Tá rindo de quê?

Sexta passava estava no teatro esperando uns amigos. Sentei-me na terceira, e última, fileira da arquibancada, pensei em abrir um vinho ou acender um cigarro, mas não me deixaram; seria falta de respeito com o artista e com a plateia. Concordo. Ademais, não vamos ao teatro para beber ou fumar. Certos prazeres individuais têm sua hora e vez. E eu sei me comportar.

Meus amigos chegaram, acalmei minha sanha, a peça começou, a atriz fez uma piada banal e muitos começaram a rir. Mais uma piada sem graça, mais risos. Uma terceira piada estava ainda sendo contada, mas o sujeito da frente já estava rindo. Até pensei que ele fizesse parte da peça. Talvez o roteiro fosse mais ou menos assim:

Atriz: Todo mundo que acredita em outras vidas, todo mundo, acredita ter sido alguém importante. Há alguma Cleópatra aqui hoje?
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Existe aqui algum Dom Pedro I? Algum Napoleão? Algum Pelé? – Ah, o Pelé não morreu…
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Algum Michael?
Homem alegre da plateia: há! há! há!

Na peça dos meus sonhos, um outro personagem, bastante irritado, se levantaria expulsando o homem alegre da plateia: “Xô, claque! Vá embora! Não é de risos assim que a peça precisa!  Mas não foi isso que aconteceu; a peça continuou seu percurso sem minha interferência, o que talvez tenha lhe garantido uma sobrecota de risos. Está reclamando do quê? De amarga já basta a vida…

Só se for a sua, meu caro. O paladar é mais complexo do que  a dicotomia doce-amargo pode supor, mas não fugirei da questão.  O que me incomoda não é o riso em si – ou melhor, é justamente o riso em si, o riso para si, o riso como meta, o riso que a nada aponta, o riso que nada revela. Em vez disso, prefiriria o o riso cínico de um Machado de Assis, de um H. L. Mencken ou mesmo de um Woody Allen, mesmo sabendo da grande probabilidade de eles, às escondidas ou não, estarem rindo da minha cara. Isso que estou dizendo nem é novo, até os manuais mais desatualizados de literatura ensinam que na base do teatro português era comum o  Ridendo castigat mores… Estou pedindo muito? 

Não há como negar que me senti incomodado pela quantidade de piadas de cunho sexual (de gosto pra lá de duvidoso) que iam sendo lançadas sempre que houvesse – ou não – uma deixa. Consultei o relógio: em vinte minutos de peça, não havia achado graça em nada. Pensei então em captar uma frase de impacto que fosse, algo que pudesse – vamos dizer – salvar a noite. Num determinado momento, ouve-se “o livro dissemina ideias”. Bingo! Não só o livro, mas o teatro também pode disseminar ideias. Foi para isso que saí de casa aliás - mas não. Os intertextos culturais (princesa de Sabá cometendo a dancinha do Michael Jackson, inclusive) ofendiam-me profundamente. Sei que o humor é uma forma de identificação entre ator e público, talvez por isso mesmo tenha me sentido tão pouco à vontade perante um espetáculo que me considerava um pleno idiota. Caso algum sujeito sem noção acendesse um cigarro no meio da peça, todo mundo (inclusive eu) notaria sua indelicadeza e falta de modos, mas acho que nosso cérebro deveria ser tão bem preservado quanto nossos pulmões. 

Quis me levantar, sair de lá o quanto antes, acender um cigarro, conversar com uma pinot. Mas não fumo. E não havia nenhuma garraga comigo. Ademais, não queria interromper a peça. Afinal, sei me comportar.

P.S.: Apesar de ter achado a peça extremamente fraca, gostei dos recursos cênicos da atriz.

