Sobre “Benjamin Button”

 

“A vida é breve” – Há mais de dois mil anos, Hipócrates já havia percebido o óbvio: um dia deixaremos de existir. Nosso corpo, nossos gestos, nosso olhar, tudo aquilo que hoje é nosso, amanhã só restará em retratos e lembranças. Estamos sempre ao alcance da ameaçadora sombra da morte; não há o que fazer. “No fim, todos vamos para o mesmo lugar, apenas pegamos caminhos diferentes para chegar lá” ouve-se em certo momento de O curioso caso de Benjamin Button, este sutil filme sobre os caminhos da vida.

 

A sinopse é simples: Benjamin é um sujeito que nasce velho e, à medida que o tempo passa, começa a rejuvenescer. Com esse esquete, seria possível fazer uma comédia tosca como De repente 30 e coisa do tipo, mas felizmente não foi isso que aconteceu. O filme começa em meados de 2005 num hospital de New Orleans, onde uma velha senhora (Dayse) sabe estar vivendo seus últimos momentos. A data e o lugar não foram escolhidos por acaso; há um evidente paralelismo semântico: enquanto Dayse aguarda a iminência da morte, todos os demais vivem a expectativa do Katrina, furacão que destruiu parte da cidade naquela época – seria a primeira de muitas associações envolvendo morte e mar.

 

A personificação, por si só, diriam alguns, é mero enfeite, chavão, arremedo de poesia. De fato assim seria se a metáfora se perdesse do todo, o que felizmente não acontece. É importante lembrar que a personificação dá corpo a substantivos abstratos: os ventos são a respiração ofegante da morte; a umidade, sua pesada sombra. Evidência flagrante de que a analogia não fora escolhida ao acaso se encontra na cena seguinte, em que se narra a história de um relojoeiro cego que, desolado com a morte do filho na Primeira Guerra Mundial, constrói um relógio cujos ponteiros caminham no sentido anti-horário – símbolo não só de sua revolta contra a violência desumana das batalhas, mas também de seu lamento diante da implacável e irrevogável força do tempo. Tendo perdido seu norte, desorientado em seus ponteiros, Mr. Cake, o relojoeiro, aponta a bússola para o grande e misterioso mar, onde desaparece.

 

A vida é breve, vamos todos para o mesmo lugar. A cabeça da criança envelhecida, a quem desde sempre foi dito que viveria pouco, deveria se inundar do mais profundo e pesado pessimismo. Se ela tivesse lido Sêneca, este lhe diria que “não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela”.[i] Como Sêneca não aparece no filme, é com outras pessoas que Benjamin começa a aprender a lição. Com a velha de cujo nome ele não se recorda, aprendeu que, mais importante que tocar bem o piano, é sentir a música que está tocando; com Mr. Oti, um pigmeu africano que entre inúmeras outras aventuras se fingia macaco assustando crianças brancas num zoológico, aprendeu que o mundo não se restringia à casa de velhos em que morava; com o capitão Mike, ele aprendeu que deveria ir em busca de seus sonhos. Em suma, o recado do pensador romano, de um jeito ou de outro, o alcançou; Benjamin percebeu que, sendo a vida incerta, o melhor seria saboreá-la da melhor maneira possível.

 

Não cabe aqui detalhar o enredo do filme, no entanto alguns pormenores merecem destaque. Capitão Mike, por exemplo, tem tatuado no peito a imagem de um beija-flor. O filme nos entrega de lambuja um significado importante: de acordo com o homem do mar, o pássaro morre assim que se vê impedido de bater suas asas, simbolizando a importância da liberdade à nossa natureza. No entanto, não é só isso. As pequenas asas daquele pássaro minúsculo descrevem no ar o oito deitado; uma pequena metonímia ecoando a mensagem: nos mínimos detalhes, podemos encontrar o infinito. Ainda que soe a breguice, o problema é atual e constante: quantos de nós não deixamos de lado o mundo real e concreto para nos evadirmos num devaneio que nada de proveitoso nos traz? Nas palavras do poeta Bruno Tolentino “o mal do pensamento é abandonar o efêmero, trocá-lo pelos ossos do Ideal”.[ii] Como bem notou o crítico Luiz Carlos Merten, a famosa cena em que Benjamin e Dayse se miram no espelho, no exato e único momento em que ambos estão com a mesma idade, também remete à importância da concretude, de curtir o momento presente, sem que as abstrações (sejam disfarçadas de saudades, sejam disfarçadas de planejamento) nos raptem.

 

Estaríamos aqui no segundo terço do filme. Muito mais poderia ser dito, mas – ora bolas! – deixe este texto de lado e vá ao cinema. Nenhum manual substitui o próprio paladar.


[i] Sobre a Brevidade da Vida (tradução de Lúcia Sá Rebelo). São Paulo: L&PM, p.26.

