Indivíduo vs Estado em “Ninguém escreve ao coronel”

Não falha: toda sexta-feira, o protagonista se arruma com o que tem de melhor, despede-se da esposa, do galo de briga e ruma até o correio local na expectativa de, enfim, receber a justa aposentadoria. Em vão. Os três anos que lutou pelo estado mexicano contra as forças da Igreja na Guerra Cristera parecem de nada ter-lhe valido. O funcionário do correio, já entediado com a insistente ilusão do seu conterrâneo, dá-lhe a resposta que nomeia o filme: Ninguém escreve ao coronel.

 

Logo no início do filme vemos, então, delineado o jogo antitético entre o Estado e o indivíduo. Como a narrativa foca o ponto de vista do coronel, não demora para que nos simpatizemos com ele em sua desafortunada aventura contra a máquina pública pela qual ele pôs sua vida em risco e de quem espera, há vinte e sete anos (!), algo em troca. De certa forma, seu desapontamento representa a revolta interior que sentimos ao pagar impostos para um governo que tão pouco faz em troca. Mas se mirarmos o protagonista e aprofundarmos um pouco mais a análise de seu comportamento, veremos o perigo de nos harmonizarmos com ele.

 

Primeiramente, é importante notar que os vinte e sete anos de espera podem não só evidenciar o descaso estatal para com seu representado e ajudante, mas também revelam o estado de inércia do próprio coronel. Tudo indica que nessas quase três décadas ele pouco fez para conseguir seus direitos ou – vá lá – sua autonomia. Segundo, seu tolo e injustificado orgulho faz com que ele aja com menos racionalidade que o necessário. Terceiro, sua ingenuidade faz com que ele não distinga aliados e interesseiros. Não é exagero notar nesses defeitos a síntese de uma indesejável representação latina, a qual se personifica naquele ser crente e tranqüilo (porque acomodado e sem ânimo), passional (porque pouco dado ao raciocínio sensato) e tolerante (porque indisposto ao confronto intelectual). Que o coronel serve como símbolo não há dúvida, querer vê-lo como modelo, porém, é outra história.

 

O indivíduo que se quer livre, aquele que se deseja libertar um pouco mais a cada dia, não pode ver no coronel uma postura afim, pois este é a própria marca da anulação do indivíduo. Em outras palavras, o coronel é parte da massa inerte que o estado usa e deixa de lado, pois este confia na inação daquele. O máximo que podemos sentir é pena. Dó. Nenhuma outra nota se harmonizaria melhor.

 

Algumas resenhas vêem no filme um símbolo da esperança. Afinal, ela nos ajuda a suportar o peso da vida. O problema é que, se tal sentimento não nos impele à ação concreta, ele se apóia numa falsa expectativa. Imagem capital desse equívoco é Sísifo empurrando eternamente a pedra morro acima como se isso lhe trouxesse algum proveito.

 

 Sóifo e a rocha.

 

O que cabe, então ao indivíduo? No filme Os imperdoáveis, por exemplo, Clint Eastwood rascunha uma resposta. É o indivíduo, só ele, o responsável por seus atos e por seu destino, por opulento ou miserável que o seja. Talvez haja um certo exagero ou otimismo nesse posicionamento, mas ele nos aponta o caminho mais seguro. Não vale a pena depositar o futuro numa carta que nunca chega.

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5 pensamentos sobre “Indivíduo vs Estado em “Ninguém escreve ao coronel”

  1. A sua leitura do filme me parece ótima. Colocar o coronel em posição não de herói propriamente, mas na de um indivíduo anulado foi bem acertado.
    Mas, e o que dizer da mencionada (e tão apenas mencionada em seu texto) esposa do coronel? Não seria ela uma quase oposição ao comportamento acomodado do protagonista?

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