Clarice [sorrindo]:
Toc, toc.
Sócrates [levantando-se, com os braços abertos]:
Clarice!
Clarice:
Dr. Sócrates, tudo certo contigo?
Sócrates:
Tudo ótimo, minha amiga.
Mas, diga-me, o que a traz aqui?
Clarice:
As pernas e uma dúvida.
Sócrates:
Eu aprecio as dúvidas.
E também aprecio as pernas.
Afinal, elas trouxeram minha querida amiga para perto de mim.
Clarice:
Gentileza sua, Doutor.
Sócrates:
Ora, vamos!
Mas, diga lá: qual é seu problema?
Clarice:
Estou perdida, doutor.
Não sei para onde fica o norte.
Sócrates:
Ahn… Vejamos!
Se você sair por aquela porta,
desviar da multidão
e subir a rampa que dá na Vergueiro…
Basta virar à direita e perguntar para alguém.
Clarice:
Afe, Doutor!
Você sabe que não é disso que estou falando.
Sócrates:
Estou brincando, Clarice.
O norte fica em direção ao metrô Paraíso.
Clarice:
Doutor, deixemos a as coordenadas geográficas de lado.
Estou com um problema, esqueceu?
Sócrates:
Ok, Clarice, mostre-me, então, o que aconteceu.
Clarice:
Mês passado fui com minha família
a uma excursão no litoral do Rio de Janeiro.
Ali perto de Angra dos Reis, conhece?
Sócrates:
Sim, lá onde estão aquelas usinas nucleares.
Clarice:
Lá mesmo.
A lancha nos levou a uma ilha muito rústica.
Sócrates:
Rústica?
Clarice:
Isso, ela era bem simples.
Mas, apesar de não haver pousadas ou restaurantes,
gostei muito dela, peguei minha câmera fotográfica e fui atrás de belas fotos.
Sócrates:
E seus pais?
Clarice:
Meus pais? Ora, você não vai acreditar:
eles se esqueceram de passar repelente e nem sei onde estavam.
O que importa é que no meio daquela mata, eu pensei com meus botões…
Nova cena:
Clarice dará as costas ao doutor Sócrates
para interagir com o Fauno.
Dr. Sócrates ficará meio de lado, na lateral do palco, fora da conversa.
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Clarice:
Como que alguém poderia viver aqui?
Sequer consigo sinal para meu celular.
Seria impossível pedir uma pizza por telefone.
(Aparece o fauno, ele fica às costas de Clarice)
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Fauno:
Pior, minha desconhecida, aqui nem tem pizzarias.
Clarice (Reparando no rabicó do Fauno):
Pois é. Não tem Lan House ou Playstation 3.
Fauno:
Pior, minha desconhecida, aqui nem tem energia elétrica.
Clarice (ficando triste):
Não tem quadra de esportes ou shopping…
Fauno (rebolando o rabinho):
Pior, nem tem gente.
Clarice:
Meu senhor, que bicho és tu?
Fauno:
Sou um fauno, meio bicho, meio humano,
sou um defensor dos bosques e das florestas.
Clarice:
Como o senhor faz quando tem fome?
Fauno:
Gosto de frutas e raízes.
Água fresca e ervas.
Clarice:
Ervas?
Fauno:
Manjericão, manjerona, cebolinha e alecrim.
Limões, alhos e tomilhos temperam meus tomates.
E você, já ouviu falar dessas coisas?
Clarice:
Claro que sim!
Só porque eu sou da cidade,
você pensa que eu só como porcarias?
Fauno:
Não foi isso que eu quis dizer…
Clarice:
No supermercado perto de casa tem um grande departamento de enlatados.
E lá o molho de tomate já vem com esses matos de que você falou.
Fauno:
Certo. Então você sabe me dizer que planta é essa?
Clarice:
São, são, são… que planta mais bonitinha…
Fauno:
Cara desconhecida, não tente me enrolar.
Clarice:
Já sei! Eu vi uma foto disso na internet.
É um tomilho!
Fauno:
Você já experimentou?
Clarice:
Não, nunca o vi antes,
mas eu sei o que é.
Fauno:
Sabe nada, minha amiga.
Clarice:
Claro que sei.
Eu até o reconheci.
Fauno:
Saber, minha cara,
saber é conhecer o sabor.
