Das Matizes

 

A penumbra guarda um estético segredo […]

 

Madeira, fúcsia, cinza ardósia, azul furtivo… não importa. Se você enxergasse todas as coisas num mesmo tom de qualquer cor, você seria cego. Qualquer um de nós seria. A elucidação, das cores e das idéias, se dá por contraste.

 

Antes de pôr qualquer idéia ou sentimento hipotéticos no papel, o indivíduo deveria se questionar da relevância de fazê-lo; o tato analisaria os altos e baixos relevos. Afinal, por que gastarei meu tempo escrevendo a importância de uma árvore? Isso só fará sentido num universo em que as árvores forem desprezíveis. Talvez até sejam, mas nunca é demais elucidar o leitor a respeito desse contexto, já que ninguém garante que ele está por dentro daquilo que pretendemos esmiuçar. Mas e se estivermos num contexto em que as árvores já são valorizadas? Se já tiverem regido loas e loas a seus frutos e sombra? Restará ao escritor atento uma infinidade subjetiva de motivos: a consistência de suas raízes, a retidão ou obliqüidade de seu tronco, o ímpeto de seus galhos, o balançar preciso e delicado de suas folhas: as analogias e as representações simbólicas que uma árvore encerra sem jamais se encerrarem. Motivos não faltam a olhos aventureiros.

 

Há, certamente, moléstias a serem combatidas. A miopia pode ser ofuscante a ponto de o indivíduo só focalizar aquilo que está dentro de si, enxergando não com os olhos, mas com o cérebro – o que pode ser um convite para o preconceito. Alberto Caeiro, heterônimo e mestre de Fernando Pessoa, concordaria com a importância de experimentar a vida, saborear os dias, usufruir dos instantes. Reconhecer os sentidos deveria ser a educação primária de todo connaiseur. Ao contrário de nos acomodarmos com o mundo umbilical em que imaginamos viverem as crianças pequenas, devemos tocar a terra, deixar o rosto à chuva, respirar o vento. O indivíduo não se distingue se não olhar para além dos seus limites.

 

Já a moléstia diametral, se assim podemos dizer, é menos uma nêmesis que outra face da mesma moeda. No universo simbólico, pelo menos, miopia e hipermetropia muitas vezes sugerem saídas quando são, na verdade, espécies de um mesmo gênero de enfermidade. O hipermetrope enxerga – e critica – aparentemente bem o que está distante, mas não possui nitidez exata do que lhe está mais próximo (e o que lhe seria mais próximo que o próprio eu?). Sem diagnosticar esse problema, sua leitura de mundo obviamente torna-se imprecisa, pois ele tenderá a acreditar numa objetividade pura, numa racionalidade às cegas, e – por mais paradoxal que isso possa parecer – a crença numa objetividade totalizante e plena é a mais curiosa e irônica das subjetividades.

 

Assim como há diversos exercícios de focalização, há diversos métodos investigativos. Uma racionalidade tosca e distorcida seria aquela que se julga onipotente. Se do positivismo é possível retirar boas lições (a busca por métodos mais rigorosos, a sede por fórmulas mais precisas), é de seu contraexemplo que devemos tirar um aprendizado dos mais valiosos: o ceticismo não prescinde da intuição. Mesmo um cientista ateu como Albert Einstein sabia que o indivíduo não se resume a um amontoado de conhecimentos e informações. É a seleção, a ordenação e a releitura – muitas vezes imprevisível e improvável – desses dados que faz com que o pesquisador vislumbre uma centelha daimônica, uma faísca da tocha de Prometeu – ou, mitologias de lado – uma idéia.

Astigmatismo, hipermetropia, miopia, cegueira. A simbologia óptica abarca um mundaréu de entraves concretos. De análises mal feitas à preguiça analítica, passando por preconceitos e subjetivismos, todos esses problemas passam pelo descuido tátil ao qual é fácil nos acostumarmos. Escapar é possível? O percurso é obscuro, talvez imensurável. Certamente não é fácil conduzir o caminhar, mas – feliz e infelizmente – sabemos que ele se dá sempre por contraste com a inércia.

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9 pensamentos sobre “Das Matizes

  1. Não poderia haver pessoas que dissessem: “Por que você gasta seu tempo escrevendo sobre raciocínio?”, não é o meu caso, mas do mesmo jeito que para uns escrever sobre árvores é uma perda de tempo, escrever sobre RACIOCÍNIO e CONTRASTE também pode ser uma perda de tempo, não?
    Você, ao mencionar os míopes, hipermetropes e etc., quer “compará-los as pessoas bitoladas, ignorantes, que não saem para o Mundo”, e assim, não conseguem fazer o CONTRASTE?

  2. – Por que escrever sobre raciocínio?
    – Trata-se da maior virtude humana, ainda que seja posta de lado, ainda que os instintos animais predominem na nossa cultura do dia-a-dia.
    – Escrever sobre árvores é perda de tempo?
    – Óbvio que não. Em momento algum o texto sugere isso. A questão é que, ao escrever, o indivíduo deve saber valorizar seu texto. A técnica do contraste é uma das melhores ferramentas para conseguir isso. Mas depende de uma correta interpretação daquele que lê.
    – Por que, então, você usou o exemplo das árvores?
    – Note que o trecho “a consistência de suas raízes, a retidão ou obliqüidade de seu tronco, o ímpeto de seus galhos, o balançar preciso e delicado de suas folhas” faz referência não só ao objeto (árvores), mas também ao próprio sujeito. Trata-se de um exemplo prático de analogia, conforme é sugerido na seqüência do parágrafo. O texto procura pôr em prática a própria tese.
    – Não entendi a analogia com os problemas de visão.
    – Cego (aquele que sequer compreende a questão), míope (aquele que se recusa a olhar o objeto, o que se limita aos achismos), hipermetrope (aquele que acredita na possibilidade de uma análise sempre 100% objetivista), astigmático (aquele que tenta analisar, mas distorce a realidade).

