Não seja

 Certa vez, uma amiga publicitária conseguiu convencer-me da importância social da propaganda, afinal – segundo ela – é importante que as empresas possam dialogar direta e indiretamente com o consumidor. Exemplo do primeiro modo são as fotos com que o Ministério da Saúde estampa embalagens de cigarros; exemplo do segundo são aquelas imagens de viris cowboys fumando na fazenda, a qual aliás pode até não transmitir uma ideia sincera, mas que deixa um ar de poesia no ar, ah isso deixa.

 Mês passado, estava eu perto do metrô Vila Madalena, quando me deparei com uma interessante propaganda da revista Veja.

 

 A maior parte dos meus amigos acha que essa revista serve apenas para higiene pessoal, outros são menos benevolentes. Já eu assumo que leio com gosto o André Petry e o Roberto Pompeu de Toledo. O que achamos da revista, no entanto, não interessa. O intuito desse texto é analisar a dita propaganda.

 A revista em questão lançou uma série de frases imperativas que cheiram a autoajuda: Seja ético, seja indispensável etc. Há sim um tom de pieguice que os de boa memória não demoram a associar a um pretencioso e improvável manual de ética. Isso, porém, também pouco importa. O que os leitores ou não leitores pensam da revista não vem ao caso; a falta de decoro ou bom gosto em suas formas de propaganda, idem. O que convém observar é a frase em questão:

SEJA CONECTADO é um misto de imperativo com voz passiva, equivalente a ”Deixe alguém conectar você”. Sendo a frase em questão propaganda oficial da revista em questão, não é exagero pensar que o agente conectante seja a própria revista. Poderíamos então alterar o slogan para “deixe-nos conectá-lo”.

 Uma revista que assume o papel de manipuladora, sem dúvida alguma, merece elogios tanto pela coragem quanto pela cara de pau.

 P.S.: um amigo meu, defensor da revista, argumenta: “Não há nada de mal em a revista conectar o leitor ao saber, por exemplo”. Talvez, mas em todo caso, continuo achando que o indivíduo tem de ser independente a ponto de ele mesmo, ativamente, estabelecer suas conexões. Mas, enfim, quem quiser ser conectado… que seja.

 

Publicado em:  on 23 Novembro, 2009 at 5:14 pm Comentários (5)
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Cultivando o pensar

E a virtude? – pergunta-se Sócrates. O tutor pode ensiná-la a seu discípulo ou seu papel consiste apenas em estimular a virtude que seus pupilos já possuem? Valendo-me dos mesmos operadores lógicos, mas focalizando outro objeto de ainda maior importância, pergunto-me: E o pensar? Alguém pode ensinar outra pessoa a pensar ou se trata de algo a ser estimulado?

Antes de irmos diretamente a uma síntese, e para que esta não seja apressada e superficial, vale a pena analisarmos ambas as hipóteses.

O educador que pretende ensinar seu aluno a pensar, indubitavelmente, corre o risco de apenas transmitir-lhe conceitos, pressupostos e ideologias que lhe servirão de cabresto e guia, sem nunca traduzirem-se, de fato, em ferramentas para uma desejável independência. No entanto, também temos de reconhecer a importância da elucidação de conceitos, pressupostos e ideologias para uma correta compreensão das ideias e seus contextos.

Na teoria é fácil, bastaria explicitar, por exemplo, numa aula sobre Luís Vaz de Camões, o contexto histórico em que ele viveu, o meio social que ele frequentou, as correntes filosóficas e estéticas de seu tempo… mas nada disso, porém, serve para identificar a identidade do poeta. O que o distingue daqueles de seu tempo não se mede numa análise genérica do grupo, mas sim pela leitura atenta do que o poeta escreveu. Sim, de fato, mas não podemos nos esquecer de que todo homem é produto de seu meio… São inúmeros os modos de se analisar um poeta. O educador está preparado para escolher e indicar o melhor modo analítico?

Por outro lado, muitas vezes acredita-se estar estimulando o pensamento alheio, valorizando-lhe o senso crítico e a independência, quando na verdade o professor apenas abandona as rédeas da situação, deixando o desenvolvimento intelectual do aluno ao deus-dará, como se toda tentativa de elucidação fosse, automaticamente, um modo de coibir a autonomia. Não tenho dúvida alguma de que essa postura tende a ser mais maléfica do que a retratada nos dois parágrafos anteriores.

