Focalizando a Montanha

Billy Wilder produziu e dirigiu este fracasso de bilheteria logo depois de Crepúsculo dos deuses e pouco antes de Inferno n 17. Algumas pessoas tentaram ver nele um certo brilho satírico, mas na verdade é apenas desagradável, de um sociologismo presunçoso. Kirk Douglas faz um repórter carreirista de Nova York tão oportunista que quando chega a um lugar onde o teto de uma caverna desmoronou, sepultando um homem, no Novo México, dá um jeito de retardar o resgate para poder explorar a história. O homem soterrado morre, e Douglas continua berrando, para que todos tomemos conhecimento que é um típico e cínico explorador”. Foi isso, somente isso, que a famosa crítica Pauline Kael escreveu sobre A montanha dos sete abutres no seu esgotado e cobiçado livro 1001 noites no cinema. Sei que o pouco fôlego da análise talvez tenha sido resultado do pouco espaço disponível para a resenha, tanto sei que já encomendei outro livro dela (Criando Kane) para poder melhor apreciar seus dotes argumentativos. Em todo caso, não há como negar que a análise em questão é generalista, engloba o todo do filme, não se prendendo a detalhes e miudezas. Eis o ponto que me interessa.

O argumento se baseia em adjetivações subjetivas (“desagradável”, “sociologismo presunçoso”). O ruim dessa escolha estilística é que ela afasta o leitor do percurso lógico e imagético com que o escritor transforma suas impressões em julgamentos. O diálogo se limita, assim, num “concordo / não concordo”, o que é muito empobrecedor. Sem contar que o leitor ingênuo pode ser levado a acreditar que o filme seja uma barca furada sem igual, ideia essa com a qual não compactuo. Mesmo aceitando que o filme no todo não seja um primor, há trechos que podem ser muito instrutivos.

A pergunta mais óbvia se relaciona ao título. Os sete abutres poderiam remeter à quantidade de jornalistas que vão cobrir o caso (além de Tatum, os seis jornalistas que dividem a barraca da imprensa), mas como já bem observaram, o filme não critica apenas o jornalismo. Os sete abutres poderiam ser Tatum, Herbie Cook (o fotógrafo), Lorraine Minosa (a esposa da vítima), o xerife, o homem da escavadeira, o dono do circo e o músico que vendia um jingle em homenagem a Leo Minosa, o soterrado; são muitos os que ganham ou tentam ganhar à custa do sofrimento alheio. Mas a questão não é só essa.

Logo no início do filme, somos apresentados a um par dialético: Charles Tatum, jornalista decadente e inescrupuloso à espera de uma chance para mostrar a seus ex-chefes novaiorquinos que ainda é capaz de vender notícias, e Jacob Q. Boot, cândido dono do jornalzinho da cidade de Albuquerque, cândido a ponto de pôr na parede da redação um letreiro com os dizeres “Tell the truth”. Não é exagero ver nessas personagens o duplo “trabalho & aventura” desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, capítulo II): Tatum é movido pela coragem, pelo desejo de respirar novos ares, enquanto Boot quer a segurança do figurino com que foi vestido (Para quem não viu o filme: Mr. Boot usava, acreditem, cinta e suspensório ao mesmo tempo). Alguém poderia dizer que o par dialético a que fiz referência já se tornou um lugar comum de tanto usado, porém mais provável é que ele seja muito usado justamente por sua eficiência.

Também é lugar comum, aliás, a combinação desses elementos (Tatum se torna funcionário de Boot) para sugerir “a noção de uma incerteza entre os limites da legalidade e da ilegalidade e de uma simetria e um efeito de espelho entre sistemas legais e ilegais de poder” (Antonio Costa, Compreender o Cinema, p. 103). Se Boot é o paradigma da sinceridade, o que raios o levou a apostar num aventureiro da cidade grande? Alguns podem achar que ele tenha propositalmente se deixado enganar para lucrar com as vendas do seu jornaleco, mas não há evidência alguma de que ele tenha aumentado sua riqueza graças aos serviços de Tatum. Parece-me que ele era Pollyanna a ponto de sempre esperar o melhor das pessoas. Acho que se houvesse uma maior ambiguidade neste exato ponto, o filme seria ainda melhor.

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2 pensamentos sobre “Focalizando a Montanha

  1. Gostei da crítica às adjetivações subjetivas. Ela me lembrou uma frase que você escreveu na folhinha de críticas a um dos meus textos: “Mais do que dizer, mostre!” Acho que uma opinião perde muito do valor se não for fundamentada. Dá a impressão de que a crítica simplesmente brotou na cabeça do autor, sem maiores justaficativas.

    “Se Boot é o paradigma da sinceridade, o que raios o levou a apostar num aventureiro da cidade grande?”

    Eu concordo com a resposta que você mesmo deu mais embaixo. Ele era simplesmente Pollyana. Sendo Boot um cândido e um modelo de sinceridade, nada mais natural do que ele expor essa ingenuidade excessiva o tempo todo. Logo, com a máxima “todos são inocentes até que se prove o contrário” em mente ele fez tal aposta.

    Acho que é só. =)

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