Mascate de palavras [fragmentos aleatórios – IX]

VI

Estava novamente em minha casa. Dessa vez, porém, sem o mesmo ânimo da noite anterior. Talvez tenha me desgastado a reflexão sobre o quadro, as pedras de gelo no café, o debate com Renato, o incidente com as mocinhas; não seria exagero dizer que a própria ida a Santo Amaro tenha sido um prenúncio. Seria injusto com meu amigo se lhe imputasse toda a culpa, afinal há aperitivos que selam o apetite.

A lucidez deveria ter me guiado a aprofundar as diferenças entre esses dois dias. “Catar o mínimo e o escondido”; como seria bom ter posto em prática esse aforismo machadiano. Mas não foi Machado a me dar as mãos, a mão ou mesmo a apontar-me o caminho com o indicador. Em vez da prática, preferi a teoria e comecei a divagar. Que bela palavra a lucidez! Ter luz para iluminar os caminhos escuros, romper os obscurantismos, pôr a ciência a serviço do saber. É por ela que se dá o entusiasmo (transporte divino, em grego)! – gritaria se fosse capaz. Mas… – poderia ter me perguntado – quem é Deus? Como diferenciá-lo do demônio? Como saber a diferença entre um entusiasmado e um energúmeno, o possuído pelo demônio? Temos as rédeas da vontade? Livre-arbítrio? O dáimon é a autenticação da liberdade ou o disfarce da submissão?

Preciso me conter. Importa menos adicionar o presente ao passado que o passado ao presente. Não posso assoprar ao velho Autran onde este pisou em falso, mas talvez ele me mostre como reencontrar o caminho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s