O paladar se treina com pequenas porções, mas às vezes um bom prato nos convida à gula. É o que aconteceu quando meus olhos começaram a mastigar Seleção Natural, livro de ensaios culturais e políticos de Otávio Frias Filho. Como bom ensaísta, o autor não se limita a escrever sobre as grandes obras, mas consegue tirar de um filme mediano, como Peggy Sue, seu passado a espera, grandes reflexões. É isso que importa.
Ler o Otávio é ter uma conversa descontraída com uma pessoa inteligente, daquelas cujo olhar investiga, capta e interpreta detalhes que deixamos passar. Otávio evita a adjetivação vazia e generalista. Em vez disso, prefere indicar cuidadosamente seus percursos argumentativos (leitores que não gostam de pensar o chamariam de redundante) num tom que se vale de boa didática, mas sem desprezar a capacidade intelectual do leitor.
Há pessoas que se assustam quando lêem um bom livro, mas acho que a lição é completamente oposta. Otávio, como um daqueles chefs cujas mãos são capazes de dar sabor a um jiló, é um ótimo exemplo de que uma pessoa inteligente consegue tirar proveito intelectual até mesmo de cartolas baratas.
Assim são amigos preciosos, aqueles capazes de temperar qualquer programa.