[ii] O Mundo como Idéia. São Paulo: Globo, p. 393:

Porque pertence ao instinto natural

desejar, cortejar o passageiro,

o coração em busca do real

é como um perdigueiro atrás do cheiro

 

fugitivo da vida, um perdigueiro

imaginando a presa. Mas o mal

do pensamento é abandonar o efêmero,

trocá-lo pelos ossos do Ideal,

 

 e o pobre perdigueiro pouco a pouco

desiste da aventura da caçada

e desenterra um ossuário. Rouco

 

de ladrar noite adentro contra o nada,

no coração há um perdigueiro louco:

o que Uccello soltou contra a alvorada.

 

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7 pensamentos sobre “Sobre “Benjamin Button”

  1. 1º P.S.: “No fim, todos vamos para o mesmo lugar, apenas pegamos caminhos diferentes para chegar lá” – A frase é boa, mas erra a ênfase. Os caminhos diferentes é que tornam a vida interessante.

  2. Eu não gostei do filme. Andei lendo um pouco sobre o conto original e percebi que a história foi muito alongada para caber num filme de quase 3 horas.

    Pecaram nisso, pois em muitos momentos parecem pegar na mão de quem assiste ao filme e guiar pela história como se não fôssemos capazes de entender as sutilezas por nós mesmos. Geralmente filmes que pretendem ser dramas ou romances acabam por cair no aspecto do kitsch por criar situações de certa forma absurdas, adicionando um simbolismo afetado, um melodrama interminável ou mesmo fugindo muito do real (mas não no sentido positivo que era de se esperar de uma história com elementos de fantasia).

    Veja, por exemplo, uma história romântica pé no chão como Encontros e Desencontros e compare: no quesito de encantamento o filme de Sofia Coppola supera Benjamin Button, sendo que não precisa mostrar muito para isso.

    Acho que essa é minha principal reclamação quanto ao filme: não souberam utilizar o elemento fantasioso.

    É um pecado colocar um elemento sobrenatural numa trama e não utilizá-lo! Pode parecer contraditório eu exigir mais sutileza do filme e dizer que deixaram o elemento sobrenatural de lado sendo que toda hora somos lembrados que o Benjamin Button rejuvenesce, mas para quebrar essa idéia do paradoxo, podemos lembrar de filmes como Os Inocentes, onde praticamente nada sobrenatural é mostrado (é apenas sugerido) e a história não conseguiria progredir sem que essa sugestão tão pequena não existisse. Em Benjamin Button, não importa o fato dele rejuvenescer pois a história trata da importância da efemeridade na percepção humana das coisas que consideramos belas, afinal, ninguém conseguiria comer bolo de aniversário todo dia sem enjoar, mas se colocássem qualquer outro personagem no lugar do personagem do Brad Pitt, o efeito seria o mesmo. Independentemente se o outro personagem fosse alguém em estado terminal, ou uma pessoa que estivesse de partida para qualquer lugar sem esperança de voltar ou qualquer coisa do tipo.

    Mas não posso dizer que tudo no filme é ruim! Acho justa a indicação da atriz que fez a Queenie como melhor atriz coadjuvante, uma vez que os coadjuvantes são a melhor parte do filme (em especial o Sr. Gateau, que nos presenteia com uma cena digna de um filme de Tim Burton) e também em termos técnicos o filme brilha.

    A trilha sonora é boa, a fotografia é bonita (embora não seja exatamente algo original), as atuações são boas, mesmo as dos protagonistas (meu problema é com os personagens, não os atores), os cenários e figurino de época e, claro, a maquiagem. Tudo é muito bonito em termos visuais. Mas não acho que esses pontos positivos consigam salvar um roteiro que possui alguns momentos constrangedores (era necessário mostrar tantas vezes a imagem do beija-flor?).

    A mensagem do filme é boa, mas suspeito que em termos de gosto eu prefira algo mais “doloroso” para tratar de relacionamentos regidos pela onipresente face do tempo, como o nacional LavourArcaica, que além de excelente consegue mostrar ao povo que só vê Benjamin Button pelas indicações ao Oscar (mesmo quem gosta do filme por variados motivos sabe que muita gente foi ao cinema vê-lo por causa do recorde de indicações) que o prêmio da Academia não é algo tão importante quanto pensam.

    Entre as 13 indicações ao Oscar de Benjamin Button e as 0 indicações de LavourArcaica, escolho LavourArcaica pelo resto do tempo que me resta.

  3. Para quem não conhece, eis o trecho a que se refere o Amósis:

    “O tempo é o maior tesouro que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo. (…) rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira. O equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca, o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa (…) pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.” (in Lavoura Arcaica)

  4. Excelente filme. Mesmo tendo 2:40 h, consegue ser interessante do começo ao fim. E acho que acertou em mostrar Benjamim desde o seu nascimento, como uma criança com sintomas de velhice, mostrando o seu pai, que mesmo o abandonando o visitando, entre outras coisas.

  5. Pingback: Adjetivações « Mutuca

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