Mascate de palavras [fragmentos aleatórios – II]

II

Meia hora depois estávamos numa espécie de bistrô. O temporão sol outonal das cinco deu-nos a oportunidade única de deixarmos os casacos aos cuidados do mancebo. Feliz com a nova amizade conquistada por força de meu intelecto, decidi retribuir-lhe com um pouco de cafeína:

– Nada disso! Licor de gengibre para meu caro amigo, por favor – disse Cecília ao garçom. Antes mesmo que eu pudesse compreender sua reação, explicou-se:

– Está quente. E gengibre certamente é uma bebida mais apropriada a momentos como este.

– Ora, café excita os sentidos. É até curioso – permita-me a divagação – como isso soa a tautologia. Se opusermos sentidos a sensações, estas são subjetivas, internas; aqueles físicos e externos. Logo, uma mente descuidada diria ser possível excitar apenas as sensações, afinal, são elas que estão escondidas. Mesmo assim, porém, muitas vezes os sentidos não dão o ar da graça, é preciso buscá-los, fazê-los vir à tona.

– Tome – disse entregando-me uma corrente de prata, combina com o relógio, acredite.

– Para que os presentes?

– Uma inteligência como a sua merece incentivos, estímulos. Encare isso como um jogo: você me anima com suas palavras, eu me dispo dessas velhas prendas e, pronto!, tudo seu.

– Sua companhia basta. É sempre bom ter alguém com quem conversar.

– Gosto de coisas concretas – insistiu.

– Uma metonímia de sua presença? Tudo bem.

Ela sorriu.

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