Visões de Liberdade

Ensaio do filme: Sociedade dos poetas mortos[1]

Relendo este antigo ensaio, noto nele a repetição de certas estruturas lógicas. Por um lado isso evidencia pressa e descuido, por outro a tentativa de esmiuçar um raciocínio coerente. Não importa. A essência permanecerá a mesma. [04/06/08]

John Keating 

Não é raro vermos o professor John Keating, protagonistado filme Sociedade dos Poetas Mortos, associado a um louvável modelo de educador: aquele que possui bagagem intelectual de respeito e, mesmo assim, não se furta a estimular a capacidade individual de seus alunos. Talvez tenha sido desse modo que sua imagem tenha se solidificado de 1989, ano da produção do filme, para . O que é certo, porém, é que essa imagem– idealizada, sem dúvida alguma – acaba nos ofuscando um grave problema da conduta didática, para não dizer ideológica, do personagem interpretado por Robin Williams.

O filme retrata a passagem do professor John Keating pela academia Welton, uma escola americana de elite, especializada em preparar seus alunos para as melhores universidades do país. O ambiente é propositalmente repressor e autoritário, com cheiro de escola velha e ultrapassada: o professor de ciências exige um sem-número de relatórios e trabalhos a seus alunos, o de latim insiste numa passiva tarefa de memorização (para não dizer decoreba), o de geometria mostra-se intolerantetodos, todos eles parecem ser mais dotados de poder que de conhecimento. Um prenúncio dessa realidade se dá logo na primeira cena do filme, quando vemos o detalhe de um quadro: entre dois rapazes (um loiro, o outro ruivo) que miram atentamente um ponto fixo fora do alcance de visão do telespectador um outro menino: cabelos escuros, olhos fechados, cabeça baixa. Até mesmo o cortede cabelo acentua seu desânimo: enquanto os outros dois portam um topete que lhes certo ar de otimismo e altivez, o rapaz do meio tem a franja caída na testa, misto de cansaço e submissão.

A vinda de Keating produzirá um grande contraste na vida daquelas jovens ovelhas. A calma e a segurança com que conduz suas aulas nada convencionais conquista a simpatia da maioria de seus alunos. Conquistar é o verbo. O desprendimento da sua didática, mais do que transmitida, lhes é imposta: desde o arrancar as páginas teóricas de um livro de poesia até a autodenominação que cria para atingir uma maior intimidade com os rapazes (“ó, Capitão, ó, meu capitão”), o que o professor estimula é mais a incompreensão que a liberdade.

O erro de Keating é fazer os alunos acreditarem que o acesso à cultura é antes uma submissão ao mundo dos adultos do que uma forma de amadurecimento. Ao invés disso ele poderia lhes proporcionar condições para questionarem concretamente os excessos de um sistema educacional conservador que mal compreende o que conserva; isso sim seria uma postura didática louvável. O problema da Welton, afinal, está menos no que ensina e mais no modo como o faz. Que a metodologia do doutor J. Evans Pritchard (“Understand the poetry”) seja contestável não dúvida. O grande problema é que ela não é contestada, mas sim negada, abolida sem mais nem menos, sem argumentos, sem tentar fazer os alunos compreenderem os motivos que levam Keating a desprezá-la. Ou seja, a primeira lição do “professorse baseia não no elogio da liberdade individual, mas sim na apologia de um egocentrismo obtuso e enganador.

A tática persuasiva é eficiente, não dúvida alguma. Com a promessa de transformar os alunos em livres pensadores (o que poderia ser esboçado, insisto, com um ensino que lhes fornecesse uma maior envergadura cultural), Keating acaba estimulando neles um espírito fechado a “regrasque, equivocadamente, crê pertencerem menos a toda uma cultura ocidental do que à escola em que leciona. Ou seja, ao contrário do que parece numa primeira análise, o que o professor incita é um misto de conservadorismo e conformidade. Conservadorismo por não incitar os alunos ao desafio do conhecimento, do verdadeiramente novopara eles; conformidade por fazê-los acreditar que não mal nenhum nisso. Este problema, como você deve ter notado, permanece atual.

Se por um lado a escola falha em não dar vida ao ensino, por outro Keating falha em crer que o problema seja o conteúdo. É claro que não foram as aulas de Literatura que levaram Neil Perry, seu aluno, ao suicídio(o pretenso clímax da história), mas certamente serviram de estímulo a muitos dos atos irresponsáveis de Charlie Dalton (o aluno que foi expulso). Ironicamente, é ao repreender Charlie que o professor sua melhor lição (com um atraso injustificável, diga-se): “sugar a essência da vida não significa afogar-se nela […] há hora para atrever-se e hora para ter cuidado. O sábio sabe escolher a hora apropriada”. Essa frase caberia muito bem na fala do verdadeiro educador. Esse, aliás, seria o recado de maturidade de que os alunos mais poderiam tirar proveito; saber que mais importante que uma simples contestação é arquitetar modos para que esta possa se realizar.

    Novembro de 2005.

 




[1]Sociedadedos poetasmortos(EUA, 1989)

 

Direção: Peter Weir

Produção: Steven Haft

Elenco: Robin Williams (John Keating), Robert Sean Leonard (Neil Perry), Ethan Hawke (Todd Anderson), Josh Charles(Knox Overstreet), Gale Hansen (CharlesDalton).

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4 pensamentos sobre “Visões de Liberdade

  1. Não acho, ele deixa claro porque J. Evans Pritchard, ele deixa claro que poesia vai além de números…

    E ele ensina o conteúdo, na verdade faz mais que isso, ensina os seus alunos a o buscarem.

    Ele os ensinou a pensar pro si mesmos ao invés de buscar fórmulas prontas e explicou o porquê disso.

  2. Pingback: Idealizações e ideais « Mutuca

  3. Estava lendo alguns de seus textos e comecei a ler oque você escreveu sobre cinema,é um assunto que eu aprecio bastante.
    Foi interessante ler oque você escreveu sobre este filme. Muitas criticas que lemos sobre cinema deixam desejar,eu nunca tinha entrado em contato com as ideias um educador sobre este filme.
    Vou rever-lo e pensar mais sobre o assunto.
    Ruth

  4. Pingback: Saber o Sabor « Mutuca

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