P.P.S.: O que salvou a noite foi sair para jantar na rua de trás do teatro. Se não fosse o restaurante, é bem capaz que meus amigos ficassem revoltados comigo.

farsa da boa preguiça

A Farsa da Boa Preguiça, de Ariano Suassuna, certamente tem momentos muito engraçados. Me diverti à beça com as insinuações maldosas aos modernistas de 1922, cujo grupinho foi bem representado pela Dona Clarabela, vulgar esposa de Aderaldo Catacão, patrocinadora das artes na zona da mata e no sertão nordestino. Sua sanha em encontrar a cultura popular autêntica lhe cobre de conceitos pré-estabelecidos que a impedem de apreciar o que o poeta popular, Joaquim Simão, teria a lhe oferecer. Até aí, nenhuma novidade – o saudoso sambista Moreira da Silva interpretou uma divertida música de Miguel Gustavo que muito bem satiriza o intelectual modernista (http://letras.terra.com.br/moreira-da-silva/1227524/) – mas é bom tirar as teias de aranha dos livros e polemizar o status quo de uma cultura que se quer antenada e chique à custa da eliminação de um individualismo que, ainda sendo anacrônico (eufemismo de que se vale Clarabela para julgar a crença do poeta como mera superstição), não deixa de ser o bem mais preciso do indivíduo.

 

Integrar sem desintegrar, digo antes que os coletivistas – massificadores? – de plantão tentem me pegar pelas laterais. De fato, a arte deve comunicar, ela deve ser a forma de expressão dos sentimentos e ideias do artista (quem nunca se incomodou com o onanismo intelectual – expressão atribuída ao crítico uspiano Davi Arrigucci Júnior – dos poetas concretistas?), mas – veja bem! – de expressão, não de aceitação passiva. A base do raciocínio, como bem sabem meus alunos do oitavo ano, está no contraste de ideias (Quem não for meu aluno do oitavo ano pode conferir aqui: http://mutuca.wordpress.com/2008/11/19/das-matizes/). O indivíduo que representa metonimicamente o senso comum, sem nada lhe acrescentar, não merece ser chamado por esse nome.

 

Mas voltemos à peça. Apesar das certeiras insinuações maldosas contra os modernistas de 1922, o público ria mesmo era quando os atores usavam (abusavam?) das gags sexuais. Obviamente, não deve ser nada horrível interpretar tais cenas com a Bianca Byington, mas quem ri com isso deve adorar o Zorra Total. O curioso é que a luxúria com a qual o público tanto se identificou é questão central na peça: mais do que a preguiça – que, vá lá!, pode ser produtiva – a luxúria sim se torna a perdição dos personagens; ela é a geratriz (ou o desdobramento) dos seus problemas mais significativos. É buscando a luxúria que Aderaldo vai atrás de Nevinha, a mulher do poeta. É à luxúria por Dona Clarabela, mulher de Aderaldo, que Simão Joaquim vai se entregar tão logo enriquece.

 

É significativo perceber que Simão é absolvido por “vencer” a luxúria mesmo sem ter vencido a preguiça. Porém mais significativo do que isso – eis onde Ariano Suassuna decididamente acertou a mão – é perceber que quem absolve o poeta não é Cristo, mas uma representação – popular – de Cristo. Mais do que termos sido criados à imagem de Deus, criamos um Cristo particular à nossa imagem de modo a termos a sensação de que seremos perdoados? Se for, isso é bastante coerente com a preferência que se dá à imagem do Filho (jovem e benevolente) e não do Pai (poderoso e tirano – pergunte a Jó ou a Lúcifer). 

 

Essa relação malemolente entre o protagonista e Deus também aparece em O Auto da Compadecida. Porém lá, mesmo quando a coisa aperta, João Grilo não hesita em mandar o diabo às favas. Nesta peça, mais ainda do que em Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, a absolvição do parvo nos convence. Mas o mesmo não se pode dizer do protagonista preguiçoso.

Joaquim Simão é ao mesmo tempo conservador e desleixado. Se eu dissesse isso apenas devido à forma displicente como ele se esforça para resistir aos encantos e “catucadas” de Clarabela, estaria perdendo nosso tempo. O que mais me interessa na verdade é o parentesco entre o herói da história e homem cordial sergiobuarquiano (Raízes do Brasil, capítulo V), aquele que confunde flexibilidade com aversão às normas; liberdade com descompromisso; tolerância com desapego às ideias. No folder distribuído na entrada do teatro, leio “o autor nos leva a perceber as sutilezas e artimanhas do caráter humano, mas também sua complexidade e suas potencialidades – de grandeza e de mesquinharia,  às vezes na mesma pessoa”. Mesquinharia tudo bem; grandeza não vi.