Hannah Arendt, se não me engano, foi quem melhor analisou o perigo de hipervalorizarmos o novo. O perigo de darmos aos jovens imaturos e despreparados, o poder de decidir o que fazer com a cultura – como se essa grande construção coletiva pudesse ser jogada ao lixo sem mais nem menos.

Como todo educador sabe ou deveria saber, seu trabalho se resume numa palavra: desafios. Encontrar um meio não de transmitir cultura, mas de ensinar como cultivá-la, com todo amor, paixão e dor que a empreitada exige. Encontrar um meio de, sem ser benevolente, valorizar e estimular os achados, as sacadas intelectuais do aluno. Ou, mais do que tudo, o educador deve se ver – ele também – como um estudante em busca do conhecimento. Só assim, enfrentando as dificuldades que o crescimento intelectual nos impõe, gozando os prazeres das metas atingidas e ultrapassadas, o educador estará preparado para compartilhar essa grande dádiva – ou melhor: conquista – que é o pensar.

 

Publicado em:  on 6 Outubro, 2009 at 12:55 am Comentários (8)

Nunca contentar-se

 

A contenção, o autoconhecimento, a humildade, eis os pilares em que o indivíduo deve se apoiar em busca de proteção e segurança. A contenção nos ensina a segurar o ímpeto, a respirar fundo antes de qualquer ação precipitada. Esse intervalo de tempo, essa lacuna entre o desejo e a decisão, permite ao indivíduo uma melhor aferição de si, de suas forças, de seu poder. A conclusão lógica desse processo é a compreensão daquilo que está a nosso alcance; saber até onde a mão vai é essencial para evitarmos esforços vãos. Conhecer a si próprio é conhecer seus próprios limites.

Nem todo indivíduo, porém, aprecia a vida em cativeiro. A domesticação não lhes cai bem. Excesso de proteção, eles percebem, é igual a medo em demasia. O melhor autoconhecimento é aquele que se reconhece insuficiente para delimitar o que pode ou não pode o indivíduo. A contenção, analisada dessa forma, é a renúncia à investigação dos nossos poderes, é o descaso com aquilo que vulgarmente chamamos de potencial. Rebaixar-se, aceitar passivamente as conquistas do passado, sem nelas enxergar um estímulo a novos desafios, é desrespeitar o jovem ambicioso que já fomos um dia. A pretensão, por si só, não é um defeito. Pelo contrário, pretender um futuro melhor, sonhar com mudanças que engrandeçam o indivíduo é, ou deveria ser, pré-requisito para que continuemos vivos. Por isso mesmo incomoda saber que muitos confundem ambição com inveja. Enquanto esta se caracteriza por uma postura complacente (invejoso é quem vê, com maus olhos, o mérito alheio), aquela prima por um comportamento ativo (ambicioso é aquele que não teme encarar novos caminhos). Dentro de um contexto que procura domesticar o indivíduo, mais do que nunca é importante relembrar a famosa máxima latina: errar, aventurar-se por caminhos desconhecidos, é sem dúvida alguma humano.

Publicado em:  on 26 Setembro, 2009 at 8:17 pm Comentários (2)

Revisitações idealizadas

[exercício redacional: dissertação básica]

A casa dos avôs, o pátio da escola, as festas com a família, até mesmo o gosto das frutas parecia diferente. Conforme se folheiam as fotos do velho álbum, diversas lembranças vão sendo retomadas – reconstruídas? – na memória. Poucas são as pessoas que não sentem falta da infância. Isso, porém, talvez não seja resultado da vivência de épocas deslumbrantes, mas sim do contrário.

O presente, só este ínfimo e fugaz espaço de tempo, nos pertence. O resto é abstração, é aquilo que já nos pertenceu ou que irá talvez nos pertencer. Em todo caso, no presente do indicativo de nossa vida, só temos mesmo esse instante, e é a ele que devemos devotar nossas preocupações e empenho.

