Ler e transformar

Rafael Z.

A leitura é algo de elevada importância para o ser humano. Por meio dela, entramos em contato não só com informações oriundas das mais diferentes culturas, das mais variadas épocas, mas também com as mais diversas formas de conhecimento. Todavia notamos que, cada vez mais, o hábito da leitura torna-se incomum, impopular. Isso traz sérias sequelas à formação intelectual das pessoas, refletindo também por toda sociedade.

Ninguém nasce apto à leitura. Se o primeiro contato com a língua é algo que nos ocorre de maneira automática (estamos sempre envoltos por códigos e fenômenos da linguagem), a qualidade da leitura requer dedicação, tempo e concentração – cultivá-lo, portanto, não é fenômenos nada espontâneo. De fato, a formação de leitores depende de estímulos e incentivos que demonstrem a importância da leitura. Ao constatarmos que o número médio de livros lidos por habitante no Brasil é baixo quando comparado a países como Alemanha, Chile ou Argentina, por exemplo, percebemos que, em nosso país, o hábito de ler não é devidamente impulsionado.

A falta de leitura gera inúmeros problemas: ao passo que é reduzido o consumo de literaturas (sejam científicas, literárias etc.), restringe-se a gama de informações à qual tem acesso a população; limitam-se o conhecimento e a capacidade de reflexão acerca dos mais variados assuntos; condena-se um grande número de pessoas à ignorância. O final desse ciclo tende a criar uma situação em que há uma massa de pessoas privada de uma consciência reflexiva mais aprofundada, incapaz de ser um elemento transformador de sua própria realidade.

A leitura, por sua vez, oferece ao ser humano a oportunidade de, a partir dos mais variados pontos de discussão, desenvolver a reflexão crítica. Assim, conforme entramos em contato com um grande número de literaturas, ampliamos nossas bases intelectuais e, podemos de fato, posicionarmo-nos frente a determinado assunto e compreendermos o contexto em que estamos inseridos – para perpetuá-lo ou contestá-lo, como seja.

A leitura é importante – fato incontestável. Contudo, seu poder transformador certamente não é algo muito difundido. Com efeito, a leitura, ao libertar da ignorância, ao fomentar o pensamento crítico, reflete possibilidades de mudanças na realidade individual e coletiva das pessoas. Portanto, estimular o hábito da leitura – com doação de livros, bibliotecas itinerantes e discussões de grandes obras, por exemplo – pode ser um grande passo no sentido de transformar a realidade adversa que se apresenta a inúmeros habitantes do nosso país.

Publicado em:  on 15 Novembro, 2009 at 8:48 am Deixe um comentário
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Nem verde, nem passado

Geiza Máximo

Sete dias; o que para um doente pode representar a esperança, para a História se torna algo insignificante. A concepção de tempo se mostra extremamente intimista, pois reflete a forma como a humanidade se posiciona perante sua passagem pela vida. Ainda que haja uma concepção coletiva sobre as noções de passado, presente e futuro, nem sempre o homem vive, de fato, no presente do infinitivo.

Poucas coisas são tão infalíveis quanto a passagem do tempo, e este fato atormenta parte significante da sociedade. Negando-se a aceitar as “marcas do tempo” cresce, cada vez mais, o número de pessoas que se submetem a intervenções cirúrgicas em busca de um rosto mais jovem. Este fenômeno representa o sentimento saudosista em parte destas pessoas que, opondo-se ao seu presente, limitam suas vidas ao que já está findo.

As experiências e as emoções que compõem o passado o tornam um fator primordial na construção de um cidadão. A reflexão sobre o passado, em termos, impede que erros sejam repetidos, mas este aprendizado não deve limitar totalmente as ações de um indivíduo.

Da mesma maneira que o presente é influenciado pelo passado, o futuro pode incidir sobre ele. As vislumbrações que a modernidade e suas tecnologias causam nos seres podem determinar a forma com que vivem o presente. Na obra de Eça de Queirós, A cidade e as serras, há Jacinto, um personagem que num primeiro momento mostra-se completamente encantado com as “maravilhas da civilização”. Posteriormente, Jacinto viu-se fatigado das inovações e passou a perceber as maravilhas que o mundo comum lhe proporcionava.