P.S.: a peça reestreia em Agosto no  teatro do Shopping Eldorado. Dependendo de como estiver minha agenda, irei lá me divertir novamente.

Publicado em:  on 21 Julho, 2009 at 2:42 pm Comentários (1)
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Sem refugar

 

No início da semana passada, mal havia controlado a balbúrdia da sala de aula, notei que um aluno magrinho de cabelos emaranhados se aproximava segurando um pequeno pedaço de papel. Ao contrário do que eu supus, não era daqueles bilhetes que recebemos no trem (Sou surdo, minha família não me alimenta, me arruma uns trocados, que Deus lhe abençoe), mas um folder, uma espécie de convite para a peça de teatro da qual o Lucas (o menino magro de cabelo emaranhado) participa.

Talvez por pena da cara de dó com a qual o aluno me abordou, talvez por não querer limpar a areia dos gatos, chamei minha esposa e fomos ao teatro. A expectativa era ver o Lucas escondidinho em algum canto escuro do palco, fazendo cara de paisagem ou – por que não? – numa participação especial como defunto que não fala, não se mexe, não atrapalha ninguém. Felizmente, porém, tive a segunda surpresa positiva da semana, pois além de ele ter conquistado um dos três papéis mais significativos da peça (havia uns sete ou oito atores), teve uma atuação bastante convincente, sem refugar.

Isso por si só já teria valido a pena, mas a peça também ajudou. Refugo conta a história de um jovem ebúrneo que, após perder a família, vai parar num abrigo de jovens no Reino Unido. A polissemia explora a analogia entre refugiado e refugo (lixo, sobra), mostrando com certa delicadeza a questão humana por trás de jovens que podem ser tornar a “escória da humanidade” (curioso como quase sempre a ênfase desta expressão recai sobre escória e não sobre quem a produziu).

Ainda que o nome do teatro faça com que muitos esmiúcem a peça à procura de um tom panfletário, creio que há coisas mais importantes a encontrar. E quem for assistir, encontrará.

Se a peça fosse minha, obviamente algumas escolhas, algumas ênfases seriam diferentes. Isso, no entanto, em nada desmerece a peça. Se for para ir ao teatro e encontrar algo que eu já conheça, algo com que já estou intelectualmente habituado, ficaria em casa me olhando no espelho.

E você?

 

***

 

Informações e reservas: 8634-2385

Publicado em:  on 27 Maio, 2009 at 9:46 pm Deixe um comentário

Clarice ilhada

Clarice [sorrindo]:

Toc, toc.

 

Sócrates [levantando-se, com os braços abertos]:

Clarice!

 

Clarice:

Dr. Sócrates, tudo certo contigo?

 

 

(Cumprimentam-se)

 

 

Sócrates:

Tudo ótimo, minha amiga.

Mas, diga-me, o que a traz aqui?

 

Clarice:

As pernas e uma dúvida.

 

Sócrates:

Eu aprecio as dúvidas.

E também aprecio as pernas.

Afinal, elas trouxeram minha querida amiga para perto de mim.

 

Clarice:

Gentileza sua, Doutor.

 

Sócrates:

Ora, vamos!

Mas, diga lá: qual é seu problema?

 

Clarice:

Estou perdida, doutor.

Não sei para onde fica o norte.

 

Sócrates:

Ahn… Vejamos!

Se você sair por aquela porta,

desviar da multidão

e subir a rampa que dá na Vergueiro…

Basta virar à direita e perguntar para alguém.

 

Clarice:

Afe, Doutor!

Você sabe que não é disso que estou falando.

 

Sócrates:

Estou brincando, Clarice.

O norte fica em direção ao metrô Paraíso.

 

Clarice:

Doutor, deixemos a as coordenadas geográficas de lado.

Estou com um problema, esqueceu?

 

Sócrates:

Ok, Clarice, mostre-me, então, o que aconteceu.

 

Clarice:

Mês passado fui com minha família

a uma excursão no litoral do Rio de Janeiro.

Ali perto de Angra dos Reis, conhece?

 

Sócrates:

Sim, lá onde estão aquelas usinas nucleares.

