aquele pequeno arbusto de riquezas. Histórias de Caim, Judas, os irmãos de José; passeio aleatoriamente por essas elevações até que… A-ve-Ma-ri-a! (pronunciada em cinco sílabas como um palavrão de espanto, de alegria). Já foi dito que a árvore plantada junto aos riachos dá seus frutos no momento certo, e que pomo mais precioso que um catálogo legítimo e em primeira edição da famosa e desejada Leica M3? Por este sim eu daria umas notas bem gorduchas. Nem bem enquadrei o livreto, focalizei-o, adaptando-me as pupilas para absorver cada luminosidade preciosa daquelas páginas a quem rezas e mais rezas dediquei nos últimos quinze anos. Que lindo compêndio sacro! Que delicada e angelical engenharia! Imagino o feliz mensageiro incumbido de trazer o registro desta adâmica criação de ferro e carbono, implorante por ser libertada daquela saleta amontoada por criações de nível inferior; o bom livro merece melhor companhia.

Justo nesse momento, seu Luís fora atraído pelo chamado de um outro cliente que pedia informações sobre o livro que Aristóteles fez a seu filho Nicômaco, algo, aliás, que pouco me interessava naquele momento. Como as coisas são curiosas: o barulho que o afastou, a mim parecia sugerir: que falta de confiança é esta que lhe faz abrir o livro antes de tê-lo para si? Concordei com o recado, compreendi o livreto entre o velho e o novo testamento, saquei os duzentos e pu-los sobre a mesa – felicidade desmedida numa alegria disfarçada. Dali a poucos instantes, seu Luís chegaria com seu olhar míope e o sorriso safado de quem lucrou em cima de mais uma obra superfaturada. Abstenho-me de avaliar sua cretinice, mas do meu amigo a quem serão transferidos os juros sinto pena. Mas, para dizer a verdade, não muito.

A vaidade, a cobiça, meu caro… Há quem goste de desejar os vazios.

Um dia bom

 A primeira boa notícia foi saber que meus alunos foram premiados na feira cultural do colégio.
 A segunda foi ganhar uma ilustração para meu haiquase:

o galho seco
sustenta o corvo

Por Ruth Carvalho
Por Ruth Carvalho
Publicado em:  on 23 Outubro, 2009 at 10:04 pm Deixe um comentário

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Não é a vida que define a morte; a morte que define a vida.

“Ele pega no meu pé”: desculpa típica de quem tropeça por conta própria.

Não existe cultura sem cultivo.
 
O preconceito é uma grande defesa contra o conhecimento.

Cultivando o pensar

E a virtude? – pergunta-se Sócrates. O tutor pode ensiná-la a seu discípulo ou seu papel consiste apenas em estimular a virtude que seus pupilos já possuem? Valendo-me dos mesmos operadores lógicos, mas focalizando outro objeto de ainda maior importância, pergunto-me: E o pensar? Alguém pode ensinar outra pessoa a pensar ou se trata de algo a ser estimulado?

Antes de irmos diretamente a uma síntese, e para que esta não seja apressada e superficial, vale a pena analisarmos ambas as hipóteses.

O educador que pretende ensinar seu aluno a pensar, indubitavelmente, corre o risco de apenas transmitir-lhe conceitos, pressupostos e ideologias que lhe servirão de cabresto e guia, sem nunca traduzirem-se, de fato, em ferramentas para uma desejável independência. No entanto, também temos de reconhecer a importância da elucidação de conceitos, pressupostos e ideologias para uma correta compreensão das ideias e seus contextos.

Na teoria é fácil, bastaria explicitar, por exemplo, numa aula sobre Luís Vaz de Camões, o contexto histórico em que ele viveu, o meio social que ele frequentou, as correntes filosóficas e estéticas de seu tempo… mas nada disso, porém, serve para identificar a identidade do poeta. O que o distingue daqueles de seu tempo não se mede numa análise genérica do grupo, mas sim pela leitura atenta do que o poeta escreveu. Sim, de fato, mas não podemos nos esquecer de que todo homem é produto de seu meio… São inúmeros os modos de se analisar um poeta. O educador está preparado para escolher e indicar o melhor modo analítico?

Por outro lado, muitas vezes acredita-se estar estimulando o pensamento alheio, valorizando-lhe o senso crítico e a independência, quando na verdade o professor apenas abandona as rédeas da situação, deixando o desenvolvimento intelectual do aluno ao deus-dará, como se toda tentativa de elucidação fosse, automaticamente, um modo de coibir a autonomia. Não tenho dúvida alguma de que essa postura tende a ser mais maléfica do que a retratada nos dois parágrafos anteriores.

Hannah Arendt, se não me engano, foi quem melhor analisou o perigo de hipervalorizarmos o novo. O perigo de darmos aos jovens imaturos e despreparados, o poder de decidir o que fazer com a cultura – como se essa grande construção coletiva pudesse ser jogada ao lixo sem mais nem menos.

Como todo educador sabe ou deveria saber, seu trabalho se resume numa palavra: desafios. Encontrar um meio não de transmitir cultura, mas de ensinar como cultivá-la, com todo amor, paixão e dor que a empreitada exige. Encontrar um meio de, sem ser benevolente, valorizar e estimular os achados, as sacadas intelectuais do aluno. Ou, mais do que tudo, o educador deve se ver – ele também – como um estudante em busca do conhecimento. Só assim, enfrentando as dificuldades que o crescimento intelectual nos impõe, gozando os prazeres das metas atingidas e ultrapassadas, o educador estará preparado para compartilhar essa grande dádiva – ou melhor: conquista – que é o pensar.

 

Publicado em:  on 6 Outubro, 2009 at 12:55 am Comentários (7)