Por mais que alguns não aceitem, o tempo sempre passa, deixando suas marcas e suas lições e, mesmo que outras desejem, o futuro não chega de “pronta-entrega”, caminhamos até ele. Cabe ao homem aprender a aproveitar seu presente sem se desligar do passado e sem tirar seus pés do chão. A vida é um fruto que renova suas virtudes com o passar do tempo.

Publicado em:  on 11 Setembro, 2009 at 10:30 pm Comentários (1)
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Das vitrines

Michell Lee

 Andando pela avenida, o indivíduo depara-se com um sujeito muito curioso. Pelo reflexo de uma vitrine, o vira fazendo uma careta: o levantar de sobrancelhas com um sorriso enigmático despertara intensamente o seu interesse. Fez, então, o caminho de volta para casa imitando, continuamente até a total semelhança, a careta do tal sujeito. É assim que Oliver Sacks descreve, em Um antropólogo em Marte, uma das características da síndrome de Tourette: a obsessão por imitar o comportamento alheio. Essa compulsão, entretanto, não se limita a um caso clínico. Ela levanta um questionamento se há, de fato, no indivíduo uma personalidade consolidada ou se se trata apenas de um plagiador que expressa feições de outrem. Percebe-se que muitos de nós agem de maneira semelhante: acreditam possuir uma personalidade desenvolvida com caracteres exclusivos, mas imitam outros, quase sempre de forma inconsciente. Vemos, desse modo, que a ânsia de valorizar a própria individualidade é equivocada: a construção de um “eu” sempre envolve influências extrínsecas.

Somos naturalmente o resultado de uma composição de personalidades. Em um de seus artigos, o ensaísta Daniel Piza, sugere que nós somos seres contemplativos: aprendemos pela imitação. Assim, ele prossegue afirmando que o próprio design do cérebro é adaptado para captar movimentos e detalhes que pareçam informativos ou estimulantes. Para ilustrar essa ideia, basta tomarmos como exemplo máximo e caricatural o pseudodocumentário Zelig, de Wood Allen. Nele, o personagem que dá nome ao filme está constantemente assimilando características e feições daqueles que o rodeiam, sendo por isso chamado de “camaleão humano”. Percebemos que, em maior ou menor intensidade, todos somos “camaleões”: somos levados a interagir e a nos comportar de acordo com o que aprendemos com nossos pais, parentes, amigos, filme, livros. Não há dúvida de que o indivíduo seja em parte uma remodelagem das influências que ele recebe.

O que nos caracteriza, entretanto, são as nossas singularidades – de nada adianta somente se camuflar. No filme, Zelig torna-se conhecido por alterar a sua fisionomia e caráter toda vez que se sente acuado e inseguro. Ou seja, Zelig abandonava constantemente a sua real essência para se tornar igual aos outros, irrelevante, obtendo assim uma aparente segurança. Em uma análise mais profunda, percebemos que a crítica de Woody Allen é direcionada à massificação da sociedade, na qual os indivíduos agem como “zeligs”, abdicando do seu “eu” de forma irracional. Contudo, essa busca por aparente aceitação social impede a formação de uma real personalidade. Em seu livro, Sacks explica que a identidade é construída através da experiência, classificação, memória e – sobretudo – acontecimentos interessantes. O indivíduo que aceita as influências sem análise não só está a um passo da alienação como também acredita possuir uma personalidade fora do comum. Vemos, portanto, que também possuímos certas características da síndrome de Tourette. Contudo não somos dominados por tiques ou compulsões: somos nós que decidimos se seremos meras cópias ou se conseguiremos ser inovad0res, como o sujeito que primeiro expôs sua careta na vitrine.

 

Outras torres

Michell Lee

 “Vozes veladas, veludosas vozes”. Névoa translúcida até o horizonte sem fim. O luar, em raios difusos, a iluminar o poeta em sua torre de marfim. Para ele, era uma torre tão alta quanto a de Babel seria; para outros, não passava de excentricidade. É de forma análoga a essa imagem poética que muitos de nós temos a nossa existência retratada: subimos e permanecemos em torres de marfim, uns mais ao alto, outros, quase ao chão. No entanto, quanto mais se sobe, quanto mais se avoluma um desejo de Ícaro de se afastar do chão, mais o indivíduo se isola da realidade. Isso pode ocorrer de tal forma que muitos chegam a um limiar ao qual uma sociedade estereotipada, padronizada, passa a chamar de loucura. Mas esses indivíduos aparentemente próximos ao chão se esquecem que também estão, de certa forma, presos a sua torre de marfim: olham para o alto sem olhar para si próprios.

