Um Teatro de Idéias

Entrevista com Oswaldo Mendes, realizada em 27 de Junho de 2006

Oswaldo Mendes: ator, diretor e autor de teatro. Foi também jornalista profissional de 1969 a 1992. Autor de Ademar Guerra: O teatro de um homem só (Editora Senac), indicado em 1997 para o prêmio Shell, e de Teatro e Circunstância (Editora Núcleo ), reunindo três peças: “Um tiro no coração” (1984), “Voltaire – Deus me livre e guarde” (1998) e “A dança do universo” (2005), além do esboço de um estudo sobre o teatro da era científica proposto por Brecht.
Integra desde 2001 o grupo Arte Ciência no Palco, com o qual atuou nas peças
Copenhagen, E agora, sr. Feynman?, Quebrando códigos, Perdida – Uma comédia quântica e A dança do universo, de que fiz uma resenha tempos atrás.
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Pela qualidade da sua peça, seria ofensivo chamar seu trabalho de teatro de massa. Por outro lado, imagino que sempre há uma ambição de conseguir falar aos mais diferentes públicos. Faço-lhe, então, duas perguntas: Quais são os públicos mais díspares que A Dança do Universo cativou? E quais foram as respostas mais marcantes que você recebeu do público por esta peça?

 

Curiosamente, as melhores respostas à peça vêm de pessoas que não são do chamado meio teatral. Às vezes uma peça é reverenciada por atores e gente de teatro e o público não se interessa. Com A Dança foi o inverso, embora as críticas tambem tenham sido boas. Mas pessoas amigas de teatro a quem mostrei o texto antes, não davam um tostão furado pela Dança (algumas se surpreenderam depois com o espetáculo, outras se calaram). Eu sei que não é uma peça convencional em sua estrutura, embora não haja originalidade alguma em termos de dramaturgia, mas no teatro também há forte resistência a tudo que nao esteja dentro dos cânones, até dos aristotélicos, apesar de muitos já terem sido questionados. Quanto ao público, ele sai feliz do espetáculo. No caso de estudantes, a reação mais significativa e que mais ouvi é no sentido da descoberta da dimensão humana dos “gênios” colocados em cena. Embora os conceitos científicos estejam ali colocados – na cena de Newton, por exemplo, estão ali todas as leis da sua mecânica -, esses conceitos “passam” literalmente “através” da personagem, sem qualquer didatismo. E isso é o que mais atrai as pessoas. 

 

Lembro-me de que quando vi A Dança do Universo, logo na cena 2 (“O embate entre a ignorância e o conhecimento”), eu a associei de imediato às polêmicas entre evolucionistas e criacionistas, que o biólogo Richard Dawkins trata, por exemplo, em O Capelão do Diabo. Mas não. Eram Lucrécio e Santo Agostinho que travavam um debate anacrônico e atual. O que faz desses textos tão atuais?

O teatro. É a linguagem do teatro que lhes garante contemporaneidade. Digo sempre que o teatro é a circunstância de quem o faz e de quem o vê. E nada mais. Por isso, embora efêmero, volátil, o teatro “atualiza” questões que parecem “mortas”. Por isso parecem tão atuais textos de Sófocles, Shakespeare, Molière ou Lucrécio e Santo Agostinho.

 

Um amigo meu com quem troquei umas idéias sobre a peça reclamou que, na cena 4 (“Elogio a um físico”), Schenberg faz uma defesa extremista ao uso da intuição. Não concordei com ele. Lembrei que o mesmo Schenberg diz: “não repitam nossos erros. Recolham no passado as lições necessárias”. Lembrei ainda que na cena 8 (“Arte e ciência: um experimento”) Einstein defende que só com imaginação, mas sem conhecimento, o indivíduo perderia seu tempo formulando mal suas idéias. Podemos vislumbrar na sua peça uma combinação de tradição e inovação? De que modo?