 

Clarice:

Lá mesmo.

A lancha nos levou a uma ilha muito rústica.

 

Sócrates:

Rústica?

 

Clarice:

Isso, ela era bem simples.

Mas, apesar de não haver pousadas ou restaurantes,

gostei muito dela, peguei minha câmera fotográfica e fui atrás de belas fotos.

 

Sócrates:

E seus pais?

 

Clarice:

Meus pais? Ora, você não vai acreditar:

eles se esqueceram de passar repelente e nem sei onde estavam.

O que importa é que no meio daquela mata, eu pensei com meus botões…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nova cena:

Clarice dará as costas ao doutor Sócrates

para interagir com o Fauno.

Dr. Sócrates ficará meio de lado, na lateral do palco, fora da conversa.

 

 

Clarice:

Como que alguém poderia viver aqui?

Sequer consigo sinal para meu celular.

Seria impossível pedir uma pizza por telefone.

 

 

(Aparece o fauno, ele fica às costas de Clarice)

 

 

 

Fauno:

Pior, minha desconhecida, aqui nem tem pizzarias.

 

Clarice (Reparando no rabicó do Fauno):

Pois é. Não tem Lan House ou Playstation 3.

 

Fauno:

Pior, minha desconhecida, aqui nem tem energia elétrica.

 

Clarice (ficando triste):

Não tem quadra de esportes ou shopping…

 

Fauno (rebolando o rabinho):

Pior, nem tem gente.

 

Clarice:

Meu senhor, que bicho és tu?

 

Fauno:

Sou um fauno, meio bicho, meio humano,

sou um defensor dos bosques e das florestas.

 

Clarice:

Como o senhor faz quando tem fome?

 

Fauno:

Gosto de frutas e raízes.

Água fresca e ervas.

 

Clarice:

Ervas?

 

Fauno:

Manjericão, manjerona, cebolinha e alecrim.

Limões, alhos e tomilhos temperam meus tomates.

E você, já ouviu falar dessas coisas?

 

Clarice:

Claro que sim!

Só porque eu sou da cidade,

você pensa que eu só como porcarias?

 

Fauno:

Não foi isso que eu quis dizer…

 

Clarice:

No supermercado perto de casa tem um grande departamento de enlatados.

E lá o molho de tomate já vem com esses matos de que você falou.

 

Fauno:

Certo. Então você sabe me dizer que planta é essa?

 

Clarice:

São, são, são… que planta mais bonitinha…

 

Fauno:

Cara desconhecida, não tente me enrolar.

 

Clarice:

Já sei! Eu vi uma foto disso na internet.

É um tomilho!

 

Fauno:

Você já experimentou?

 

Clarice:

Não, nunca o vi antes,

mas eu sei o que é.

 

Fauno:

Sabe nada, minha amiga.

Clarice:

Claro que sei.

Eu até o reconheci.

 

Fauno:

Saber, minha cara,

saber é conhecer o sabor.

 

Clarice:

Como assim?

 

Fauno:

Ora, até parece que você não estuda etimologia.

Etimologicamente, a palavra SABER vem de SABOR.

Saber é conhecer o sabor.

 

Clarice:

Como você sabe essas coisas?

 

Fauno:

Um sujeito meio estranho, passeando pela ilha,

deixou cair um dicionário de Latim.

 

Clarice:

Acho que conheço esse maluco.

 

Fauno:

Mas não importa. Voltemos ao tomilho.

Pegue, sinta o cheiro.

 

Clarice:

Hum… gostoso.

 

Fauno:

Descreva melhor.

 

Clarice:

Estranho.

Esse matinho tem um cheiro cítrico.

 

Fauno:

É o tomilho limão.

 

Clarice:

Faz sentido.

Diga-me, seu Fauno, que mais de bom temos por aqui?

 

 

Fauno:

Eu plantei cenouras aqui no chão.

 

Clarice:

Cadê?

 

Fauno:

Acho que algum bicho comeu.

 

Clarice:

Um coelhinho? Que lindo!

Eu quero ver o coelhinho!

 

Fauno:

Talvez tenha sido um rato…

 

Clarice:

Credo!

Rato eu não quero ver.

