Mascate de palavras [fragmentos aleatórios – V]

***

Encontramo-nos perto da esquina da Rebouças com a Faria Lima, num sebo – não por coincidência, mas por costume. Dessa vez ele chegou antes de mim e estranhou o fato de eu não me interessar por olhar as estantes antes de irmos ao ponto.

– Está triste, Autran?

A pergunta, longe de incomodar, me inquietou. Embora a inquietação seja um tipo de incômodo, segundo a etimologia.

– Ah, meu velho amigo. Não, você não muda.

Até tentei desenvolver minhas idéias, mas o calor do meio-dia e o engarrafamento me impediram.

– Que tal um refresco?

Não valia a pena tomar o ônibus àquela hora. Fomos à cafeteria, onde fui apresentado a um milk-shake de café. “Chama-se frappuccino”, corrigiu-me a atenciosa atendente. Curioso como algo que deveria ser redundante (“atenciosa atendente”) se transforma em exceção. Meu amigo simplesmente riu do meu comentário.

O café não foi aprovado. Se a temperatura estava adequada e o licor de menta convidava a um reencontro, as pequenas pedras de gelo da batida mal-feita forçaram-me a desertar. Sem mais o que fazer, pegamos o cardápio com inúmeros nomes de sabores e nos deliciamos em inquirir mais etimologias e outras abstrações.

Pode-se dizer que Renato seja meu pupilo. Conheci-o fazia uns três ou quatro anos. A partir de então sua vida mudaria muito: entrou e abandonou o curso de engenharia, planejou diversos eventos quando diretor do centro acadêmico da faculdade, ensaiou o início de algumas pesquisas, deixou as raves e se tornou um rato de sebo, como gostava de dizer.

– Somos homens da tarde ou da madrugada? – filosofava Renato. Se entendermos tarde como experiência e maturidade intelectual, os livros todos que me acompanham na mochila e afeição impedem-me de recusar tal alcunha. Mas se tarde for vista como o prenúncio da noite, o gosto pela obscuridade, não. Se assim for, sou um homem da madrugada; aquele que matina para admirar o provir das primeiras luzes.

– Exalta-se, meu amigo.

– Sim, mas me dê este momento. Que é a vida além dos instantes? Foge-me o dono deste aforismo.

– “Cultura é o que sobra quando a gente esquece o que aprendeu”, citou Carpeaux num de seus livros.

– Sim, o resto é vaidade. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade…”.

– As águas dos rios não escapam do mar – disse uma desconhecida, aproximando-se do meu amigo. A pedra, do pó; Pedro, da pedra… que dirá nós, impuros descendentes do barro? Mas isso cheira a materialismo barato. Resiste em nós o sopro da inteligência geratriz.

– Louvado seja o fogo de Prometeu!

– A hipótese grega para a verdade cristã? – devolveu sarcasticamente a jovem.

– Sim! Hi-pó-te-se. A “tese de sustentação” da cultura ocidental, ou se me permite, da cultura simplesmente. A substância só é plena quando independe de adjetivos. Verdade cristã? Sim, trata-se de uma verdade cristã, mas não da Verdade.

A desenvoltura de meu amigo foi forte o bastante para vencer o debate e perder uma possível amiga.

– Desculpe-me, mas o senhor é ateu? – perguntou um senhor que presenciou o diálogo.

– Sou um guerreiro do conhecimento. Ou um polêmico gnóstico se o amigo preferir.

O senhor não preferiu nem um nem outro, apenas se afastou desconfiado.

– Um cafezinho antes de partirmos?

Aceitei.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s