Nova onda no pedaço

“Estreia hoje em São Paulo o remake de A Onda”, alertou-me um amigo. Agradeci-lhe a preocupação, mas graças à divulgação digital que a internet nos proporciona já tinha visto o filme nas férias.

A primeira versão, feita para a TV norte-americana em 1981, já havia me trazido boas impressões. Para quem não a conhece, eis uma sinopse: professor californiano, tentando explicar a seus alunos o poder de persuasão do nazismo, resolve construir – em princípio – um grupo de estudos baseado na disciplina. Ordem, força e conjunto são os termos que os jovens passam a valorizar conforme vão incorporando os ideais d’A Onda (The Wave), nome dado ao grupo.

A maior parte dos estudantes não percebe, mas em nome de um equivocado senso de coletivismo, eles acabam abandonando suas individualidades – pensam estar se tornando especiais quando na verdade transmutam-se em simples massa.

No fim do filme, o professor lhes revela o verdadeiro propósito do grupo: mostrar de que modo um partido ditatorial, como o nazista, pode ser persuasivo a ponto de conquistar pessoas (ingênuas, mas) bem intencionadas. A cena final é significativa: Robert, o aluno deslocado que viu n’A Onda um sentido para sua vida vazia, fica em prantos. Para ele, talvez, assumir as responsabilidades decorrentes do livre-arbítrio fosse mais um fardo do que uma dádiva. Quando escrevi sobre filme, mais do que me preocupar com a superficialidade de adjetivá-lo como bom ou ruim, hipervalorizado ou menosprezado, preferi analisá-lo como um oportuno recado contra a massificação travestida de solidariedade (a virtude nomeia o vício). Alguns amigos não gostaram do filme, pois viram nele um alerta maniqueísta contra a ditadura comunista. Concordo com eles, mas só em parte. Creio que, assim como A revolução dos bichos, de H. G. Wells, A Onda traz um alerta contra diversas formas de totalitarismos, não apenas contra o império vermelho.

 

O filme que chega hoje em cartaz possui nova estampa: a história é agora ambientada na Alemanha; o professor responsável pelo projeto é caricaturalmente mais jovem em amplo sentido: possui vigor físico, ouve rock, é simpatizante da anarquia e não se preocupa em preparar suas aulas com muita antecedência. Se eu me preocupasse em fazer uma leitura paralela, destacando as vantagens e desvantagens de uma ou outra versão, diria que a segunda é menos clara – talvez menos didática – no que diz respeito a associar A onda (Die Welle) ao partido nazista. No entanto, isso não me parece o essencial. Por outro lado, considero extremamente relevante comparar a diferença nos desfechos.

Na versão norte-america, podemos dizer que, exceto para Robert, há final feliz: o professor se valeu de uma dura, mas competente lição de vida. Me pergunto: qual seria a função de refazer esse filme sem incorporar nenhuma nova reflexão? Sem – digamos assim – atualizá-lo? Imagine o perigo que seria um educador que, inspirando-se no final feliz do primeiro filme, pretendesse pôr em prática ideia similar. Pensando nisso, ou não, Dennis Gansel, o diretor da versão atual, resolveu problematizar um pouco mais a história. Como Reiner Wenger, o professor, assumiu um risco imenso ao tentar controlar os cérebros de seus pupilos, seria forçar demais a barra se ele passasse impune. A história cultural nos mostra que aquele que busca sorver-se de poder absoluto (vide Blade Runner, O Golem, Frankstein, ou o “conto alexandrino”, este de Machado de Assis) acaba se afogando.

Ao contrário do que o amigo me disse, Die Weller não é um remake de The Wave. Trata-se de um, na expressão de Ezra Pound, make it new. Mais importante do que refazer por refazer, é renovar aquilo que a cultura já produziu. É uma diferença pequena, mas fundamental.

Publicado em:  on 21 Agosto, 2009 at 9:13 pm Deixe um comentário
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Em busca de um interlocutor

Havia deixado, numa comunidade de cinéfilos, trechos de um pequeno ensaio sobre o filme Sociedade dos poetas mortos. Um dia depois, vejo que uma pessoa indignou-se com o fato de eu esperar que alguém lesse o texto. Calma! Vou repetir: não disse que a pessoa se revoltou com o que leu no texto, disse que ela se revoltou com o fato de haver ali na comunidade de cinéfilos um texto sobre cinema.
 
