Amar não é…

 

Por Amanda Rossetto (mandinhaross@gmail.com)

A idéia do amor vem sendo propagada há milênios. Irracional, inexplicável, irreprimível… De Camões a Rita Lee, todos têm algo a dizer sobre o mais nobre dos sentimentos. É um querer mais que bem querer. É para sempre. Essência do altruísmo, manifestação de Deus em seus filhos… Na prática, não é nada disso. Aos mortais, filhos do cianeto e do amianto, o amor como descrito acima é mera fantasia.

Apesar de haver sempre alguma loucura no amor, há também sempre alguma loucura na razão, e é por via da última que ele vem sendo dissecado. Voltaire uma vez afirmou ser a paixão uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma – mal sabia ele estar tão perto da verdade. Assim como analgésicos, amar desencadeia uma série de reações fisiológicas no corpo humano. Cientistas afirmam ser uma das causas da paixão o baixo nível de serotonina no cérebro; e já existe registro de feromônios capazes de induzir o amor. Claro, amar não é apenas uma questão de Química. Em meio a neurotransmissores e hormônios, é preciso haver o desejo, ou melhor, a carência.

Segundo Platão, amor é o desejo por algo que não se possui, sendo nesse sentimento de falta o amado tido como complemento. Uma pessoa só nunca poderia ser inteiramente feliz, pois sempre careceria de algo. Logo, todo amor é antes amor-próprio, já que se ama não em prol do próximo, mas em benefício de si. Amam-se as sensações agradáveis que o amor produz; é amado o desejo, não o desejado – talvez por isso esse mude com tanta freqüência.

Realmente, o amor é eterno enquanto dura – o que nos tempos atuais é cada vez mais efêmero. Troca-se de parceiro tão depressa quanto de modelo de celular, muitas vezes amando com igual intensidade tanto a nova companhia afetiva quanto a telefônica. Faz sentido o fenômeno: se amar consiste em olhar juntos para a mesma direção, a qual na sociedade contemporânea é o espelho, o amor hoje em dia é um dos mais duradouros – o reflexo dos próprios anseios está sempre presente na vida de cada um.

Amar é divino, o homem é animal. Como tal, vem utilizando o amor como passatempo, droga momentânea a entorpecer necessidades pessoais de afeição e aprovação. Banalizado, industrializado, deturpado. Amar não é racional. Amar não é egoísta. Amar não é passageiro. Amar não é. Mas são as mentiras sinceras que interessam.

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Um pensamento sobre “Amar não é…

  1. grande garota essa!!….caminhou com naturalidade desde Nietzsche(Amam-se as sensações agradáveis que o amor produz) até Rita Lee(Amar é divino, o homem é animal),que sempre achei terem opiniões diametralmente opostas sobre o assunto amor.Gostei do estilo dela!!
    ahhh…e concordo com suas idéias!…amor é nada…realmente nada!!…um placebo para a alma!

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