 Há torres tão altas que não é mais possível uma volta pautada em esforços individuais. Em Um estranho no ninho, filme de Millos Forman, é retratado um sanatório no qual há diversos indivíduos com supostos problemas neurológicos. Bastante curiosa é a presença voluntária de personagens que, devido a problemas como ciúmes em um casamento conturbado, ausência de confiança ou medo do mundo social, se isolam neste lugar em busca de apoio e segurança – mais até do que da própria cura. Em uma análise mais profunda do filme, percebemos que o espaço físico do sanatório é uma representação da mente humana: todos nós já tivemos uma fase ou momento em que desejamos nos isolar, nos fecharmos em nossa própria realidade. Isso ocorre porque, no fundo, queremos reestruturar nossas atitudes e pensamentos, direcionar a nossa vida, – em suma – manter a unidade do nosso “eu”. Entretanto, há indivíduos que sucumbem a problemas fisiológicos e, sobretudo, sociais enclausurando o seu “eu” de tal forma que perdem a noção da realidade, dando vazão a ações inconscientes de agressão e insanidade. Apesar da “altura”, porém, há caminhos de volta.

 Certamente “doenças mentais” é um termo a ser repensado. Oliver Sacks, na introdução do livro Um Antropólogo em Marte, nos conta que está escrevendo o livro com a mão esquerda (a outra estava inutilizada). Ele especula que cargas sinápticas, conexões e sinais cerebrais se alteraram para adaptá-lo à sua nova situação. Assim seriam as “doenças” neurológicas: uma adaptação às necessidades do corpo e ao meio social, podendo resultar em mudanças extraordinárias se comparado com uma pessoa “normal”. Um ótimo exemplo é a história de Bennett, que sofre de crises de compulsões, tiques e bruscas alterações de humor – as quais Sacks chamou de síndrome de Tourette. No entanto, Bennett conseguia suprimir tudo isso quando realizava as suas cirurgias médicas – a sua maior paixão -, de forma tão detalhista e com eficácia sem precedentes. Percebemos que é preciso haver algo que ligue o indivíduo ao mundo real, seja a arte, a profissão, a música – em suma, um estímulo exterior à mente, um canal de expressão do “eu”. Até o título, Um estranho no ninho, sugere isso: é preciso que haja algo ou alguém que desperte os pacientes de seu estado de torpor – isso, no filme, é personificado em McMurphy (o “estranho” que gera uma reviravolta no sanatório).

 Um antropólogo em Marte: um homem que estuda o seu semelhante – e as relações sociais envolvidas – em outro planeta, em outra mente que não a sua. Percebemos que todos nós deveríamos ser esta figura: não há torres alinhadas na mesma altura, as nossas mentes se estruturam de forma desigual. Assim, seria preciso ter um conhecimento prévio, mínimo, da mente alheia, de forma a estar com ela numa mesma ou compatível realidade, de forma a compartilhar momentos e prazeres. Infelizmente, muitos acham ter os pés no chão, quando, na verdade, podem estar  tão deslocados quanto o poeta e sua torre de marfim.

Travessias

Michell Lee

  De um lado da ponte, o poeta admira a margem oposta. Parecia haver maravilhas sob aquele Sol reconfortante, um ar mais límpido, cores mais vivas. Almejando-as, atravessa a ponte: um caminho sem volta-as águas do rio caudaloso devorariam o percurso conforme a travessia era feita. A cada passo, uma desconfiança cada vez maior passa a inquirir a margem idealizada: a que deixara parecia cada vez mais bela vista de longe. É de forma semelhante a esse poeta que todos nós construímos as nossas vidas: atravessamos infindáveis pontes em busca de satisfação pessoal, da construção de uma identidade, em suma, de um lugar melhor. Entretanto, esse contínuo mudar “de margens” envolve mudanças que não podem ser desfeitas, daí a importância de analisarmos se tal empreita é realmente válida.