Fui dar uma olhada e constatei que de fato os tópicos mais populares dizem respeito a questões como: “Qual filme a pessoa acima te lembra?”, “Qual o melhor filme que está no profile?”, “Último filme que assistiu”. A preferência por respostas simplistas ou cultura de almanaque – não deveria, mas – me impressiona. Pensar dói?
Publicado em:  on 31 Julho, 2009 at 9:18 am Comentários (2)

A ilusão dos bichos

 (Este texto é uma espécie de fragmento não utilizado do texto anterior)

As palavras alimentam sonhos e esperanças, não raro, porém, se alimentando justamente de nossos sonhos e esperanças. A mesma voz que promete liberdade plena pode tomar o pouco que temos. A revolução dos bichos, de George Orwell, é um ótimo exemplo. Após existências de exploração, os animais de uma fazenda são “conscientizados” a se rebelar contra o proprietário que tanto os maltratou. Com certa facilidade, eles conseguem expulsar o ex-dono e passam a desfrutar de um breve período de alegria. Gradualmente, porém, a boa vida conquistada após a vitória vai dando lugar a uma nova exploração, desta vez conduzida pelos porcos – os animais mais inteligentes do bando, logicamente, os superiores. Mas a situação melhorou muito, afinal desta vez não há um homem tirando proveito deles – o que há é um merecido e justificável sacrifício em prol do grupo. Essa mesma ladinha foi bem explorada no filme A onda (o qual ganhou uma nova versão em 2008, mas ainda não surgiu nos cinemas brasileiros): a massificação, longe de criar uma sociedade forte, apenas anula o indivíduo. Os animais, pouco a pouco, deixam de ter importância individual e se transformam em meros instrumentos em prol de uma coisa abstrata chamada fazenda, a qual – concretamente – só existe enquanto propriedade de porcos cada vez mais parecidos com o velho inimigo de todos, o homem.

É possível encontrar, sem muitas dificuldades, diversas referências críticas ao regime socialista (o porco idealista seria Karl Marx, o porco banido seria Trotsky, o porco tirano seria Stálin, os animais explorados seriam o povo russo etc. etc.), mas creio que o alerta é mais abrangente. No final da história, já não se sabe a diferença entre porcos e homens (socialistas e capitalistas?) ; para ambos o discurso é mero instrumento de poder.

Publicado em:  on 30 Julho, 2009 at 4:52 pm Deixe um comentário
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Focalizando a Montanha

Billy Wilder produziu e dirigiu este fracasso de bilheteria logo depois de Crepúsculo dos deuses e pouco antes de Inferno n 17. Algumas pessoas tentaram ver nele um certo brilho satírico, mas na verdade é apenas desagradável, de um sociologismo presunçoso. Kirk Douglas faz um repórter carreirista de Nova York tão oportunista que quando chega a um lugar onde o teto de uma caverna desmoronou, sepultando um homem, no Novo México, dá um jeito de retardar o resgate para poder explorar a história. O homem soterrado morre, e Douglas continua berrando, para que todos tomemos conhecimento que é um típico e cínico explorador”. Foi isso, somente isso, que a famosa crítica Pauline Kael escreveu sobre A montanha dos sete abutres no seu esgotado e cobiçado livro 1001 noites no cinema. Sei que o pouco fôlego da análise talvez tenha sido resultado do pouco espaço disponível para a resenha, tanto sei que já encomendei outro livro dela (Criando Kane) para poder melhor apreciar seus dotes argumentativos. Em todo caso, não há como negar que a análise em questão é generalista, engloba o todo do filme, não se prendendo a detalhes e miudezas. Eis o ponto que me interessa.