Muitos indivíduos, porém, parecem viver no passado. A distância temporal parece fazer com que eles não mais percebam nitidamente que aquela época também tinha seus desagrados. Mas o pior de tudo é saber que, por melhor que ela tenha sido, ela já foi, não existe mais. Se o indivíduo quiser retomar aqueles prazeres, se quiser reviver aquelas situações, é imperativo que ele volte a focar seus interesses no presente. Só assim, e não esperando um milagre divino, ele poderá viver o tempo que de fato ele possui.

É verdade que as abstrações são importantes, que a memória deve ser preservada. No entanto, o que não pode acontecer é um fetiche pleno das lembranças. No final da vida, provavelmente, elas serão nosso bem mais precioso, mas até lá o melhor a fazer é garantir que nossas boas recordações não venham apenas de um pequeno intervalo de nossa vida.

Idealizações e ideais

“Meus jovens alemães, após um ano, tenho a oportunidade de dar-lhes as boas vindas. Aqueles que estão aqui no estádio são um pequeno seguimento da massa que está lá fora por toda a Alemanha. Desejamos que vocês, rapazes alemães e garotas, absorvam tudo que nós esperamos da Alemanha para um novo tempo. Queremos ser uma nação unida, e vocês, meus jovens, formarão esta nação. No futuro não desejamos ver classes, e vocês precisam impedir que isso apareça entre vocês. É apenas um seguimento das massas. E vocês precisam se educar para tal. Queremos que estas pessoas sejam obedientes, e vocês devem praticar a obediência. Desejamos que as pessoas almejem a paz, mas que também sejam corajosos. E vocês alcançarão a paz. Vocês precisam almejar a paz e serem corajosos ao mesmo tempo. Não queremos que esta nação seja fraca; ela deve ser forte, e vocês precisam se endurecer enquanto são jovens. Vocês precisam aprender a aceitar privações sem nunca esmorecer. Não importa o que criemos e façamos, nós passaremos, mas em vocês a Alemanha viverá. E quando nada restar de nós, vocês levarão o pavilhão, que há algum tempo nós levantamos do nada. E sabem que não pode ser de qualquer outro modo, como estarmos juntos de nós mesmos. Porque vocês são carne de nossa carne, sangue de nosso sangue! E suas mentes jovens estão repletas do mesmo ideal que nos orienta. Vocês estão unidos a nós, enquanto as grandes colunas do movimento marcharem pela Alemanha vitoriosa, sei que vocês se juntarão às colunas. E nós sabemos que a Alemanha está diante, dentro e atrás de nós. A Alemanha marcha dentro de nós, A Alemanha segue atrás de nós!” Discurso de Adolf Hitler aos jovens alemães in O Triunfo da Vontade

Muitos jovens admiram Adolf Hitler (“Há criaturas que chegam aos cinquenta sem nunca passar dos quinze”- Machado de Assis) por se deixarem seduzir pela sua forte retórica. É o mesmo que gostar de ser enganado. Ou talvez seja pior do que isso. A quem possuir forte identificação de princípios com o líder nazista, este texto de nada valerá, parecerá propaganda barata. Não é a eles que dirijo minha palavra. O que me interessa aqui é analisar estruturalmente a política de trocas que Hitler propõe a seus ouvintes, identificando um perigoso e recorrente artifício que ainda hoje busca aliciar mentes ingênuas.

Num filme a que assisti nesta semana, o professor de Ciências Políticas pergunta a seus alunos qual seria a premissa histórica para um governo ditatorial. Com bastante pertinência, alguém responde “Alto desemprego e injustiça social”, mas também seria possível responder de modo mais sintético: forte insatisfação com a realidade.

Hitler sabia disso. Não por acaso ele faz referência a um novo tempo, a uma nova Alemanha que possa satisfazer os desejos do povo. Quem leu A revolução dos bichos sabe que os sonhos que alimentaram a revolução muitas vezes não passam disso: sonhos. Em nome de uma pretensa liberdade, o indivíduo vai se aprisionando cada vez mais.

Hitler sabia disso. Ele promete uma nação unida, sem classes, mas pede em troca obediência plena. Só com muito esforço seremos capazes de não perceber a incoerência: obedecer a quem, cara-pálida? Assim como no livro de George Orwell, aqueles que prometem a igualdade são os primeiros a exigir privilégios. Não raro conceitos abstratos são manipulados a ponto de significarem seu próprio antônimo: Os porquinhos constroem uma muralha a fim de dar mais liberdade [sic] aos animais; Hitler oferece uma nação sem diferenças, mas com privações [sic again]. Em nome de um ideal, o povo se rende a idealizações.

