Mascate de palavras [fragmentos aleatórios – I]

Não sei exatamente o que ele fazia, mas André tinha dinheiro e bom gosto; deixara a Cecília uma casa espaçosa e densa na Vila Mariana, cheia de estantes, salas, com diversos quadros e livros, algumas porcelanas e gatos, além do quintal multicolor. Não posso dizer ao certo os nomes das flores, que meus olhos mal focalizaram, mas o deleite aromático daqueles instantes ou guarda-se em alguma região antiga do meu cérebro ou é resultante de uma fantosmia que outra região de malícias insinua. Brisas frias e cítricas me sugeriram limoeiros, ventos precisos e fortes sussurraram-me um toque de madeira úmida. Foi, porém, a essência adocicada de jasmins o primeiro aroma a me possuir naquele território.

Conhecemo-nos num final de tarde num bosque de velhas árvores. Havia reencontrado um amigo (na verdade um colega, daqueles que surgem, somem, retornam e desaparecem; que só servem de mote, nada mais) e deste encontro só cabe dizer que eu filosofava sobre o Monumento às Bandeiras: […] Há uma importante diferença entre monumento e estátua. Assim como sofrimento e sentimento, monumento deriva de um verbo, mas de um verbo latino: monere. Monere significa lembrar. Quando olhamos um monumento, ele nos atiça a memória, nos faz reviver algo, neste caso os bravos bandeirantes que invadiram a mata sem temor. Já estátua significa simplesmente estático, aquilo que não se move. Por trás dessa simples analogia, meu caro, está o porquê da nossa existência: valemos um livro, um capítulo, talvez uma breve nota de rodapé, sequer uma menção ou seremos mais um pedregulho perdido na esquina?

O amigo se foi, mas isso não importa. Importa é que ela veio, trazendo um sorriso entre confiante e desconsolado. Minto! Naquela hora só se era possível notar a confiança, nada mais, nenhuma faísca do que depois fui inquirir.

– Permita-me, cavalheiro, um justo pagamento por sua aula – disse entregando-me um antigo relógio de bolso prateado.

Difícil saber os motivos que me levaram a aceitar o presente. Retrospectivamente apostaria naqueles olhos caleidoscópicos que me convidavam a decifrá-los enquanto me invadiam sorrateiros, mas a verdade é que na hora fui impelido por uma força entre a vaidade e a curiosidade; entre o velho e novo; era como se minha pretensa segurança me desse garantias de que nada pudesse me surpreender ao mesmo tempo em que parte de mim desejava ser surpreendida. Qual predominava, nem agora sei dizer. Isso, porém, pouco importa. Noto que a escrita está truncada, trôpega, saltitante; oclusiva. Devo ser mais fiel aos passos que dei, às brisas que senti; só assim poderei recuperar os rastros que perdi em alguma curva do caminho extremo.

Voltemos.

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