O argumento se baseia em adjetivações subjetivas (“desagradável”, “sociologismo presunçoso”). O ruim dessa escolha estilística é que ela afasta o leitor do percurso lógico e imagético com que o escritor transforma suas impressões em julgamentos. O diálogo se limita, assim, num “concordo / não concordo”, o que é muito empobrecedor. Sem contar que o leitor ingênuo pode ser levado a acreditar que o filme seja uma barca furada sem igual, ideia essa com a qual não compactuo. Mesmo aceitando que o filme no todo não seja um primor, há trechos que podem ser muito instrutivos.

A pergunta mais óbvia se relaciona ao título. Os sete abutres poderiam remeter à quantidade de jornalistas que vão cobrir o caso (além de Tatum, os seis jornalistas que dividem a barraca da imprensa), mas como já bem observaram, o filme não critica apenas o jornalismo. Os sete abutres poderiam ser Tatum, Herbie Cook (o fotógrafo), Lorraine Minosa (a esposa da vítima), o xerife, o homem da escavadeira, o dono do circo e o músico que vendia um jingle em homenagem a Leo Minosa, o soterrado; são muitos os que ganham ou tentam ganhar à custa do sofrimento alheio. Mas a questão não é só essa.

Logo no início do filme, somos apresentados a um par dialético: Charles Tatum, jornalista decadente e inescrupuloso à espera de uma chance para mostrar a seus ex-chefes novaiorquinos que ainda é capaz de vender notícias, e Jacob Q. Boot, cândido dono do jornalzinho da cidade de Albuquerque, cândido a ponto de pôr na parede da redação um letreiro com os dizeres “Tell the truth”. Não é exagero ver nessas personagens o duplo “trabalho & aventura” desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, capítulo II): Tatum é movido pela coragem, pelo desejo de respirar novos ares, enquanto Boot quer a segurança do figurino com que foi vestido (Para quem não viu o filme: Mr. Boot usava, acreditem, cinta e suspensório ao mesmo tempo). Alguém poderia dizer que o par dialético a que fiz referência já se tornou um lugar comum de tanto usado, porém mais provável é que ele seja muito usado justamente por sua eficiência.

Também é lugar comum, aliás, a combinação desses elementos (Tatum se torna funcionário de Boot) para sugerir “a noção de uma incerteza entre os limites da legalidade e da ilegalidade e de uma simetria e um efeito de espelho entre sistemas legais e ilegais de poder” (Antonio Costa, Compreender o Cinema, p. 103). Se Boot é o paradigma da sinceridade, o que raios o levou a apostar num aventureiro da cidade grande? Alguns podem achar que ele tenha propositalmente se deixado enganar para lucrar com as vendas do seu jornaleco, mas não há evidência alguma de que ele tenha aumentado sua riqueza graças aos serviços de Tatum. Parece-me que ele era Pollyanna a ponto de sempre esperar o melhor das pessoas. Acho que se houvesse uma maior ambiguidade neste exato ponto, o filme seria ainda melhor.

O Gabinete do Dr. Caligari: Uma metáfora do totalitarismo

Frederico Di Giacomo Rocha

 

caligari

 

A mente de um louco nas telas de cinema, a consciência sombria traduzida em imagens góticas que tanto simbolizam uma história de terror quanto representam uma crítica ao totalitarismo. “O Gabinete do Dr. Caligari” é um marco do cinema mundial infinitamente resenhado e comentado. Sua importância é indiscutível, foi o primeiro e mais importante filme do chamado expressionismo alemão que reinou entre 1918 e 1928. Antecedeu os clássicos “Nosferatu” de Murnau e “Metrópolis” de Fritz Lang, tornando-se o primeiro sucesso do cinema de horror. Segundo Fritz Lang, no livro “O Século do Cinema” de Glauber Rocha, não existia um movimento expressionista organizado no cinema austríaco/alemão, esse foi apenas um rótulo achado pela imprensa para catalogar aquele cinema primitivo de começo de século. Polêmicas a parte, não se pode negar as semelhanças estéticas entre as obras desses autores e a influência dessa escola de arte no filme de Wiene.