Clarice:
Como assim?
Fauno:
Ora, até parece que você não estuda etimologia.
Etimologicamente, a palavra SABER vem de SABOR.
Saber é conhecer o sabor.
Clarice:
Como você sabe essas coisas?
Fauno:
Um sujeito meio estranho, passeando pela ilha,
deixou cair um dicionário de Latim.
Clarice:
Acho que conheço esse maluco.
Fauno:
Mas não importa. Voltemos ao tomilho.
Pegue, sinta o cheiro.
Clarice:
Hum… gostoso.
Fauno:
Descreva melhor.
Clarice:
Estranho.
Esse matinho tem um cheiro cítrico.
Fauno:
É o tomilho limão.
Clarice:
Faz sentido.
Diga-me, seu Fauno, que mais de bom temos por aqui?
Fauno:
Eu plantei cenouras aqui no chão.
Clarice:
Cadê?
Fauno:
Acho que algum bicho comeu.
Clarice:
Um coelhinho? Que lindo!
Eu quero ver o coelhinho!
Fauno:
Talvez tenha sido um rato…
Clarice:
Credo!
Rato eu não quero ver.
Fauno:
Está com sede?
Clarice:
Sim! Eu quero água de coco!
Fauno:
Água de coco não tem.
Clarice:
O que eu vou beber, então?
Fauno:
Água da chuva, ora…
Clarice:
Ai!
E quando não chove, o que você faz?
Fauno:
Saiba, minha amiga, é possível absorver o líqüido das plantas.
Que nem se faz com cactos.
Clarice:
Aqui tem cacto?
Fauno:
Não.
Mas temos chuchu.
Clarice:
Não gosto muito de chuchu.
Fauno:
Hum…
Suco de chuchu, ô coisa boa…
Clarice:
Como você faz para comer carne?
Fauno:
Não como; dá muito trabalho caçar algum bicho.
Clarice:
Isso não faz mal para sua saúde?
Fauno:
Como saber? Aqui não tem médicos.
Clarice:
E se você ficar doente?
Fauno:
Minha avó conhecia bem o uso medicinal das plantas.
Mas eu não; sou uma negação nesse assunto.
Clarice [tocando-se desesperadamente]:
Acho que estou com uma dor não sei onde.
Fauno:
Sinto muito, não sei resolver.
Clarice [voltando-se para o Doutor Sócrates]:
E você, doutor, conhece alguma planta que me ajude?
Doutor Sócrates:
Só sei que nada sei.
Clarice:
Amigo Fauno, quem são seus amigos?
Fauno:
Olha, tem a Josicleide.
Clarice:
Jô o quê?
Fauno:
JO-SI-CLEI-DE!
Clarice:
Ela é bonita e simpática?
Fauno:
Que nada!
Ela é uma cabra da peste.
Clarice:
Por quê?
Fauno:
Ô mulher chata aquela. Vivia me dando ordens.
“Bódin, recolha madeira!
Bódin, cave uma fossa!
Bódin, construa uma casa!
Bódin, plante umas árvores!…”
Clarice:
Seu nome é Bódin?
Fauno:
Bódin é diminutivo de Bode;
como se fosse “bodinho”.
Clarice:
Que meigo.
Fauno:
Não me venha com essa.
Clarice:
E além dela? Você conhece mais alguém?
Fauno:
Tem o João Carneiro.
Clarice:
Como ele é?
Fauno:
Um lobo. Um lobo em pele de…
Clarice:
Ele fez alguma coisa de errado contigo?
Ele roubou a sua namorada?
Fauno:
Pior do que isso.
Eles nem se conhecem.
A vida aqui é muito solitária.
Clarice:
O que ele fez de ruim, então?
Fauno:
Ele construiu – não sei como – sua casinha,
com teto, parede, fossa e muro.
Mas não deixa ninguém visitá-lo.
Clarice:
Aqui também acontecem essas coisas?
Fauno:
Do que você está falando?
Clarice:
Nos filmes é diferente.
Dr. Sócrates:
Pois é, Clarice.
(Perceba que aqui haverá uma intersecção de ambientes:
ao mesmo tempo em que o Fauno tenta falar com Clarice; ela começa a se voltar para o Dr. Sócrates.)
|
Fauno:
Clarice, volte a conversar comigo!