Hitler sabia disso. Habilidosamente, ele engendra sua “arquitetura da destruição” (nome do magnífico filme de Peter Cohen) de modo a seus fãs perceberem apenas a primeira palavra da expressão. Em nome de um ideal, de um princípio, do sonho de uma vida melhor, o indivíduo abre mão do seu caráter, da sua consciência, da sua própria individualidade. Essa troca vale a pena? Já tratei da anulação do indivíduo em nome do coletivo quando comentei a primeira versão do filme A onda, o qual ganhou nova versão – da qual também pretendo falar. Continuo achando que as imagens podem ser perigosos cativeiros.

Encarar a realidade não é fácil. Muitos querem líderes que lhe apontem o caminho. O melhor exemplo que me vem à mente é o do professor John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos. Por melhores que tenham sido suas intenções, ele soube – etimologicamente – cativar seus alunos, dando-lhes uma sensação de liberdade. Os jovens, que deveriam aprender a importância da dúvida, acreditavam religiosamente nos dogmas de seu professor. O discurso idealizante se aproveita daquilo que todo homem maduro deveria saber: a vida não é perfeita, a vida muitas vezes é angustiante, a vida não deveria ser assim.

 Nenhum homem decente se considera plenamente satisfeito. Não há mal algum em reconhecer nossos problemas, muito pelo contrário. Daí, das nossas insatisfações, surgem os preciosos ideais, que nada mais são do que o estímulo de que precisamos para construir um futuro melhor. As idealizações, por sua vez, são a falsificação das possibilidades, são o desmerecimento ao senso crítico do interlocutor; são a malícia transformada em palavras. As palavras seduzem. As palavras alimentam sonhos; sonhos de que ela própria se alimenta. Não vale a pena saciar a fome à custa de nossa própria carne. Há quem diga, fazendo referência a Hitler, que precisamos de um líder como ele. Mas não. Ensinamento por ensinamento, este, de Oscar Wilde, enfatiza melhor a responsabilidade que temos sobre nosso próprio destino: “O indivíduo que não pensa por si próprio, na verdade, não pensa”.             

Mulheres…

Numa das cenas mais famosas do cinema, o vento do metrô levanta o vestido de Marilyn Monroe, expondo-lhe as coxas (O pecado mora ao lado / The Seven Year Itch). Há quem veja delicadeza e sensualidade nesta cena, mas eu vejo apenas uma ancestral da feminilidade carlaperiana. Dizem que os papéis levantados pelo vento que se aproxima do vestido branco fazem a cabeça imaginar aquilo que tanto se quer ver (Caso alguém de fato queira ver o que se esconde, clique aqui), mas a mim – sujeito de pouca imaginação – a cena sugere apenas que ela está com – pardon – fogo no rabo. Não somente a mim, aliás. Veja só o que a cena inspirou três décadas após o original.

Marilyn é um mito. Deve ter seus ardorosos fãs que a consideram a mais perfeita personificação do mais perfeito afrodisíaco. Já eu acho que a mais perfeita imagem de Marilyn se dá neste mesmo filme de Billy Wilder quando ela, numa das cenas mais brochantes que jamais se poderia imaginar, molha batata chips na taça de champagne.

Deve ter sido maldade do diretor. Na cena final de Se meu apartamento falasse (The apartment) a personagem interpretada por Shirley MacLaine se mostra muito mais sedutora ao tirar o casaco, expondo melhor seu belo sorriso a Jack Lemmon.

Publicado em:  on 23 Julho, 2009 at 2:59 pm Comentários (1)

Meus haiquases

Ainda que morrendo
O canto das cigarras
Nada revela
.
Matsuó Bashô
(tradução de Olga Savary)

O homem médio só sabe falar dele mesmo. Foi mais ou menos isso que eu li dia desses em Memórias do Subsolo, de Fiodor Dostoiéviski. Quando otimista, como agora, consigo me considerar um homem médio, e como não sei falar de mais nada a não ser de mim, resolvi aproveitar a deixa para analisar alguns textos meus.