O roteiro é aparentemente simples: Francis, um homem internado em um hospício, fala a um outro, em flashback, de uma série de assassinatos cometidos em uma cidade do interior alemão (Holstewall) a partir da chegada de uma feira itinerante na qual se destaca o Dr. Caligari (Werner Kraus), uma espécie de pai do Zé do Caixão* com sua cartola e sobretudo negros, que controla Cesare, um sonâmbulo (Conrad Veidt) que dorme em um caixão e aparentemente prediz o futuro. Francis havia ido à feira com seu amigo Alan (Hans Heinrich), que tem sua morte prevista por Cesare ao visitar a “cabine” do velho doutor (daí a origem do nome do filme). Após o assassinato de Alan as suspeitas recaem sobre o Dr. Caligari e inicia-se uma luta contra o tempo para impedir novos assassinatos e provar a culpa do doutor, que revela-se alter-ego do chefe do hospício da cidade.

A astúcia do roteiro está no final, que muitos dizem ter sido criado sobre pressão dos produtores.(Se você ainda não viu o filme e não que saber o final, pule essa parte) Antes mesmo de obras como “Sexto Sentido” ou “Os Outros”, nas quais o fim muda completamente o sentido da história, Wiene transporta o narrador para o hospício, como um louco, sendo a primeira história um delírio e o Dr. Calegari, na verdade, um bondoso médico.

Uma das marcas que garantiram imortalidade à película de Wiene é o retrato surrealista do universo narrado por Francis, representando os delírios de um doente mental. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm (que hoje fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris) são contorcidos, escuros e criam um ambiente de opressão, tal qual as catedrais barrocas. O tempo é desterritorializado, não há menções à época em que se passa o filme, assim como ocorre na maioria das obras expressionistas. A maquiagem é pesada e tudo remete a um mundo confuso, assim como era a Alemanha da pós-guerra, marcada pelos traumas impostos pela derrota na Primeira Grande Guerra, as crises econômicas e a ascendência do nazismo ao poder. O nazismo, inclusive, selou o destino dos dois atores principais: Conrad Veidt fugiu da Alemanha para se tornar um astro nos Estados Unidos (interpretando o nazista em “Casablanca”) e Werner Krauss permaneceu na Alemanha para se tornar então o ator principal do filme de propaganda anti-semita “Jud Suss”.

O “Gabinete do Dr. Calegari” é um aviso, uma premonição do mal que viria varrer a Europa nas décadas de 30 e 40. Assim como “O Vampiro de Dusseldorf” de Lang, o filme de Wiene expõe os efeitos do autoritarismo, totalitarismo e da forma de influenciar as massas através do hipnotismo. É uma obra crua, de um tempo em que o cinema era mudo, preto e branco e começava a buscar sua linguagem própria. Uma vitória para o diretor que conseguiu transmitir com imagens fortes toda a angústia, medo e opressão vividos na entreguerras. Mal sabia Wiene que diante do horror de Hitler, seu Dr. Calegari poderia estar ao lado de Rapunzel nas histórias de carochinha.

Assista o filme aqui.

Publicado em:  on 9 Maio, 2009 at 9:16 am Deixe um comentário

Sobre “Benjamin Button”

 

“A vida é breve” – Há mais de dois mil anos, Hipócrates já havia percebido o óbvio: um dia deixaremos de existir. Nosso corpo, nossos gestos, nosso olhar, tudo aquilo que hoje é nosso, amanhã só restará em retratos e lembranças. Estamos sempre ao alcance da ameaçadora sombra da morte; não há o que fazer. “No fim, todos vamos para o mesmo lugar, apenas pegamos caminhos diferentes para chegar lá” ouve-se em certo momento de O curioso caso de Benjamin Button, este sutil filme sobre os caminhos da vida.

 

A sinopse é simples: Benjamin é um sujeito que nasce velho e, à medida que o tempo passa, começa a rejuvenescer. Com esse esquete, seria possível fazer uma comédia tosca como De repente 30 e coisa do tipo, mas felizmente não foi isso que aconteceu. O filme começa em meados de 2005 num hospital de New Orleans, onde uma velha senhora (Dayse) sabe estar vivendo seus últimos momentos. A data e o lugar não foram escolhidos por acaso; há um evidente paralelismo semântico: enquanto Dayse aguarda a iminência da morte, todos os demais vivem a expectativa do Katrina, furacão que destruiu parte da cidade naquela época – seria a primeira de muitas associações envolvendo morte e mar.