Clarice:
Aquela ilha deixou de ser atraente.
Fauno [gritando fraquinho, em gradação descendente]:
Clarice!
Não se esqueça de mim!
Sócrates:
E agora, José?
Clarice:
Quando voltei para a cidade…
O senhor sabe o que eu fiz?
Sócrates:
Foi ao supermercado?
Clarice:
Não.
Sócrates:
Ao shopping?
Clarice:
Não.
Sócrates:
Acessou a internet?
Clarice:
Não.
Sócrates:
Foi ao banheiro.
Clarice:
Hum… Não.
Sócrates:
O que você fez?
Clarice:
Fiquei na praça da Sé observando as pessoas.
Sócrates:
Por quê?
Clarice:
Percebi que, quase todo dia, eu sempre passava por muitas pessoas.
No metrô, nas avenidas, nos shoppings…
Pernas e calças indo de um lado para o outro.
Mas, dessa vez, foi diferente.
Eu olhei o rosto das pessoas, mirei fundo nos seus olhos.
Sócrates:
E o que você viu?
Clarice:
É como se elas estivessem hipnotizadas.
Andam sem saber por que estão andando.
Correm sem saber por que estão correndo.
Sócrates:
O problema seria a pressa?
Clarice:
Não é tão simples assim.
Também há aqueles que esperam sem saber por que estão esperando,
Os que pensam na vida sem saber por que estão pensando…
Sócrates:
E os que conversam com o analista sem saber por que estão conversando?
Clarice:
O senhor acertou em cheio, doutor.
O problema é esse.
Muita vez a gente se acomoda com as coisas.
Sócrates:
Isso é ruim.
Clarice:
Mas também de nada vale ficar desanimado.
Sócrates:
Ficar desanimado é ficar sem ânimo.
Em latim, anima quer dizer alma, espírito.
Clarice:
Você também doutor?
Sócrates:
Pois é, foi um sujeito meio estranho
que sempre aparece por aqui que me contou essa.
Clarice:
Mas voltemos ao assunto, doutor.
Sócrates:
Qual é o seu problema, Clarice?
Clarice:
A vida na cidade é cheia de defeitos.
Sócrates:
Poluição, barulho, aglomeração…
Clarice:
Mas acho que simplesmente destruir tudo,
viver no meio do mato…
Isso não resolve.
Sócrates:
Por quê?
A intersecção final:
os três personagens [Clarice, Sócrates e o Fauno] vão falar de frente para a platéia.
Eles formarão uma pequena fila [um ator ficará atrás do outro, alternando-se conforme a fala].
A idéia é passar ao público a sensação de que os três são na verdade uma só pessoa [a consciência da Clarice].
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Fauno:
A vida selvagem não é nenhum paraíso.
Clarice:
E a cidade também tem coisas boas.
Sócrates:
É possível ter uma vida perfeita?
Fauno:
Talvez eu consiga uma casa igual à do João Carneiro.
Clarice:
Mas isso me isolaria das outras pessoas.
Sócrates:
É possível ter uma vida perfeita?
Fauno:
Na cidade, eu teria mais proteção.
Clarice:
No campo, minha vida seria mais saudável.
Sócrates:
É possível ter uma vida perfeita?
Fauno:
No meio do mato, eu tenho medo das feras.
Clarice:
A cidade também possui suas feras.
Sócrates:
O que seria uma vida perfeita?
Fauno:
Eu preciso da civilização.
Clarice:
Eu preciso da natureza.
Sócrates:
O que seria uma vida perfeita?
Fauno:
Eu preciso de amigos.
Clarice:
Eu preciso de privacidade.
Sócrates:
O que seria uma vida perfeita?
Agora os personagens, formando um triângulo, encaram-se.
Sócrates
Clarice Fauno
A fala deve ser alta (audível) e bem pronunciada.
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Fauno:
Etimologicamente
Clarice:
perfeito é o que já está feito.
Fauno:
Etimologicamente
Clarice:
perfeito é o que já está pronto.
Fauno:
Etimologicamente, portanto,
Clarice:
perfeito é o que não evolui.
Todos (olhando de frente a platéia):
Felizmente e infelizmente
o mundo não é perfeito.
FIM