 

Fauno:

Está com sede?

 

Clarice:

Sim! Eu quero água de coco!

 

Fauno:

Água de coco não tem.

 

Clarice:

O que eu vou beber, então?

 

Fauno:

Água da chuva, ora…

 

Clarice:

Ai!

E quando não chove, o que você faz?

 

Fauno:

Saiba, minha amiga, é possível absorver o líqüido das plantas.

Que nem se faz com cactos.

 

 

Clarice:

Aqui tem cacto?

 

Fauno:

Não.

Mas temos chuchu.

 

Clarice:

Não gosto muito de chuchu.

 

Fauno:

Hum…

Suco de chuchu, ô coisa boa…

 

Clarice:

Como você faz para comer carne?

 

Fauno:

Não como; dá muito trabalho caçar algum bicho.

 

Clarice:

Isso não faz mal para sua saúde?

 

Fauno:

Como saber? Aqui não tem médicos.

 

Clarice:

E se você ficar doente?

 

Fauno:

Minha avó conhecia bem o uso medicinal das plantas.

Mas eu não; sou uma negação nesse assunto.

 

Clarice [tocando-se desesperadamente]:

Acho que estou com uma dor não sei onde.

 

Fauno:

Sinto muito, não sei resolver.

 

Clarice [voltando-se para o Doutor Sócrates]:

E você, doutor, conhece alguma planta que me ajude?

 

Doutor Sócrates:

Só sei que nada sei.

 

 

Clarice:

Amigo Fauno, quem são seus amigos?

 

Fauno:

Olha, tem a Josicleide.

 

Clarice:

Jô o quê?

 

Fauno:

JO-SI-CLEI-DE!

 

Clarice:

Ela é bonita e simpática?

 

Fauno:

Que nada!

Ela é uma cabra da peste.

 

Clarice:

Por quê?

 

Fauno:

Ô mulher chata aquela. Vivia me dando ordens.

Bódin, recolha madeira!

Bódin, cave uma fossa!

Bódin, construa uma casa!

Bódin, plante umas árvores!…

 

Clarice:

Seu nome é Bódin?

 

Fauno:

Bódin é diminutivo de Bode;

como se fosse “bodinho”.

 

Clarice:

Que meigo.

 

Fauno:

Não me venha com essa.

 

Clarice:

E além dela? Você conhece mais alguém?

 

Fauno:

Tem o João Carneiro.

 

Clarice:

Como ele é?

 

 

Fauno:

Um lobo. Um lobo em pele de…

 

Clarice:

Ele fez alguma coisa de errado contigo?

Ele roubou a sua namorada?

 

Fauno:

Pior do que isso.

Eles nem se conhecem.

A vida aqui é muito solitária.

 

Clarice:

O que ele fez de ruim, então?

 

Fauno:

Ele construiu – não sei como – sua casinha,

com teto, parede, fossa e muro.

Mas não deixa ninguém visitá-lo.

 

Clarice:

Aqui também acontecem essas coisas?

 

Fauno:

Do que você está falando?

 

Clarice:

Nos filmes é diferente.

 

Dr. Sócrates:

Pois é, Clarice.

 

 

(Perceba que aqui haverá uma intersecção de ambientes:

ao mesmo tempo em que o Fauno tenta falar com Clarice; ela começa a se voltar para o Dr. Sócrates.)

 

 

 

Fauno:

Clarice, volte a conversar comigo!

 

Clarice:

Aquela ilha deixou de ser atraente.

 

Fauno [gritando fraquinho, em gradação descendente]:

Clarice!

Não se esqueça de mim!

 

Sócrates:

E agora, José?

 

Clarice:

Quando voltei para a cidade…

O senhor sabe o que eu fiz?

 

Sócrates:

Foi ao supermercado?

 

Clarice:

Não.

 

Sócrates:

Ao shopping?

 

Clarice:

Não.

 

Sócrates:

Acessou a internet?

 

Clarice:

Não.

 

Sócrates:

Foi ao banheiro.

 

Clarice:

Hum… Não.

 

Sócrates:

O que você fez?

 

Clarice:

Fiquei na praça da Sé observando as pessoas.