Há dois gêneros literários pelos quais venho me interessando ultimamente. O primeiro deles é o aforismo, a frase curta, de efeito, que consegue sintetizar um determinado raciocínio. Nos textos machadianos, por exemplo, podemos encontrar diversas frases curtas que seriam ótimos aforismos: “Há criaturas que chegam aos cinqüenta sem nunca passar dos quinze” (A Mão e a Luva), o qual poderíamos comparar com “A juventude é ótima, pena que seja desperdiçada com os jovens”, de Bernard Shaw. Cada uma delas, do seu jeito, a seu modo, repelem as idealizações tão costumeiras que se faz, respectivamente, à velhice e à juventude. O leitor, então, é convidado a refletir e, quiçá, a contestar as máximas que não raro se nos são oferecidas dia após dia.

A contraposição de ideias, aliás, é uma boa ferramenta para a construção do aforismo. Afinal, este, por se opor ao conservadorismo preguiçoso das frases feitas que são repetidas à exaustão, quando bem feito, busca justamente estimular o raciocínio, balançando nossos conceitos, fomentando o pensar. Desse modo, já que os livros de auto-ajuda enfatizam tanto o planejamento, o futuro, me senti estimulado a criar um aforismo que questionasse essa perspectiva: Não hipervalorize o futuro; quando chegar, ele não durará mais do que um instante. Talvez haja quem veja no meu aforismo uma paráfrase do famoso Carpe diem quam minimum credula postero, mas – insisto – ao optar pela litote evitei o tom afirmativo e categórico que daria ao aforismo tons de máxima. Daniel Piza, na introdução de seu livro sobre o assunto, sintetizou bem a questão: “Os melhores aforismos [...] são os que usam verbos como ‘ser’ e formas como o imperativo de uma forma relativista, não com a pretensão de criar juízos definitivos sobre o comportamento humano”.

O segundo gênero a que me referi é o haikai, o poema curto de origem japonesa, onde muitas vezes encontramos uma falsa simplicidade sintetizando belezas ímpares. Aqui no Brasil, diversos autores o cultivaram, desde Guilherme de Almeida (o qual aprisionou o poema japonês em rígidas formas parnasianas) a Paulo Leminski, passando por Millôr Fernandes, do qual retiro este belo exemplar que, coincidentemente ou não, tem muito a ver com o aforismo que deixei lá em cima:

A vida é um saque
Que se faz no espaço
Entre o tic e o tac.

Quando li esse haikai, a primeira coisa que me veio à cabeça foi uma bonita música do Vitor Ramil em que o cancionista consegue fazer melhor que  Millôr, pois transmitiu a ideia tanto pelas palavras quanto pelo malabarismo fonético com que intercalou aliterações oclusivas e assonâncias deslizantes.

Bem, voltando agora à mediocridade daquele que só sabe falar de si mesmo, vou analisar alguns de meus textos recentes. Nada direi sobre os cinco aforismos que escrevi tempos atrás, considero-os crescidinhos o suficiente para que se defendam sozinhos. Falarei então dos meus haikais, aliás, haiquases, visto que faltando-me habilidade para criar algo decente, optei por mesclar (assim ingenuamente creio) a sutileza do epigrama japonês com o tom incisivo da frase curta que os gregos nos legaram. (Não vá embora, leitor. Aforismos e haikais são textos curtos, daqueles que a gente lê sem perceber. Quando acabar, você nem perceberá o tempo que perdeu).

Fim de tarde
A borboleta repousa
                                            no sino
O padre atrasa o sermão.

O primeiro verso faz referência às 18 horas, momento em que se costuma entoar o famoso cântico de Bach / Gounod em homenagem à virgem Maria, momento em que os sinos da igreja costumam projetar aquele som forte e penetrante. No entanto, a borboleta, símbolo da ingenuidade e fragilidade, repousa no sino, colocando o padre perante uma difícil questão: cumprir com um costume de sua religião ou deixar que a pequena e frágil criatura de Deus continue seu repouso? Enquanto reflete sobre as formas abstratas e concretas com que o espírito religioso se manifesta, o padre deixa seus fiéis esperando enquanto contempla a borboleta.

