Tá rindo de quê?

Sexta passava estava no teatro esperando uns amigos. Sentei-me na terceira, e última, fileira da arquibancada, pensei em abrir um vinho ou acender um cigarro, mas não me deixaram; seria falta de respeito com o artista e com a plateia. Concordo. Ademais, não vamos ao teatro para beber ou fumar. Certos prazeres individuais têm sua hora e vez. E eu sei me comportar.

Meus amigos chegaram, acalmei minha sanha, a peça começou, a atriz fez uma piada banal e muitos começaram a rir. Mais uma piada sem graça, mais risos. Uma terceira piada estava ainda sendo contada, mas o sujeito da frente já estava rindo. Até pensei que ele fizesse parte da peça. Talvez o roteiro fosse mais ou menos assim:

Atriz: Todo mundo que acredita em outras vidas, todo mundo, acredita ter sido alguém importante. Há alguma Cleópatra aqui hoje?
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Existe aqui algum Dom Pedro I? Algum Napoleão? Algum Pelé? – Ah, o Pelé não morreu…
Homem alegre da plateia: há! há! há!
Atriz: Algum Michael?
Homem alegre da plateia: há! há! há!

Na peça dos meus sonhos, um outro personagem, bastante irritado, se levantaria expulsando o homem alegre da plateia: “Xô, claque! Vá embora! Não é de risos assim que a peça precisa!  Mas não foi isso que aconteceu; a peça continuou seu percurso sem minha interferência, o que talvez tenha lhe garantido uma sobrecota de risos. Está reclamando do quê? De amarga já basta a vida…

Só se for a sua, meu caro. O paladar é mais complexo do que  a dicotomia doce-amargo pode supor, mas não fugirei da questão.  O que me incomoda não é o riso em si – ou melhor, é justamente o riso em si, o riso para si, o riso como meta, o riso que a nada aponta, o riso que nada revela. Em vez disso, prefiriria o o riso cínico de um Machado de Assis, de um H. L. Mencken ou mesmo de um Woody Allen, mesmo sabendo da grande probabilidade de eles, às escondidas ou não, estarem rindo da minha cara. Isso que estou dizendo nem é novo, até os manuais mais desatualizados de literatura ensinam que na base do teatro português era comum o  Ridendo castigat mores… Estou pedindo muito? 

Não há como negar que me senti incomodado pela quantidade de piadas de cunho sexual (de gosto pra lá de duvidoso) que iam sendo lançadas sempre que houvesse – ou não – uma deixa. Consultei o relógio: em vinte minutos de peça, não havia achado graça em nada. Pensei então em captar uma frase de impacto que fosse, algo que pudesse – vamos dizer – salvar a noite. Num determinado momento, ouve-se “o livro dissemina ideias”. Bingo! Não só o livro, mas o teatro também pode disseminar ideias. Foi para isso que saí de casa aliás – mas não. Os intertextos culturais (princesa de Sabá cometendo a dancinha do Michael Jackson, inclusive) ofendiam-me profundamente. Sei que o humor é uma forma de identificação entre ator e público, talvez por isso mesmo tenha me sentido tão pouco à vontade perante um espetáculo que me considerava um pleno idiota. Caso algum sujeito sem noção acendesse um cigarro no meio da peça, todo mundo (inclusive eu) notaria sua indelicadeza e falta de modos, mas acho que nosso cérebro deveria ser tão bem preservado quanto nossos pulmões. 

Quis me levantar, sair de lá o quanto antes, acender um cigarro, conversar com uma pinot. Mas não fumo. E não havia nenhuma garraga comigo. Ademais, não queria interromper a peça. Afinal, sei me comportar.

P.S.: Apesar de ter achado a peça extremamente fraca, gostei dos recursos cênicos da atriz.

P.P.S.: O que salvou a noite foi sair para jantar na rua de trás do teatro. Se não fosse o restaurante, é bem capaz que meus amigos ficassem revoltados comigo.

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Um pensamento sobre “Tá rindo de quê?

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