 

Sócrates:

Por quê?

 

Clarice:

Percebi que, quase todo dia, eu sempre passava por muitas pessoas.

No metrô, nas avenidas, nos shoppings…

Pernas e calças indo de um lado para o outro.

Mas, dessa vez, foi diferente.

Eu olhei o rosto das pessoas, mirei fundo nos seus olhos.

 

Sócrates:

E o que você viu?

 

Clarice:

É como se elas estivessem hipnotizadas.

Andam sem saber por que estão andando.

Correm sem saber por que estão correndo.

 

Sócrates:

O problema seria a pressa?

 

Clarice:

Não é tão simples assim.

Também há aqueles que esperam sem saber por que estão esperando,

Os que pensam na vida sem saber por que estão pensando…

 

Sócrates:

E os que conversam com o analista sem saber por que estão conversando?

 

Clarice:

O senhor acertou em cheio, doutor.

O problema é esse.

Muita vez a gente se acomoda com as coisas.

 

Sócrates:

Isso é ruim.

 

Clarice:

Mas também de nada vale ficar desanimado.

 

Sócrates:

Ficar desanimado é ficar sem ânimo.

Em latim, anima quer dizer alma, espírito.

 

 

Clarice:

Você também doutor?

 

Sócrates:

Pois é, foi um sujeito meio estranho

que sempre aparece por aqui que me contou essa.

 

Clarice:

Mas voltemos ao assunto, doutor.

 

Sócrates:

Qual é o seu problema, Clarice?

 

Clarice:

A vida na cidade é cheia de defeitos.

 

Sócrates:

Poluição, barulho, aglomeração…

 

Clarice:

Mas acho que simplesmente destruir tudo,

viver no meio do mato…

Isso não resolve.

 

Sócrates:

Por quê?

 

 

A intersecção final:

os três personagens [Clarice, Sócrates e o Fauno] vão falar de frente para a platéia.

Eles formarão uma pequena fila [um ator ficará atrás do outro, alternando-se conforme a fala].

A idéia é passar ao público a sensação de que os três são na verdade uma só pessoa [a consciência da Clarice].

 

 

Fauno:

A vida selvagem não é nenhum paraíso.

 

Clarice:

E a cidade também tem coisas boas.

 

Sócrates:

É possível ter uma vida perfeita?

 

Fauno:

Talvez eu consiga uma casa igual à do João Carneiro.

 

Clarice:

Mas isso me isolaria das outras pessoas.

 

Sócrates:

É possível ter uma vida perfeita?

 

Fauno:

Na cidade, eu teria mais proteção.

 

Clarice:

No campo, minha vida seria mais saudável.

 

Sócrates:

É possível ter uma vida perfeita?

 

Fauno:

No meio do mato, eu tenho medo das feras.

 

Clarice:

A cidade também possui suas feras.

 

Sócrates:

O que seria uma vida perfeita?

 

Fauno:

Eu preciso da civilização.

 

Clarice:

Eu preciso da natureza.

 

Sócrates:

O que seria uma vida perfeita?

 

Fauno:

Eu preciso de amigos.

 

Clarice:

Eu preciso de privacidade.

 

Sócrates:

O que seria uma vida perfeita?

 

 

Agora os personagens, formando um triângulo, encaram-se.

 

Sócrates

Clarice                                                  Fauno

 

 

A fala deve ser alta (audível) e bem pronunciada.

 

 

Fauno:

Etimologicamente

 

Clarice:

perfeito é o que já está feito.

 

Fauno:

Etimologicamente

 

Clarice:

perfeito é o que já está pronto.

 

Fauno:

Etimologicamente, portanto,

 

Clarice:

perfeito é o que não evolui.

 

Todos (olhando de frente a platéia):

Felizmente e infelizmente

o mundo não é perfeito.