 

A personificação, por si só, diriam alguns, é mero enfeite, chavão, arremedo de poesia. De fato assim seria se a metáfora se perdesse do todo, o que felizmente não acontece. É importante lembrar que a personificação dá corpo a substantivos abstratos: os ventos são a respiração ofegante da morte; a umidade, sua pesada sombra. Evidência flagrante de que a analogia não fora escolhida ao acaso se encontra na cena seguinte, em que se narra a história de um relojoeiro cego que, desolado com a morte do filho na Primeira Guerra Mundial, constrói um relógio cujos ponteiros caminham no sentido anti-horário – símbolo não só de sua revolta contra a violência desumana das batalhas, mas também de seu lamento diante da implacável e irrevogável força do tempo. Tendo perdido seu norte, desorientado em seus ponteiros, Mr. Cake, o relojoeiro, aponta a bússola para o grande e misterioso mar, onde desaparece.

 

A vida é breve, vamos todos para o mesmo lugar. A cabeça da criança envelhecida, a quem desde sempre foi dito que viveria pouco, deveria se inundar do mais profundo e pesado pessimismo. Se ela tivesse lido Sêneca, este lhe diria que “não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela”.[i] Como Sêneca não aparece no filme, é com outras pessoas que Benjamin começa a aprender a lição. Com a velha de cujo nome ele não se recorda, aprendeu que, mais importante que tocar bem o piano, é sentir a música que está tocando; com Mr. Oti, um pigmeu africano que entre inúmeras outras aventuras se fingia macaco assustando crianças brancas num zoológico, aprendeu que o mundo não se restringia à casa de velhos em que morava; com o capitão Mike, ele aprendeu que deveria ir em busca de seus sonhos. Em suma, o recado do pensador romano, de um jeito ou de outro, o alcançou; Benjamin percebeu que, sendo a vida incerta, o melhor seria saboreá-la da melhor maneira possível.

 

Não cabe aqui detalhar o enredo do filme, no entanto alguns pormenores merecem destaque. Capitão Mike, por exemplo, tem tatuado no peito a imagem de um beija-flor. O filme nos entrega de lambuja um significado importante: de acordo com o homem do mar, o pássaro morre assim que se vê impedido de bater suas asas, simbolizando a importância da liberdade à nossa natureza. No entanto, não é só isso. As pequenas asas daquele pássaro minúsculo descrevem no ar o oito deitado; uma pequena metonímia ecoando a mensagem: nos mínimos detalhes, podemos encontrar o infinito. Ainda que soe a breguice, o problema é atual e constante: quantos de nós não deixamos de lado o mundo real e concreto para nos evadirmos num devaneio que nada de proveitoso nos traz? Nas palavras do poeta Bruno Tolentino “o mal do pensamento é abandonar o efêmero, trocá-lo pelos ossos do Ideal”.[ii] Como bem notou o crítico Luiz Carlos Merten, a famosa cena em que Benjamin e Dayse se miram no espelho, no exato e único momento em que ambos estão com a mesma idade, também remete à importância da concretude, de curtir o momento presente, sem que as abstrações (sejam disfarçadas de saudades, sejam disfarçadas de planejamento) nos raptem.

 

Estaríamos aqui no segundo terço do filme. Muito mais poderia ser dito, mas – ora bolas! – deixe este texto de lado e vá ao cinema. Nenhum manual substitui o próprio paladar.


[i] Sobre a Brevidade da Vida (tradução de Lúcia Sá Rebelo). São Paulo: L&PM, p.26.

[ii] O Mundo como Idéia. São Paulo: Globo, p. 393:

Porque pertence ao instinto natural

desejar, cortejar o passageiro,

o coração em busca do real

é como um perdigueiro atrás do cheiro

 

fugitivo da vida, um perdigueiro

imaginando a presa. Mas o mal

do pensamento é abandonar o efêmero,

trocá-lo pelos ossos do Ideal,

 

 e o pobre perdigueiro pouco a pouco

desiste da aventura da caçada

e desenterra um ossuário. Rouco

 

de ladrar noite adentro contra o nada,

no coração há um perdigueiro louco:

o que Uccello soltou contra a alvorada.