  A necessidade de provarmos a nossa singularidade talvez seja aquilo que nos conduz a caminhos incertos. Oliver Sacks, em Um Antropólogo em Marte, conta a história de Greg, indivíduo de conturbada adolescência. Cansado das regras e comportamentos dos pais, Greg abandonou a escola, passou a usar drogas e a se ocupar inteiramente com shows e concertos de rock. Tais atitudes, embora extremadas, revelam a necessidade de se buscar novas valores e parâmetros. Afinal, somos seres contemplativos, aprendemos pela imitação; mas é pelas nossa escolhas e decisões que esses valores tomam um sentido realmente nosso, pessoal. Em outras palavras, a adolescência é uma das fases essenciais para a caracterização do “eu”, na qual o indivíduo quer parar de ecoar e, ao mesmo tempo, adquirir um comportamento e personalidade únicas.

  Não é preciso chegar à margem oposta  para saber o que podemos perder. Francis Ford Coppola, em Peggy Sue, o seu passado a espera, apresenta o anseio de muitos: a de voltar ao passado e mudar completamente a direção e conseqüências de suas atitudes. Isso é personificado em Peggy Sue, que volta magicamente ao passado. Assim, ela realiza desejos da adolescência, revive a presença dos pais e, sobretudo, tenta impedir o seu próprio casamento -na sua visão, o marido seria o motivo de sua infelicidade. No entanto, mesmo com a possibilidade de mudar o seu destino, Peggy não o faz: ela percebe que era feliz com a sua vida, que os árduos caminhos percorrido para construí-la não merecia ser desprezada; tudo isso era representado pela saudade dos filhos. Percebe-se, portanto, que alterar a forma com que enxergamos o que nos cerca pode nos poupar de perdas irremediáveis e arrependimentos.

  Mudança ou estagnação, perdas e ganhos. Essa polarização ocorre não apenas na adolescência ou na fase de reavaliação da vida adulta, mas sempre que achamos que não temos nada a perder ou quando já alcançamos o lugar onde queríamos estar. As pontes são úteis; as travessias, desafiadoras; no entanto, a nossa satisfação se dá em uma margem ou em outra: de nada adianta percorrer seguidas pontes sem nada valorizar. O comedimento, aliado ao certo balanço de nossas necessidades, é a chave para não nos perdemos em um eterno saudosismo do poeta e sua margem perdida. 

Flores e Moinhos

Michell Lee

 

  Um poeta, depois de ler e ouvir loas e loas sobre a rosa perfeita, sem espinhos, sai em uma jornada pelo campo aberto esperando satisfazer a sua curiosidade. Após dias procurando, só conseguira arranhões e ferimentos; a quantidade de espinhos era imensurável, contudo, encontrar a tal rosa tornou-se um requisito para a sua felicidade. É de forma semelhante a esse poeta que muitos de nós agimos: ouvimos ecos sobre o amor como expressão máxima dos prazeres, como requisito para a satisfação e bem-estar individual, como a chave para a felicidade. Esquecemos de refletir criticamente que não existem rosas sem espinhos e passamos a procurar algo inexistente. Embora pareça paradoxal a princípio, quanto mais procuramos esse amor idealizado, mais nos afastamos da felicidade plena.

 

  A felicidade é a convergência de dois tipos psicológicos que coexistem em um indivíduo. Em Dom Quixote, Cervantes caracteriza o protagonista como um sonhador, ambicioso, que busca algo a mais do que o simples tangível. Sempre em sua companhia, estava a figura de Sancho Pança, responsável por trazer Quixote de volta à realidade, de lhe mostrar as dificuldades e obstáculos. Dom Quixote e Sancho Pança representam os tipos que, em muitos aspectos, caracterizam um indivíduo. Para muitos, a felicidade é quando essas duas figuras se anulam: o nosso “Quixote” deixa de buscar necessidades a serem supridas – porque todas elas já foram satisfeitas – ; e o nosso “Sancho” para de nos apontar as dificuldades de sonhar alto – já que todos os desejos já foram consumados. É óbvio que tal estado de espírito é utópico em sua totalidade – o indivíduo feliz, de modo geral, é aquele que está sempre a sonhar com novas conquistas sem deixar, porém, de usufruir aquilo que já conquistou. Saber administrar os dois tipos psicológicos, isto sim, é a felicidade.

