Mascate de palavras [fragmentos aleatórios – IV]

IV

As lembranças daquela noite? Hipoteticamente é possível que eu tenha ouvido música, lido alguma coisa ou até mesmo ligado a tv. Mas não. Hoje sei que naquele dia eu fui dormir extremamente feliz. A jornada havia sido muito proveitosa. Sempre é bom começar uma amizade, aproveitar-lhe o sabor do não saber, permitir que seu cheiro desconhecido apresente-se a nossas narinas.

V

O dia seguinte foi bastante agitado. Logo cedo fui acordado pela ligação de um amigo que me convidou para ir com ele a um sebo em Santo Amaro.

– É longe.

Mas aceitei. Os argumentos eram cativantes: eu não conhecia o lugar, poderia encontrar bons livros, revistas antigas e até filmes raros por um bom preço.

– Esse pessoal não sabe o que tem em mãos.

Esse foi um argumento coringa, afinal a ignorância tanto pode fazer o indivíduo pedir pouco por algo valioso como pode fazê-lo inflacionar tudo que desconheça. Mas aceitei.

Saindo do quarto, mirei a parede da sala: havia uma belíssima reprodução do teto da Capela Sistina, a imagem de Deus querendo tocar o dedo humano é um símbolo inquietador. Certa vez a interpretei como a insígnia da sabedoria em busca do homem, como se este não tivesse forças ou interesses necessários para adquiri-la. Não, não foi uma leitura determinista; o homem não é um cativo da ventura, pelo contrário, ele deve pretendê-la. Por maior que seja a vontade divina, o toque só se dará de fato com o esforço adâmico. É preciso buscar o conhecimento, sair das sombras. Vinde, portador da Luz! Serei vosso irmão. Irmão dileto na mesma lucidez.

Por muito tempo essa interpretação me satisfez. Afinal, segundo uma teoria nietzschiana, tratava-se de um raciocínio meu, obra de minha própria vontade e esforço. Não a recebi passivamente de uma ideologia escamoteadora, fora obra minha. Mesmo assim, porém, talvez tenha sido iludido. Ilusão, ludismo, como desconfiar das regras do jogo que eu mesmo criei? Não tenho a chave, mas entrei.

A Luz que guia é a mesma que embaça a visão. Lúcifer não me parecia um ser movido pela vontade de elucidar o caminho dos homens, ao invés disso, queimava-lhes as retinas. Olhei novamente o quadro, com o sincero desejo de realizar uma nova leitura. Como é difícil subirmos o degrau do esclarecimento! Fácil nos parece ao mirarmos o que fomos, perceber as ignorâncias que nos acometiam, os equívocos que deixamos de cometer, mas para onde lançar o passo seguinte sempre é um mistério, tal como o bom senso, o qual só percebemos não ter quando passamos a tê-lo. Boa essa máxima. Gosto de frases curtas; frases de efeito. Elas indicam, muitas vezes por um raciocínio paradoxal, pistas valiosas.

E assim, palavra-puxa-palavra, máximas e paradoxos me levaram a antítese. Tentei o método das inversões. Se minha interpretação era metafísica e racional, quem sabe algo mais concreto e sutil pudesse funcionar?

Mirei novamente o quadro buscando especular algo de novo. Dessacralizei Deus e Adão, tornando-os uma espécie de pai e filho terrenos; este e aquele na iminência do toque, do contato humano. Ou seria contato humanizador? Temo outra vez fragmentar meu raciocínio com abstrações; a metafísica pode iludir. “Mas também pode dar formas ao que não tem”, veio-me uma voz não sei de onde. Resolvi experimentá-la. Pelo que intuí, o contato humanizador não seria uma abstração pura e simples; é antes o verbo que dá vida à coisa concreta que conhecemos de mais especial e complexa, o próprio homem. O quadro, desse modo, simbolizaria não o raciocínio individualista, mas a interação de indivíduos, o tato, o calor, o contato físico. Um símbolo da amizade? Talvez. Em todo caso, porém, não consegui escapar da abstração, minha doce companheira. 

 

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