 

FIM

Publicado em:  on 27 Setembro, 2008 at 9:25 am Deixe um comentário

Um Teatro de Idéias

Entrevista com Oswaldo Mendes, realizada em 27 de Junho de 2006

Oswaldo Mendes: ator, diretor e autor de teatro. Foi também jornalista profissional de 1969 a 1992. Autor de Ademar Guerra: O teatro de um homem só (Editora Senac), indicado em 1997 para o prêmio Shell, e de Teatro e Circunstância (Editora Núcleo ), reunindo três peças: “Um tiro no coração” (1984), “Voltaire – Deus me livre e guarde” (1998) e “A dança do universo” (2005), além do esboço de um estudo sobre o teatro da era científica proposto por Brecht.
Integra desde 2001 o grupo Arte Ciência no Palco, com o qual atuou nas peças
Copenhagen, E agora, sr. Feynman?, Quebrando códigos, Perdida – Uma comédia quântica e A dança do universo, de que fiz uma resenha tempos atrás.
Mantenha-se atualizado visitando o site
www.arteciencianopalco.com.br

 

Pela qualidade da sua peça, seria ofensivo chamar seu trabalho de teatro de massa. Por outro lado, imagino que sempre há uma ambição de conseguir falar aos mais diferentes públicos. Faço-lhe, então, duas perguntas: Quais são os públicos mais díspares que A Dança do Universo cativou? E quais foram as respostas mais marcantes que você recebeu do público por esta peça?

 

Curiosamente, as melhores respostas à peça vêm de pessoas que não são do chamado meio teatral. Às vezes uma peça é reverenciada por atores e gente de teatro e o público não se interessa. Com A Dança foi o inverso, embora as críticas tambem tenham sido boas. Mas pessoas amigas de teatro a quem mostrei o texto antes, não davam um tostão furado pela Dança (algumas se surpreenderam depois com o espetáculo, outras se calaram). Eu sei que não é uma peça convencional em sua estrutura, embora não haja originalidade alguma em termos de dramaturgia, mas no teatro também há forte resistência a tudo que nao esteja dentro dos cânones, até dos aristotélicos, apesar de muitos já terem sido questionados. Quanto ao público, ele sai feliz do espetáculo. No caso de estudantes, a reação mais significativa e que mais ouvi é no sentido da descoberta da dimensão humana dos “gênios” colocados em cena. Embora os conceitos científicos estejam ali colocados – na cena de Newton, por exemplo, estão ali todas as leis da sua mecânica -, esses conceitos “passam” literalmente “através” da personagem, sem qualquer didatismo. E isso é o que mais atrai as pessoas. 

 

Lembro-me de que quando vi A Dança do Universo, logo na cena 2 (“O embate entre a ignorância e o conhecimento”), eu a associei de imediato às polêmicas entre evolucionistas e criacionistas, que o biólogo Richard Dawkins trata, por exemplo, em O Capelão do Diabo. Mas não. Eram Lucrécio e Santo Agostinho que travavam um debate anacrônico e atual. O que faz desses textos tão atuais?

O teatro. É a linguagem do teatro que lhes garante contemporaneidade. Digo sempre que o teatro é a circunstância de quem o faz e de quem o vê. E nada mais. Por isso, embora efêmero, volátil, o teatro “atualiza” questões que parecem “mortas”. Por isso parecem tão atuais textos de Sófocles, Shakespeare, Molière ou Lucrécio e Santo Agostinho.

 

Um amigo meu com quem troquei umas idéias sobre a peça reclamou que, na cena 4 (“Elogio a um físico”), Schenberg faz uma defesa extremista ao uso da intuição. Não concordei com ele. Lembrei que o mesmo Schenberg diz: “não repitam nossos erros. Recolham no passado as lições necessárias”. Lembrei ainda que na cena 8 (“Arte e ciência: um experimento”) Einstein defende que só com imaginação, mas sem conhecimento, o indivíduo perderia seu tempo formulando mal suas idéias. Podemos vislumbrar na sua peça uma combinação de tradição e inovação? De que modo?

Creio que você respondeu por mim. Sempre me intrigou a insistência com que a frase de Einstein é citada: “a intuição é mais importante que o conhecimento”. Isto é verdade, em termos. Não acredito só em intuição, porque não acredito que nenhuma mediunidade (e  não estou falando de religião apenas) leve à inovação e à ruptura. Aceitar a intuição como panacéia é negar a tradição, que eu uso aqui no sentido de conhecimento acumulado pelo Homem ao longo da sua história sobre a Terra. A inovação só pode surgir do passo que se dá à frente da tradição. Como ouvi uma vez de uma amiga do teatro, é importante saber o que já se fez, o que já se caminhou, senão um médico ou pesquisador podem se dedicar a descobrir a penicilina, sem saber que já foi descoberta. A tradição existe como alicerce de um pensamento novo e até mesmo de uma ruptura com possíveis “verdades” herdadas do passado.