 

  O amor tornou-se um placebo. Desde a Era Medieval até os dias atuais, o homem sempre foi influenciado por ideias que tinham como caráter central o amor idealizado. Contudo, a perfeição é um valor dos mais abstratos e fugazes, portanto não pode ser concretizado plenamente na realidade; tanto é que Machado de Assis dizia: “A vida não é uma fábrica de sentimentos; não se vive como se romanceia”. Assim, como nem todos distinguem o ideal do factível, muitos dão demasiada liberdade para o seu “eu-Quixote”, empregando-se em uma procura constante sem, de fato, encontrar uma rosa sem espinhos – ou, metáforas à parte – sem satisfazer os seus desejos.

 

  Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, certamente concordaria que a felicidade e o amor deveriam ser naturais, ou seja, de forma livre e espontânea sem a preocupação com ideais de perfeição. Percebemos, portanto, que a felicidade ou mesmo o amor não precisam ser demasiadamente racionalizados: viver sem pensar nesse aspecto ajuda a manter o equilíbrio entre o Quixote e o Sancho que convivem dentre de nós. Assim, ao invés de o poeta  buscar uma rosa sem espinhos, e viver normalmente, é muito provável que ele ache diversos espinhos, porém, sorriria ao ver que estes possuem uma rosa muito bonita, de cores vivas e pétalas vistosas à qual ele não havia dado o devido valor. 

O Gabinete do Dr. Caligari: Uma metáfora do totalitarismo

Frederico Di Giacomo Rocha

 

caligari

 

A mente de um louco nas telas de cinema, a consciência sombria traduzida em imagens góticas que tanto simbolizam uma história de terror quanto representam uma crítica ao totalitarismo. “O Gabinete do Dr. Caligari” é um marco do cinema mundial infinitamente resenhado e comentado. Sua importância é indiscutível, foi o primeiro e mais importante filme do chamado expressionismo alemão que reinou entre 1918 e 1928. Antecedeu os clássicos “Nosferatu” de Murnau e “Metrópolis” de Fritz Lang, tornando-se o primeiro sucesso do cinema de horror. Segundo Fritz Lang, no livro “O Século do Cinema” de Glauber Rocha, não existia um movimento expressionista organizado no cinema austríaco/alemão, esse foi apenas um rótulo achado pela imprensa para catalogar aquele cinema primitivo de começo de século. Polêmicas a parte, não se pode negar as semelhanças estéticas entre as obras desses autores e a influência dessa escola de arte no filme de Wiene.

O roteiro é aparentemente simples: Francis, um homem internado em um hospício, fala a um outro, em flashback, de uma série de assassinatos cometidos em uma cidade do interior alemão (Holstewall) a partir da chegada de uma feira itinerante na qual se destaca o Dr. Caligari (Werner Kraus), uma espécie de pai do Zé do Caixão* com sua cartola e sobretudo negros, que controla Cesare, um sonâmbulo (Conrad Veidt) que dorme em um caixão e aparentemente prediz o futuro. Francis havia ido à feira com seu amigo Alan (Hans Heinrich), que tem sua morte prevista por Cesare ao visitar a “cabine” do velho doutor (daí a origem do nome do filme). Após o assassinato de Alan as suspeitas recaem sobre o Dr. Caligari e inicia-se uma luta contra o tempo para impedir novos assassinatos e provar a culpa do doutor, que revela-se alter-ego do chefe do hospício da cidade.

A astúcia do roteiro está no final, que muitos dizem ter sido criado sobre pressão dos produtores.(Se você ainda não viu o filme e não que saber o final, pule essa parte) Antes mesmo de obras como “Sexto Sentido” ou “Os Outros”, nas quais o fim muda completamente o sentido da história, Wiene transporta o narrador para o hospício, como um louco, sendo a primeira história um delírio e o Dr. Calegari, na verdade, um bondoso médico.

Uma das marcas que garantiram imortalidade à película de Wiene é o retrato surrealista do universo narrado por Francis, representando os delírios de um doente mental. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm (que hoje fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris) são contorcidos, escuros e criam um ambiente de opressão, tal qual as catedrais barrocas. O tempo é desterritorializado, não há menções à época em que se passa o filme, assim como ocorre na maioria das obras expressionistas. A maquiagem é pesada e tudo remete a um mundo confuso, assim como era a Alemanha da pós-guerra, marcada pelos traumas impostos pela derrota na Primeira Grande Guerra, as crises econômicas e a ascendência do nazismo ao poder. O nazismo, inclusive, selou o destino dos dois atores principais: Conrad Veidt fugiu da Alemanha para se tornar um astro nos Estados Unidos (interpretando o nazista em “Casablanca”) e Werner Krauss permaneceu na Alemanha para se tornar então o ator principal do filme de propaganda anti-semita “Jud Suss”.