  3. No meu ponto de vista, o texto remete à idéia de que superar preconceitos na busca da evolução individual certamente é um dos maiores desafios que o homem tem pela frente.
    A própria erudição, num primeiro momento, se coloca como libertação, mas logo depois, transforma-se em limites, pois muitas vezes, confundindo informação com conhecimento, e conhecimento com auto-conhecimento, o homem acaba como quê entorpecido pelos conceitos que elevou às alturas, quando na verdade deveriam ser tratados apenas como meras etapas ou tipos de formação intelectual, que não têm sentido pleno se afastadas da experimentação da vida.
    Viver a vida, no sentido pleno, ou seja, não se furtando ou sonegando à sí proprio as experiências que podem ser vividas no dia a dia, representa uma possibilidade que coloca o homem no caminho da plenitude de sua condição, que sempre é individual e única para cada um, que descobrirá a grande dimensão disso quando estiver em condições de apreciar aquilo que está além de nosso umbigo ou de nosso nariz.
    Parece que o homem moderno, egoísta e imediatista, parece depender cada vez mais depender de um “óculos” para corrigir a visão da vida, pelo menos a visão deformada ou pelo menos incompleta que temos da vida, dos outros e de nós mesmos, em razão das deficiências que o ego acaba provocando. Tal como a metáfora da hipermetropia, miopia, astigmatismo etc.
    Parabens pelo texto, que sugiro coloque no http://www.overmundo.com.br
    Att,
    Marcelo Augusto Gonçalves Vaz
    Pai do Henrique

  4. Caro Marcelo,

    seu segundo parágrafo me lembrou uma etimologia que eu adoro explicar em sala de aula. Perfeito, em latim, significa aquilo que já está feito, aquilo que está pronto. Quando aplicamos esse adjetivo a seres humanos vivos, mais do que um elogio, atribuímos uma condenação (você não evoluirá mais, meu chapa). A acomodação é de fato um grande perigo.

    Também gosto de pensar em experiência como experimentação. Provar os sabores do mundo, treinar o paladar simbólico; conhecer culturas para poder selecionar é um grande trunfo num contexto em que muitos gostos são construídos sem se conhecer de fato os sabores.

    Quem ignora o desconhecido sonega a si mesmo uma parte da vida? Bom aforismo. Gostei mesmo.

    Muito obrigado pela leitura (e também por ter colocado o Henrique na escola em que trabalho).

  5. Olá Rodrigo,

    Foi muito bom aceitar o seu convite à leitura desse texto. Ele está muito rico, cheio de disparadores reflexivos.
    Realmente, para conseguirmos sentir o mundo temos que ousar experimentar, usar todos os sentidos,assim como as crianças.
    No meu dia a dia tenho que ouvir as pessoas despida de qualquer preconceito para tentar entedê-las. É muito difícil e muitas vezes sou a míope relatada por você.
    Esse caminhar “em contraste com a inércia” é difícil, mas vale a pena, pois dessa forma conseguiremos ver o contraste, sentir os relevos e alcançar uma totalidade de sentidos.
    Apreveito para agradecer o grande professor que você foi e é para mim.

    Abraços!

  6. Objetividade e subjetividade, o todo e a parte, e por que não hipermetropia e miopia?
    È notável que segue a idéia contida no segundo parágrafo de seu texto ao explorar de forma inesperada conceitos físicos e adequando-os a uma infinidade de possibilidades interpretativas – o que acaba complementando diversos contextos. De fato, “motivos não faltam a olhos aventureiros”.
    Neste parágrafo mesmo, ao falar das árvores, logo senti um toque de Caeiro. Tão logo também isso se confirmou posteriormente, quando o cita. Mas relendo, percebi que nem precisava do parágrafo seguinte para concluir isso; notei a utilização palavra “tato” e isso já era o suficiente. É admirável o modo como emprega as palavras; já com outra leitura, encontrei várias outras que se adequam perfeitamente ao texto, como “elucidar” e “ofuscar”.

    Buscar um equilíbrio entre os opostos que ora se confrontam é de fundamental importância para se construir uma visão com maior nitidez. Olhar apenas para o próprio umbigo é tão efetivo quanto ignorá-lo.
    Impressiona o modo como o texto é rico podendo ser lido de diversas maneiras. Na minha leitura, é metalingüístico ao apresentar esse desejo de “olhos aventureiros”, de fuga do comum, de busca pela chave que desfaça a penumbra e que revele o segredo. É engajado ao fazer a critica ao comodismo, muitas vezes imperceptível, seja com a falta de ação ou com a ineficácia da mesma quando feita superficialmente. E vou além, mesmo podendo estar errado, dou também ao texto um caráter cotidiano: vejo muito da figura do “fofoqueiro” no hipermetrope; aquele que critica bem os outros, mas não julga a si próprio, não aceitando críticas alheias – logo, considerando-se onipotente.

    Gosto de pensar que no começo via tudo em preto. E aos poucos fui dando cores a este universo que muitas vezes, confesso, parece ofuscante. Mas são textos assim que me fazem abrir melhor os olhos, preenchendo o horizonte com as cores contrastantes da reflexão.
    Obrigado e parabéns pelo texto, Rodrigo.
    Abraço, Saka.

  7. Pingback: farsa da boa preguiça « Mutuca

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