 

Conheço diversas pessoas que não gostam “muito” de Física, mas adoraram a peça. Ficaram até mesmo com vontade de entender melhor o motivo da raiva do Newton para com o Leibniz, de assistir a Tempos Modernos e, em certos casos, até mesmo de de entender um pouco a Teoria da Relatividade. Atrair o público para o mundo do conhecimento, esse é um dos papéis da peça? Aliás, uma pergunta mais ousada: esse é o papel do teatro?

O papel do teatro é discutir o homem até às últimas conseqüências, como dizia Plínio Marcos, ou servir de espelho para o homem, como queria Shakespeare. E na sociedade do espetáculo em que vivemos, nessa “febre midiática”, o teatro deixará de ser entretenimento para ser instrumento de reflexão e, se quiser, de conhecimento, sem abdicar da sua natureza lúdica. Como queria Breckett, bons serão os tempos em que o teatro for supérfluo, no sentido de que, resolvidas as questões do cotidiano opressor, as pessoas puderem se entregar ao prazer de falar, pensar, rir e se emocionar consigo mesmas através do teatro. Claro, dependendo do tema e das personagens que são colocadas em cena é possível atiçar o interesse pelas questões que os envolvem (ao tema e às personagens) – no nosso caso, a ciência e todos os seus entornos.

 

Quando eu fui assistir a A dança do Universo, disseram-me que era uma peça sobre Física. Como eu sempre fora um razoável estudante de exatas, acreditei que conseguiria me divertir bastante relembrando umas coisas e conhecendo outras. Mas hoje sou professor de Português, trabalho com redações (ou seja, com elaborações de idéias) e creio que foi esta parte de mim que saiu ganhando mais. Talvez seja um equívoco, mas eu arrisco dizer que A Dança do Universo não é apenas uma peça sobre Física, mas uma peça sobre Idéias. O que você acha?

Mais uma vez você respondeu por mim. Também não sou físico, me considero apenas e humildemente um homem de teatro. Sempre fui melhor aluno de Português, e das chamadas “humanas”, do que de ciência (como se essas  não fossem “humanas”). Mas eu me pergunto se, mais do que com fórmulas e números, um cientista não trabalha basicamente com Idéias. Pelo menos com gênios como Newton e Einstein foi assim.

 

Oswaldo, você recusou certa vez, numa entrevista, o rótulo de “divulgador científico”. Assisti às duas peças mais recentes de que você participou (A Dança do Universo e Oxigênio). A impressão que eu tive, principalmente quanto à primeira, é de que mais do que pensar em termos especificamente científicos, essas peças nos fazem pensar em termos humanos. Em questões humanas, de uma atualidade que dura centenas de anos. Como você gostaria que A Dança do Universo fosse lembrada por aqueles que a ela assistiram?

 

Não é que eu recuse reconhecer que o trabalho do grupo Arte Ciência no Palco presta algum serviço à divulgação científica. É que eu pretendo que me vejam, e ao meu trabalho (no caso, de ator e de autor), como um homem de teatro. Fico feliz quando as pessoas me dizem que A dança do universo despertou o interesse por este ou aquele aspecto da ciência e da sua história. Mas fico mais feliz quando me dizem que isso se deu porque elas se emocionaram, se divertiram com aquilo que lhes foi mostrado em cena. Quando uma pessoa me diz que a cena de Chaplin e Einstein a fez chorar (e eu ouvi muito isso), sei que consegui meu objetivo. Qual seja, emocionar. E como eu suponho que essa emoção tenha brotado das palavras, das idéias, de Chaplin e Einstein (porque eles nao fazem  mais que conversar), sou levado a acreditar que as pessoas deixarão o teatro de alguma forma modificadas ou provocadas por aquilo que viram. E nesse momento eu sei que o teatro não foi em vão.