O “Gabinete do Dr. Calegari” é um aviso, uma premonição do mal que viria varrer a Europa nas décadas de 30 e 40. Assim como “O Vampiro de Dusseldorf” de Lang, o filme de Wiene expõe os efeitos do autoritarismo, totalitarismo e da forma de influenciar as massas através do hipnotismo. É uma obra crua, de um tempo em que o cinema era mudo, preto e branco e começava a buscar sua linguagem própria. Uma vitória para o diretor que conseguiu transmitir com imagens fortes toda a angústia, medo e opressão vividos na entreguerras. Mal sabia Wiene que diante do horror de Hitler, seu Dr. Calegari poderia estar ao lado de Rapunzel nas histórias de carochinha.

Assista o filme aqui.

Publicado em:  on 9 Maio, 2009 at 9:16 am Deixe um comentário

Conspiração do universo?

João Francisco Ferreira de Souza

            Existem registrados na história vários famosos feitos e descobertas que, aparentemente, começaram com um acaso ou lance de sorte. Kekulé, ao sonhar com uma cobra mordendo a própria cauda, foi capaz de criar um modelo para a estrutura do benzeno, substância química importantíssima para a sociedade moderna. Isaac Newton, ao ser atingido na cabeça por uma maçã em queda, começou os esforços científicos que resultariam na mecânica gravitacional. A invenção do velcro foi feita por um suíço que, após um passeio no parque, ficou impressionado com os poderes adesivos do carrapicho. Mesmo em épocas, regiões e áreas de atuação diferentes, essas três figuras históricas apresentam muito em comum.

            Sexto sentido, intuição, pressentimento, cisma: vários são os nomes para a voz do inconsciente. Através de um processo pouco conhecido pela ciência, nosso cérebro é capaz de trazer à luz pensamentos formulados inconscientemente. É o início de uma idéia. E todas as idéias trazem questionamentos junto consigo. Talvez o velcro não tivesse sido inventado se há algum tempo não houvessem se perguntado: por que o carrapicho gruda tão bem nas roupas? Seria possível imitar tal mecanismo?

            A idéia, o questionamento, a busca por respostas. Muitas pessoas já foram atingidas por maçãs em queda livre e o Brasil é o país mais rico em carrapichos do mundo, mas foi Newton que descobriu a gravidade e foi um suíço o inventor do velcro. O que separa esses extraordinários cientistas da maioria de seus contemporâneos é que eles foram capazes de perceber a realidade de uma maneira crítica, notando aquilo que passou despercebido por todos os outros. A partir daí, a repetição exaustiva de experimentos e o uso da razão para montagem de uma teoria foi imprescindível para o sucesso.

            Outra característica comum entre grandes cientistas é a tenacidade, pois nem sempre os modelos teóricos funcionam na prática, sendo necessário reformulá-los. A convivência com erros é uma constante, servindo aquilo que fracassou como aprendizado e estímulo. Einstein teve de reformular sua teoria várias vezes até que chegasse à fórmula definitiva que o deixaria eternizado: E = m.c².

            Grandes homens foram, antes de tudo, grandes observadores, que souberam lidar com fracassos, usando a mais poderosa ferramenta humana: o cérebro. Intuição e tenacidade misturaram-se na História e daí surgem grandes idéias e descobertas que sustentam nossa base de conhecimento até a atualidade.

           

Publicado em:  on 1 Fevereiro, 2009 at 10:13 pm Comentários (3)
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Preconceito Explícito

Stephanye Mariano Figueiredo

Desde a consolidação dos ideais iluministas na sociedade, o direito à liberdade é considerado como algo inerente ao homem. Nem sempre, porém, tal pensamento condiz com a realidade vivida pelas minorias homossexuais. Filmes, peças teatrais e novelas, apesar de cada vez mais evidenciarem relacionamentos entre indivíduos do mesmo sexo e as dificuldades pelas quais eles passam ao se assumirem diferentes, não só temem o preconceito alheio, mas também são muitas vezes censurados por aprofundar um tema que ainda fere princípios da maioria.