 

Visões de Liberdade

Ensaio do filme: Sociedade dos poetas mortos[1]

 

Relendo este antigo ensaio, noto nele a repetição de certas estruturas lógicas. Por um lado isso evidencia pressa e descuido, por outro a tentativa de esmiuçar um raciocínio coerente. Não importa. A essência permanecerá a mesma. [04/06/08]

John Keating 

 

Não é raro vermos o professor John Keating, protagonista do filme Sociedade dos Poetas Mortos, associado a um louvável modelo de educador: aquele que possui bagagem intelectual de respeito e, mesmo assim, não se furta a estimular a capacidade individual de seus alunos. Talvez tenha sido desse modo que sua imagem tenha se solidificado de 1989, ano da produção do filme, para . O que é certo, porém, é que essa imagem - idealizada, sem dúvida alguma – acaba nos ofuscando um grave problema da conduta didática, para não dizer ideológica, do personagem interpretado por Robin Williams.

O filme retrata a passagem do professor John Keating pela academia Welton, uma escola americana de elite, especializada em preparar seus alunos para as melhores universidades do país. O ambiente é propositalmente repressor e autoritário, com cheiro de escola velha e ultrapassada: o professor de ciências exige um sem-número de relatórios e trabalhos a seus alunos, o de latim insiste numa passiva tarefa de memorização (para não dizer decoreba), o de geometria mostra-se intolerantetodos, todos eles parecem ser mais dotados de poder que de conhecimento. Um prenúncio dessa realidade se dá logo na primeira cena do filme, quando vemos o detalhe de um quadro: entre dois rapazes (um loiro, o outro ruivo) que miram atentamente um ponto fixo fora do alcance de visão do telespectador um outro menino: cabelos escuros, olhos fechados, cabeça baixa. Até mesmo o corte de cabelo acentua seu desânimo: enquanto os outros dois portam um topete que lhes certo ar de otimismo e altivez, o rapaz do meio tem a franja caída na testa, misto de cansaço e submissão.

A vinda de Keating produzirá um grande contraste na vida daquelas jovens ovelhas. A calma e a segurança com que conduz suas aulas nada convencionais conquista a simpatia da maioria de seus alunos. Conquistar é o verbo. O desprendimento da sua didática, mais do que transmitida, lhes é imposta: desde o arrancar as páginas teóricas de um livro de poesia até a autodenominação que cria para atingir uma maior intimidade com os rapazes (“ó, Capitão, ó, meu capitão”), o que o professor estimula é mais a incompreensão que a liberdade.

O erro de Keating é fazer os alunos acreditarem que o acesso à cultura é antes uma submissão ao mundo dos adultos do que uma forma de amadurecimento. Ao invés disso ele poderia lhes proporcionar condições para questionarem concretamente os excessos de um sistema educacional conservador que mal compreende o que conserva; isso sim seria uma postura didática louvável. O problema da Welton, afinal, está menos no que ensina e mais no modo como o faz. Que a metodologia do doutor J. Evans Pritchard (“Understand the poetry”) seja contestável não dúvida. O grande problema é que ela não é contestada, mas sim negada, abolida sem mais nem menos, sem argumentos, sem tentar fazer os alunos compreenderem os motivos que levam Keating a desprezá-la. Ou seja, a primeira lição do “professor se baseia não no elogio da liberdade individual, mas sim na apologia de um egocentrismo obtuso e enganador .

A tática persuasiva é eficiente, não dúvida alguma. Com a promessa de transformar os alunos em livres pensadores (o que poderia ser esboçado, insisto, com um ensino que lhes fornecesse uma maior envergadura cultural), Keating acaba estimulando neles um espírito fechado a “regrasque, equivocadamente, crê pertencerem menos a toda uma cultura ocidental do que à escola em que leciona. Ou seja, ao contrário do que parece numa primeira análise, o que o professor incita é um misto de conservadorismo e conformidade. Conservadorismo por não incitar os alunos ao desafio do conhecimento, do verdadeiramente novopara eles; conformidade por fazê-los acreditar que não mal nenhum nisso. Este problema, como você deve ter notado, permanece atual .

