Julianna Testoni
Ao longo do tempo, a imagem feminina ganhou contornos diversos. Foi presenciada sua dessacralização, desligando-a de seus referenciais religiosos e patriarcais, possibilitando um novo modo de pensar a mulher, afastando-a de paradigmas e privilegiando cada vez mais suas singularidades.
As primeiras imagens de mulheres, raras em espaços públicos, guardavam forte semelhança com o corpo masculino. Mais tarde, a beleza da mulher, quando valorizada, carregava certas contradições: era bela, porém perigosa. Tal fato pode ser explicado pelo desconhecimento inicial do papel biológico e social do homem na reprodução, atribuindo-se assim à mulher – por supostos poderes sobrenaturais – a autonomia na geração da vida; isto é, a mulher não era vista como dotada de vontades e virtudes, mas sim como “dona da vida e da morte”. Personagens como Pandora, a responsável por levar todos os males do mundo aos homens, e Eva, responsável pelo pecado original, representam esse ideário.
A associação sem ressalvas entre mulher e beleza efetiva-se apenas no Renascimento, momento no qual se legitima o corpo feminino como objeto de contemplação, a exemplo de Vênus-Afrodite, das madonas etc. Entretanto, trata-se de uma mulher construída simbolicamente para oferecer-se à contemplação e resignar-se com seu papel decorativo e passivo. Posteriormente, com o advento do imaginário social democrático do século XX, surgem figuras como as estrelas de Hollywood e as pin-ups. Estas, apesar de ainda representarem a mulher como um objeto serviçal e facilmente manobrável, diferenciam-se das musas do cinema no sentido de não ser tão distante, etérea e idealizada, isto é, povoa cenas cotidianas – mesmo que ainda esteja restrita ao espaço e às atividades domésticas.
Para a imagem feminina da última década, é indispensável a influência da moderna iconografia midiática que, por um lado, contribuiu para a emancipação da mulher e, por outro, a identificou ao binômio da magreza e juventude, tendo a top model como símbolo. Porém, para dar conta das demandas impostas pela atual sociedade de consumo, muitas mulheres se tornam vítimas da lógica efêmera da moda e adotam meios radicais, apelando para regimes cíclicos e desenvolvendo comportamentos patológicos, como anorexia e bulimia.
Como resultado de um amadurecimento social, vem surgindo, ainda que timidamente, o reconhecimento da mulher comum – melhor dizendo: não padronizada – e a valorização de suas singularidades. Não mais vinculadas a uma imagem ou outra, surgem mulheres de diversas etias, corpos, idades e comportamentos que passam a descentralizar os modelos de beleza. Ainda que seja cedo para afirmarmos que emancipamos finalmente a imagem da mulher, sabemos, ao menos, que estamos no caminho certo, isto é, a emergência de uma imagem feminina sem delineamento definido, que escapa e abre frestas para a diversidade.