Creio que você respondeu por mim. Sempre me intrigou a insistência com que a frase de Einstein é citada: “a intuição é mais importante que o conhecimento”. Isto é verdade, em termos. Não acredito só em intuição, porque não acredito que nenhuma mediunidade (e  não estou falando de religião apenas) leve à inovação e à ruptura. Aceitar a intuição como panacéia é negar a tradição, que eu uso aqui no sentido de conhecimento acumulado pelo Homem ao longo da sua história sobre a Terra. A inovação só pode surgir do passo que se dá à frente da tradição. Como ouvi uma vez de uma amiga do teatro, é importante saber o que já se fez, o que já se caminhou, senão um médico ou pesquisador podem se dedicar a descobrir a penicilina, sem saber que já foi descoberta. A tradição existe como alicerce de um pensamento novo e até mesmo de uma ruptura com possíveis “verdades” herdadas do passado.

 

Conheço diversas pessoas que não gostam “muito” de Física, mas adoraram a peça. Ficaram até mesmo com vontade de entender melhor o motivo da raiva do Newton para com o Leibniz, de assistir a Tempos Modernos e, em certos casos, até mesmo de de entender um pouco a Teoria da Relatividade. Atrair o público para o mundo do conhecimento, esse é um dos papéis da peça? Aliás, uma pergunta mais ousada: esse é o papel do teatro?

O papel do teatro é discutir o homem até às últimas conseqüências, como dizia Plínio Marcos, ou servir de espelho para o homem, como queria Shakespeare. E na sociedade do espetáculo em que vivemos, nessa “febre midiática”, o teatro deixará de ser entretenimento para ser instrumento de reflexão e, se quiser, de conhecimento, sem abdicar da sua natureza lúdica. Como queria Breckett, bons serão os tempos em que o teatro for supérfluo, no sentido de que, resolvidas as questões do cotidiano opressor, as pessoas puderem se entregar ao prazer de falar, pensar, rir e se emocionar consigo mesmas através do teatro. Claro, dependendo do tema e das personagens que são colocadas em cena é possível atiçar o interesse pelas questões que os envolvem (ao tema e às personagens) – no nosso caso, a ciência e todos os seus entornos.

 

Quando eu fui assistir a A dança do Universo, disseram-me que era uma peça sobre Física. Como eu sempre fora um razoável estudante de exatas, acreditei que conseguiria me divertir bastante relembrando umas coisas e conhecendo outras. Mas hoje sou professor de Português, trabalho com redações (ou seja, com elaborações de idéias) e creio que foi esta parte de mim que saiu ganhando mais. Talvez seja um equívoco, mas eu arrisco dizer que A Dança do Universo não é apenas uma peça sobre Física, mas uma peça sobre Idéias. O que você acha?

Mais uma vez você respondeu por mim. Também não sou físico, me considero apenas e humildemente um homem de teatro. Sempre fui melhor aluno de Português, e das chamadas “humanas”, do que de ciência (como se essas  não fossem “humanas”). Mas eu me pergunto se, mais do que com fórmulas e números, um cientista não trabalha basicamente com Idéias. Pelo menos com gênios como Newton e Einstein foi assim.

 

Oswaldo, você recusou certa vez, numa entrevista, o rótulo de “divulgador científico”. Assisti às duas peças mais recentes de que você participou (A Dança do Universo e Oxigênio). A impressão que eu tive, principalmente quanto à primeira, é de que mais do que pensar em termos especificamente científicos, essas peças nos fazem pensar em termos humanos. Em questões humanas, de uma atualidade que dura centenas de anos. Como você gostaria que A Dança do Universo fosse lembrada por aqueles que a ela assistiram?

 

Não é que eu recuse reconhecer que o trabalho do grupo Arte Ciência no Palco presta algum serviço à divulgação científica. É que eu pretendo que me vejam, e ao meu trabalho (no caso, de ator e de autor), como um homem de teatro. Fico feliz quando as pessoas me dizem que A dança do universo despertou o interesse por este ou aquele aspecto da ciência e da sua história. Mas fico mais feliz quando me dizem que isso se deu porque elas se emocionaram, se divertiram com aquilo que lhes foi mostrado em cena. Quando uma pessoa me diz que a cena de Chaplin e Einstein a fez chorar (e eu ouvi muito isso), sei que consegui meu objetivo. Qual seja, emocionar. E como eu suponho que essa emoção tenha brotado das palavras, das idéias, de Chaplin e Einstein (porque eles nao fazem  mais que conversar), sou levado a acreditar que as pessoas deixarão o teatro de alguma forma modificadas ou provocadas por aquilo que viram. E nesse momento eu sei que o teatro não foi em vão.

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