Cultura idealizada?

O diálogo que se segue foi motivado pelo texto Limitação Cultural.

 

Fonseca: Li o texto. Achei normal. Achei “Passagem da vida” e “Crescer dói” mais impactantes e bem escritos.  Esse texto novo está normal. Para mim não há nada que salte muito aos olhos e, até mesmo, achei tendencioso. Mas tem um porém aí: Minha capacidade analítica não é lá muito boa. A cada aula de leitura e interpretação de textos eu vejo isso. Às vezes, eu tenho dificuldades até em achar os movimentos do texto, oras!

Então, é melhor perguntar: Que méritos você viu no texto? Você disse antes que colocaria em seu blog textos que lhe agradassem em um ou outro aspecto. Falando desse especificamente, qual foi o diferencial? O que o motivou a escolhê-lo?

João das Flores: Tendencioso em que sentido? O texto trabalhou bem o conflito. Ele é linear, pois vale-se de uma lógica bastante racional, quase matemática. Nos outros havia mais poesia, não discordo.

Infelizmente, agora não posso colorir o texto acentuando as oposições.

Fonseca: Assumindo que adjetivo é uma palavra que caracteriza, eu achei o texto tendencioso por que, na hora de trabalhar o conflito, as palavras usadas para quem busca a cultura são positivas e para as pessoas que não buscam a cultura, pejorativas.

Aqueles que não buscam a cultura estão classificados como imediatistas, simplistas, acomodados etc.

Foi isso.

João das Flores: Wall, cultura vem de cultivo, logo, impossível não associá-la ao inverso de rapidez, imediatismo etc.

Você confunde ter opinião com ser tendencioso. Na opinião de quem escreveu o texto, a cultura é algo positivo, por isso a seleção dos vocábulos adequados a expressar essa idéia.

Dizer que o comunismo foi uma catástrofe não é, necessariamente, ser tendencioso. Seria se o indivíduo, para isso, idealizasse o capitalismo, escondendo os defeitos deste.

Fonseca: Seu exemplo do comunismo e a etimologia esclarecem um pouco.

O que me fazia achar o texto tendencioso era uma reação antagônica que eu via nele. A cultura como boa e o imediatismo como ruim. Sem que este tivesse méritos nem aquela defeitos.

João das Flores: Qual seria o defeito da cultura?

Fonseca: Eu lhe faço a mesma pergunta de forma inversa. Seria a cultura perfeita?

Cultura extensa como citada no texto exige muito tempo e dinheiro. E vamos fugir dos extremos aqui. Veja, por exemplo, a média de estudos mesmo nos países desenvolvidos. O número de pessoas com doutorado é bem menor do que o número de bacharéis. Por que isso? Seria simples preguiça de continuar os estudos? Ou há motivos mais práticos que impediriam o progresso intelectual?

João das Flores: Se cultura é cultivo, trata-se de uma ação que visa a obtenção de um lucro futuro. Sabendo que perfeito é aquilo que já está feito, pronto, acabado (em outras palavras, perfeito é aquilo que não evolui), o indivíduo que busca aumentar sua cultura tem plena ciência de que ele próprio não é perfeito – e mais: ele sabe que a perfeição é uma noção abstrata que jamais será alcançada. Não à toa, ele deixa essa questão metafísica de lado e busca conhecer um pouco mais aquilo que de fato lhe importa.

Note que a perfeição, ou o senso de perfeição, cabe mais a mentes acomodadas, aquelas que se consideram satisfeitas – quem busca a cultura foge da saturação mecanizada e massificada; sempre há algo a aprender.

Assim como na agricultura, a aquisição cultural está sujeita a boas e más colheitas. Mas isso não significa que o indivíduo deixará de plantar. Olhar, simplesmente olhar o terreno, não traz frutos.

Acrescente a isso que a cultura não precisa ser algo oficializado. Ela não se restringe a diplomas ou títulos de louvor. O fato de o indivíduo não freqüentar mais escolas não significa que ele seja um acomodado (Alberto Caeiro está aí de prova).

Fonseca: Humm, note que a minha pergunta sobre a perfeição da cultura levou a um enunciação de suas qualidades e a questão metafísica de perfeição.

Acho que apesar de interessante a pergunta e a resposta que você deu – gostei dos exemplos – cabe ainda a pergunta: Não há defeitos práticos na cultura? Não para dizer que ela não seja perfeita, mas uma explicação mais vertical do que falta de tempo ou acomodamento para não buscá-la?

Sim, há indivíduos ilustres sem diplomas não discordo. Usei o exemplo do doutorado por que para obter um é necessário muito esforço e estudo.

Uma digressão: Saindo da esfera da perfeição da cultura e entrando na de perfeição pura e simples: Qual é a metáfora, ou qual o significado escondido no nome do tempo verbal: “Pretérito mais-que-perfeito”?

João das Flores: Pretérito perfeito: passado terminado. (Você chegou.)

Pretérito mais-que-perfeito: passado terminado antes do pretérito perfeito. (Quando você chegou, eu já comera o bolo.)

Fonseca: Perdoe a minha insistência em procurar um defeito na cultura.

Eu fiquei tão espantado com a sua pergunta: “Qual seria o defeito da cultura?” que me coloquei a matutar sobre isso. Mas qual é o defeito mesmo?

Na Filosofia nunca há consenso. Há sempre um contra argumento, um filósofo que discorde, uma briga, um debate. Então, quando eu não achei um defeito na cultura fiquei pasmo.

Agora nesse caso da cultura só consegui pensar em defeitos relativos a ela, mas não em defeitos nela em si. Por isso o meu espanto e a pergunta sobre a perfeição.

É isso. Não vejo nenhum. Quem sabe em minhas leituras isso se solidifica ou eu acabo pensando em algum?

Até mais.

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Um pensamento sobre “Cultura idealizada?

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