Passagem da vida

CMSK (cintiama@globo.com)

 

“O encanto da Londres moderna não é ser construída para durar, é ser construída para passar”. Virgínia Woolf, em Cenas Londrinas, explica um dos motivos pelos quais é tão apaixonada pela capital inglesa: esta não fica presa ao passado, mas está constantemente  mudando. De fato, tal característica é fascinante; trata-se de um desperdício estacionar a vida no que já foi, nos que já foram e em tudo que poderia ter sido, quando se pode deixá-la passar para que se aproveitem todas as novas experiências e oportunidades que ela pode trazer. Eis a beleza do presente: apenas nele a vida tem movimento; passa, rumando para o futuro e deixando o estático passado.

 

Deixar aquilo que passou não significa esquecer, mas compreender que a história não pode ser mudada. É claro que estudar e entender experiências passadas é importante para aprender com os erros antes cometidos e entender por que eles aconteceram, por exemplo. Por outro lado, cabe lembrar que as pessoas recorrem ao passado, na maioria das vezes, para buscar refúgio do presente ou para entender as origens de determinadas situações atuais. Assim, a grande relevância dele se dá em função do presente.

 

O presente é o único tempo passível de ser vivido deveras, de modo que aqueles que não o acompanham estão dessincronizados com a realidade. Por causa disso também, apenas no presente pode-se ser feliz por inteiro. Aqueles que foram felizes no passado e estão miseráveis no agora tendem a viver das boas lembranças. Ocorre que isso muitas vezes impede que eles vejam as novas possibilidades de serem felizes, uma vez que a história não se repete e, para eles, a única felicidade é a que viveram e à qual ainda estão presos. Analogamente, existem pessoas que projetam para si um futuro glorioso, mas agarram-se tanto a ele que não percebem alternativas. As escolhas de cada um devem ser feitas, claro, tendo-se em vista o passado e o futuro, mas sem que se esqueça que é o que realmente importa é ser feliz no presente. A felicidade, bem como todos os sentimentos bons, atemporais e universais, deve ser “eterna enquanto dure”, nas palavras de Vinícius de Moraes.

 

Tais sentimentos, e o amor é um bom exemplo, não mudam, por mais que o tempo passe, mas só podem ser vividos enquanto duram; e não é sempre que eles se manifestam na alma humana. Por isso o homem está sempre a buscá-los: ele quer amar, quer ter esperança, quer ser feliz, e planeja seu futuro de modo que este seja repleto dessas emoções. Entretanto, na verdade, o que se busca é garantir que o futuro seja bom porque um dia ele será vivido, será presente.

 

Há pessoas que vivem de lembranças, se alimentam daquilo que perdura, outras, por sua vez, vivem em função do futuro, mas dessa forma elas o estão adiando, pois se agarram a um projeto que, por mais que seja completado, não garantirá a felicidade, objetivo maior da vida. A vida ganha sentido à medida que pode ser, de fato, vivida e sentida. O encanto da vida não é ser construída para durar, nem ser construída para um dia ser vivida; é ser construída para passar, e assim permitir que cada um aproveite o máximo que ela pode oferecer.

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2 pensamentos sobre “Passagem da vida

  1. Sensacional o texto. Ele mostra como aquela máxima “Viva o momento” que muitos consideram insensata e irresponsável pode ser coerente e analítica.

    Parabéns mesmo.

    Um abraço.

  2. Pingback: Cultura idealizada? « Mutuca

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