No segundo verso, creio ter usado um renso, figura de linguagem japonesa que consiste na associação de ideias que uma palavra gera em relação a outra. Desse modo, o verbo “repousa’ guarda em si o movimento com que a borboleta chegou ao sino, justificando assim a quebra do verso em dois, como se eu desenhasse no verso o pousar do pequeno inseto.

Feriado
taco fogo
no formigueiro.

Nesse haikai, é possível perceber facilmente o encadeamento das assonâncias (feriAdo, tAco; fOgo, fOrmigueiro) o que, em si, serviria apenas para deixar os versos gostosos de se ouvir (ou enjoativos, depende do gosto). Há, porém, um elemento sonoro mais significativo para o poema. A aliteração das consoantes fricativas (Feriado, Fogo, Formigueiro) sugerem o ar que se sopra ao fogo para que este se espalhe. Já em relação ao conteúdo, é importante observar a antítese entre feriado (símbolo do descanso) e formigueiro (símbolo do trabalho), o que explicaria a postura um tanto macunaímica do eu lírico.

No inverno
o sol é ilusão
do vento.

O inverno nem chegou, mas acho que todo mundo aqui em São Paulo entende bem o que quero dizer.


solidário
o silêncio.

Há aqui outra tentativa de praticar o renso. O raciocínio raso sugeriria ao segundo verso o adjetivo solitário, o qual seria bastante pertinente, mas daria ao poema um tom demasiado negativista. Valendo-me do princípio do aforismo, procurei contestar esse lugar comum, insinuando que o silêncio, às vezes, pode nos ser uma sólida companhia.

Achei na internet um haikai de Bashô, o grande mestre japonês:

E tu, aranha
como cantarias
neste vento de outono?

O poema, no entanto, ficou a desejar (refiro-me claro à forma com a qual ele se apresenta em nosso idioma). Há nele um tom excessivamente didático. Buscando dar um toque a mais de sutileza, fiz este haiquase de dois versos:

Aonde se esconde
o canto da aranha.

Em que a preposição a aponta para o lugar onde se esconde uma preciosidade da natureza, da qual poucos podem usufruir. A sequência das nasais, não por acaso, procura tornar a pronúncia leve e sutil, pois o barulho atrapalharia a busca.

O galho seco
sustenta o corvo.

Para terminar, quero falar sobre meu haiquase favorito. Acho que ele admite quatro leituras. Vamos a elas:

1 – O galho seco sustenta (segura) o corvo;
2 – Pela técnica do renso: O galho seco sustenta o corvo. Mas como denotativamente isso não faz muito sentido, teríamos: A morte é tentada (atraída) pela velhice;
3 – O galho seco sustenta o corvo (a velhice alimenta a morte). E por último:
4 – O galho seco sustenta o corvo (a velhice resiste à morte).

Caso eu soubesse pintar, faria em sumiê justamente essa imagem.

Carta aberta ao SESC Pompeia

Prezado leitor,

 

 Sofri hoje uma aventura pra lá de desagradável em relação ao atendimento telefônico do SESC Pompeia.

 

 Com o intuito de pedir informações sobre o míni curso de Haikai e Sumiê, liguei para o SESC Pompeia às 18h25, pedindo para falar com o setor responsável. A telefonista transmitiu a ligação, mas eu fiquei 10 minutos a ver o trânsito da avenida sem que ninguém atendesse o dito cujo. Inconformado com o descaso de quem deveria ter atendido ao telefone ou com o sistema telefônico de vocês que não retornou a ligação para a telefonista, insiti. Liguei novamente, às 18h35, a telefonista atendeu e transmitiu a ligação, eu respirei, olhei o trânsito e aguardei por outros 10 minutos sem que ninguém do SESC Pompeia se dignasse a atender ao telefone.

 

 Sem melhores palavras para me expressar, digo apenas que o tratamento que recebi dessa unidade foi uma porcaria. Até entendo se você, leitor, se defender dizendo que este é o tratamento padrão do SESC e que eu, desse modo, não poderia exigir um tratamento decente, pois estaria me valendo de privilégios de que mais ninguém pode desfrutar. Ok, aceito a desculpa.