O homossexualismo sempre esteve presente na história, ora bem aceito, ora mal visto. Em Esparta, durante o período clássico grego, ilhas onde havia apenas mulheres ou homens, para treinamentos militares, favoreciam o surgimento de relacionamentos homossexuais, sendo que esses eram vistos com normalidade pela sociedade. Por outro lado, na Idade Média, minorias, desde mulheres insubmissas até os acusados de sodomia, eram queimadas em fogueiras por serem considerados enviados de forças malignas. Mesmo agora, na era da tecnologia, a qual deveria – em tese – favorecer a difusão do conhecimento e da tolerância, ainda há exemplos de como o homossexualismo enfrenta preconceitos.

Governantes e religiões costumam impor inúmeras limitações quando direitos homossexuais são discutidos. A união matrimonial é ainda julgada com certo viés, sendo proibida e condenada pelo Cristianismo, que mantém a idéia de que o homossexualismo é uma doença a ser erradicada, mesmo pregando a igualdade dos homens perante a lei de Deus. Tal preconceito também ocorre em países democráticos e livres, como os Estados Unidos, onde o atual presidente, George W. Bush, manifesta claramente sua oposição ao casamento gay, pois esse romperia a santidade de tal tradição.

Portugal, por meio da “União de facto”, e Holanda, com sua política liberal, são alguns dos poucos países que já aceitam e respeitam as preferências sexuais de cada cidadão, aprovando o matrimônio, adoções e manifestações públicas de afeto ente homossexuais. Filmes como Paris, te amo, dirigido de maneira coletiva com diretores de diversos países e Transamérica, de Duncan Tucker, em que a sexualidade das personagens são analisadas de maneira livre de preconceitos, evidenciam que a coexistência entre gays e heterossexuais é possível. Entretanto, para a concretização desse convívio mais harmonioso, é necessário o abandono de dogmas obsoletos e julgamentos infundados, o que não é simples para sociedades que ainda utilizam a palavra gay na tentativa de ofender aquele que deveria ser visto como seu semelhante.

Reflexos de uma realidade

Amanda Rossetto

Vive-se em uma época cinzenta, poluída de ambigüidades e incertezas. Prós, contras, preto, branco, tudo se dilui em um condensado de diferenças dando o tom dual que permeia a realidade. Auto-proclamados contadores da verdade difundem-se na malha social a inebriar a massa cinzenta da população. Porém, ao contraporem-se as certezas de dogmas opostos, aumenta-se a dúvida quanto à veracidade dos discursos propagados e muitos são levados a questionar qual, de fato, é a realidade.

A realidade é diversa. Deus pode ser Allá, ou inominável, ou inexistente. Apesar de parecerem contraditórias, a certeza monoteísta da existência de um único Deus (por uns) não afeta a veracidade da crença atéia em Sua não-existência (por outros). No universo pessoal, as próprias crenças são a realidade, chegando esse endemismo do real ao ponto de aparentemente desmentir a realidade, relativizando-a. É essa realidade subjetiva, que transporta, do psicológico à macro-realidade social, a própria versão dos fatos, a matriz dos princípios e, logo, da discórdia – sendo versão a palavra-chave da sentença.

A realidade é única. Ela corresponde ao conjunto de ações e reações em escala universal. Apesar de a realidade individual ser a verdade absoluta de cada um, os fatos ocorridos são a realidade comum a todos. Isso não torna o psicológico menos real a quem o experimenta, mas também não o torna realidade. Apenas faz dele uma versão dos acontecimentos, sem alterá-los. A ação sob o princípio da realidade subjetiva é o único modo de alterar a realidade concreta. Ainda assim o motivador do fato seria o psicológico, não o acontecimento em si.

A realidade é única, sua interpretação é inúmera. Sob vários prismas pode ser enxergado um fato – sob a luz da realidade a verdade se revela. Por vezes, verdades diferentes, diferentes imagens de um mesmo fato, se revelam a diferentes observadores. Contudo o fato é o mesmo, e a luz uma constante. Isso é a realidade. O restante é apenas seus reflexos.