Se por um lado a escola falha em não dar vida ao ensino, por outro Keating falha em crer que o problema é o conteúdo. É claro que não foram as aulas de Literatura que levaram Neil Perry, seu aluno, ao suicídio (o pretenso clímax da história), mas certamente serviram de estímulo a muitos dos atos de irresponsabilidade de Charlie Dalton (o aluno que foi expulso). Ironicamente, é ao repreender Charlie que o professor sua melhor lição (com um atraso injustificável, diga-se): “sugar a essência da vida não significa afogar-se nela [...] há hora para atrever-se e hora para ter cuidado. O sábio sabe escolher a hora apropriada”. Essa frase caberia muito bem na fala do verdadeiro educador. Esse, aliás, seria o recado de maturidade de que os alunos mais poderiam tirar proveito; saber que mais importante que uma simples contestação é arquitetar modos para que esta possa se realizar.

    Novembro de 2005.

 

 

 

 

 

 

 

 

 




[1] Sociedade dos poetas mortos (EUA, 1989)

 

Direção : Peter Weir

Produção : Steven Haft

 

Elenco : Robin Williams (John Keating), Robert Sean Leonard (Neil Perry), Ethan Hawke (Todd Anderson), Josh Charles (Knox Overstreet), Gale Hansen ( Charles Dalton).

 

 

 

 

 

 

Publicado em:  on 4 Junho, 2008 at 10:47 am Comentários (3)
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a onda

 

 ”Você é especial” - assim funciona o principal argumento massificador de que temos conhecimento. Soa, sim, a paradoxo. Não por acaso, poucos percebem as artimanhas dessa falácia. Não por acaso, essa arapuca se mostra tão eficiente.

 

 O filme A Onda ilustra bem essa teoria. Os fatos se passam numa pequena escola da Califórnia. Numa aula de História, a aluna pergunta ao professor como os alemães puderam ser tão coniventes com o nazismo. O que poderia justificar ou explicar a adesão a algo tão nocivo à humanidade? De bate-pronto, nem o docente sabia, mas ele se propôs uma investigação extremamente dolorosa, principalmente a seus alunos.
 

 Pouco a pouco, suas aulas passaram por uma imensa modificação. Aos avacalhados alunos era exigida uma melhor postura não só física como moral. Disciplina era a palavra da vez, dela se desdobrando outros conceitos, como ordem, força e conjunto. Rapidamente os alunos foram induzidos a se acreditarem melhor do que eram antes. O grupo que eles estavam formando, a Onda, se mostrou forte e impetuoso; exatamente o oposto de seus integrantes – fato este que se lhes acentuou a importância do grupo. Não tardou, porém, para que os problemas começassem a surgir.
 

 ”Filha, você foi criada para ser ímpar”, com essa frase tão individualista e – principalmente – tão libertária uma aluna foi despertada por sua mãe. A Onda, longe de ser um catalisador do potencial humano, se mostrou um inibidor de sua individualidade. Há quem diga que o capitalismo – a onda da vez -  privilegie o individualismo. Me parece o contrário: ele (aqui no Brasil ao menos) instiga a massificação. Os frascos de perfume, os maços de cigarro não cativam apenas nosso olfato; eles visam cativar nosso raciocínio. Não à toa as propagandas enfatizam tanto a imagem, deixando de lado aquilo que de fato caracterizaria os produtos.
 

 As imagens são nosso cativeiro. Há como escapar? Uma resposta generalizante é o primeiro passo para não compreender o problema. A falácia dos grupos é sedutora, afinal estes são conduzidos por indivíduos que conhecem bem os instintos da massa. Enfrentar a onda, nadar contra a corrente talvez seja cansativo. Mas é a melhor alternativa para manter o espírito livre.

Publicado em:  on 21 Abril, 2008 at 5:34 pm Comentários (7)
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