 

 Se não for pedir demais, eu – que só queria ter recebido um tratamento decente, nada mais – espero que você, leitor, seja educado e sensato para:

 

 1º) Não ignorar meu e-mail, fingindo que a meia hora perdida (20 de espera + 10 do e-mail) em nada influenciou minha noite;

 2º) Não usar as desculpas prontas do tipo “Infelizmente, Senhor, as vagas já haviam esgotado há muito tempo. Mesmo que tivéssemos lhe dado um atendimento decente, o Senhor não conseguiria se inscrever”, imaginando que eu polianamente aceite essa desculpa como justificativa para o atendimento indecente que me forneceram;

 3º) Reservar-me as duas inscrições para que eu as possa efetuar no prazo máximo de 24 horas (isso, sim, seria um privilégio, se eu estivesse solicitando esse “favor” sem que o atendimento do SESC Pompeia houvesse me prejudicado antes).

 

 Mas, caro leitor, sequer o conheço. Talvez você se comova, etimologicamente, e também fique indignado sem, no entanto, poder me dar razão, visto que se sente apenas uma peça dentro do baralho burocrático que permite aos funcionários fazerem sei-lá-o-quê enquanto o indivíduo espera ao telefone por longos vinte minutos sem sequer ter navios para ver.

 

 A vida é assim…

 

 Será?

 

 Atenciosamente,

 

 R L G

 

 

 

 

 

 

Viajando

 Existem diversas questões filosóficas. “Por quê?” Você me pergunta já exemplificando minha tese. A postura filosófica que mais aprecio é o gosto pelo saber daquele que não se acomoda perante frases e ideias alheias. O questionamento é a principal forma de nos opormos a ambientes massificadores e alienantes. Repare: quem de fato percebe a diferença entre uma opinião e um palpite? Entre um argumento e uma adjetivação? Dia desses uma amiga me perguntou o que eu estava ouvindo. Pensei em responder de cara o nome do músico gaúcho e deixar por encerrada a conversa. No entanto, tenho grandes dificuldades em manter um bate-papo meramente fático. Desejoso de algo menos superficial, resolvi investigar os motivos que me levaram a apreciar o músico que mais ando ouvindo ultimamente.  E para isso, resolvi analisar Viajei, de Vítor Ramil (Mande abrir em outra janela para que você possa ouvir a música antes ou depois de ler a continuação do texto).

 A canção é sintetizada já no primeiro verso, criando uma expectiva no ouvinte: viajou para onde? Para dentro de mim, responde o cancioneiro ao nos indicar o uso figurado do verbo; a  polissemia se anuncia. O devaneio é uma espécie de viagem. Felizmente, porém, o autor encontrou meio mais poético de traduzir o que acabei de dizer linearmente. Repare no modo como ele intercala as aliterações das oclusivas com a assonância alternada das vogais abertas e fechadas: “Ligado num segundo / no seguinte, desliguei / do que ia dizer”. É como se a tensão provocada pela combinação entre oclusivas e nasais simbolizasse o constante alerta (tique-taque, tique-taque) de quem está “ligado” (Minha dica: pronuncie atentamente os versos, sinta o que estou dizendo), e a partir da metade da última sílaba de “desliguei” o indivíduo fosse se “desligando”. Foneticamente, isso é sugerid0 pelo prolongamento que se dá na pronúncia do Ei, Ia, Eêê, (“desliguEi do q’Ia dizÊee“) como se tivéssemos uma sucessão de ditongos decrescentes induzindo uma pronúncia vocálica deslizante e suave.

 A segunda estrofe consegue manter o bom paralelismo entre som e sentido.  Primeiramente, temos o trocadilho Divaguei / Devagarinho, o qual sugere uma repetição que não acontece, eis que somos iludidos pelo cantar.  Na sequência, a assonância nasal parece conduzir o devaneio: “Devagarinho, evoluindo / Num carinho teu”. E a alternância binária de átonas e tônicas “perDIdo a ME perDER“, além de retomar “do que eu ia dizer”, parece anunciar o movimento certeiro que se verá na sequência: em  ”MAR aDENtro, NOIte aFOra / aGOra, aMOR” há o desenho fonético da onda do mar, como se estivéssemos num barco cruzando as ondas; esta é nossa viagem.

 Há outros traços significativos na canção, mas deixemos o didatismo de lado. Como cantou Camões, “melhor é experimentá-lo que julgá-lo”.

 p.s.: ganha um doce quem primeiro metrificar corretamente o verso camoniano.

