Procura constante

Renata Boldrin de Araújo

       

      Os conceitos de amor e felicidade estão presentes na sociedade há séculos. Tema não só bastante utilizado por escritores e músicos, mas também discutido à exaustão por inúmeros filósofos, o amor já foi visto como um caminho ora para a felicidade, ora para a destruição. Todas as contradições geradas na busca da definição perfeita para esses conceitos derivam de uma só verdade: não sabemos ao certo o que é de fato a felicidade e estamos longe de conhecer aquele amor sublime que aparece em livros. Assim, na busca por satisfação pessoal, vivemos, freqüentemente, relações superficiais, confundindo amor com paixão.

         A visão da sociedade em relação ao amor mudou com o tempo, assim como a sua visão em relação ao casamento. Antigamente, o casamento era, muitas vezes, compreendido como um jogo de interesses, colocado à parte do amor. Com as mudanças que ocorreram na sociedade, entre elas a crescente autonomia da mulher, o casamento passou a ser opcional, mas mesmo assim ele gera, freqüentemente, uma grande expectativa de conquista da felicidade. A frustração pela qual muitos casais passam ao encontrar uma realidade diferente é, em parte, responsável pela crescente procura por relacionamentos alternativos que lhes satisfaçam.

         Principalmente no mundo ocidental, a crescente liberdade individual e a crise de valores morais mudaram o foco na procura por felicidade. Tentamos encontrá-la na realização profissional, na obtenção de bens materiais que promovam conforto e na vivência de relações amorosas que nos satisfaçam (não sendo, necessariamente, duradouras). Em outras palavras, vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista, consumista e com relações sociais cada vez mais superficiais e efêmeras. Nesse contexto, o conceito de amor e felicidade é usado, por muitos, incorretamente.

         Para Platão, o amor é o desejo por algo que não se possui e, dessa forma, uma pessoa sozinha não poderia ser inteiramente feliz, pois sempre careceria de algo. Podemos pensar, então, que a procura por amor é, na verdade, expressão do amor-próprio, uma vez que, na maioria das vezes, não amamos uma pessoa pelo que ela é, e sim pelas sensações que ela nos provoca. Afinal, o sentimento que chamamos de amor está ligado a uma série de reações fisiológicas, desencadeadas por hormônios e neurotransmissores. A verdade é que nomeamos, muitas vezes, paixões efêmeras de amor – assim como alegrias superficiais, de felicidade. Entretanto, talvez seja essa felicidade menor, mundana, imperfeita – mas concreta – que nos faz manter as relações sociais.

         Assim, apesar de nem sempre encontrarmos o amor e a felicidade tal como os idealizamos, é a procura por eles que nos faz trocar experiências com as outras pessoas. Dessa forma, o amor continuará sendo tema de músicas e livros enquanto a humanidade existir; e a procura por felicidade, através dele ou não, continuará movendo os indivíduos.

 

 

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