 

Publicado em:  on 1 Março, 2009 at 7:13 pm Comentários (10)
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Dos propósitos

Aos que já me perguntaram o que é mutuca (e também a quem nunca fez questão de saber), coloco esta antiga auto-entrevista. Há nela algo que morreu com o tempo (o site não existe mais, os links talvez não estejam funcionando), porém a essência – aquilo que me fez não apenas construir páginas na internet, mas principalmente abdicar de uma vida mais cômoda para ser professor – permanece. Eis a justificativa de eu ressuscitar este velho texto.

 

O que significa “Mutuca”?

1º de Março de 2006

 

O que significa “mutuca”?

Mutuca é uma mosca que incomoda o gado e os homens com sua picada dolorida. O dicionário diz ainda que é maconha enrolada, mas essa acepção nada tem a ver com o site.

 

Podemos esperar muitas polêmicas então?

Não pretendo chamar a atenção desse modo; seria um recurso barato. Tampouco considero que meus possíveis leitores sejam gado. O fato é que há muita coisa interessante que passa despercebida por todos nós. Meu intuito é facilitar o encontro de meus leitores com essas informações.

 

Não haverá poemas no site? Por ora só há prosa. A poesia não é algo interessante?

Não vejo problema algum em publicar poemas. A única restrição é quanto ao conteúdo. Prefiro temas objetivos. Se for um poema objetivo, tudo bem; se for lírico, irá destoar do meu propósito. O site se mira no conteúdo, não na pessoa que escreve.

 

Você é professor de Português. Será um site sobre literatura?

Também. Mas prefiro dizer que é um site sobre idéias. Não será surpresa encontrar algum artigo sobre Exatas. Há link para uma página de Biológicas, por exemplo.

 

Um site sobre idéias. Já não há fontes de informação o suficiente por aí?

Com certeza há. Visito diversas páginas por semana, fora os livros da minha biblioteca. Mas eu estaria me iludindo ao acreditar que todo aluno acessaria dezenas de sites de informação por semana ou formaria sua biblioteca em curto prazo (mais importante que formá-la é conhecê-la). O site será não mais que um almanaque.

 

Ele não corre o risco de ser superficial?

Não me preocupo com isso. Não é uma página para estudantes universitários se especializarem – pelo contrário! Meu público-alvo é aquela pessoa que procura abrir sua mente, para aquele que procura expandir seu leque de opções. Isso não significa, no entanto, que o conteúdo será ruim.

 

Não seria mais oportuno se seu site fosse só de Humanas?

Mais importante que escolher entre ser de Humanas ou ser de Exatas é optar pelo conhecimento. Restringir nossa área de interesses é mais nocivo do que parece.

 

Isso contradiz a necessidade de uma especialização cada vez maior.

É possível se especializar sem se fechar. Especialização e abertura são dois movimentos de extrema importância. Sem a primeira seremos superficiais, sem a segunda não saberemos pra que serve a primeira.

 

Você foi técnico eletrônico, hoje trabalha com Humanas. Foram essas situações que determinaram o que você é?

Creio que é simplismo dizer que o indivíduo é determinado por elementos externos. Muitas pessoas têm contato com Humanas e Exatas (todo mundo que faz colegial). O diferencial é que eu procuro vê-las como ferramentas conciliáveis. Não que eu busque uma síntese, mas muitos limites são desnecessários. Dizem que a ciência é mais precisa e a arte mais densa, mas o contrário também se pode verificar. Há diversos pontos de interseção; há muitas áreas de contato. Minha paixão pelas Exatas e pelas Humanas se liga à minha curiosidade e à capacidade que esses conhecimentos têm de alimentá-la.

 

Insisto: Você foi influenciado pelas Exatas até os 19 anos. Só depois é que começou a se interessar pelas Humanas. Você nega, mas seu site propõe uma síntese dessas ciências. Dá mesmo pra negar que o indivíduo seja um produto do meio?

De certa forma. Afinal o indivíduo tem condições de escolher o meio que irá influenciá-lo. Ele não é tão passivo assim.

 

Talvez isso seja polêmico…

Se eu não acreditasse que o indivíduo pode mudar sua história não teria feito este site.

 

 

 

 

Publicado em:  on 16 Janeiro, 2009 at 8:44 pm Comentários (6)
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