A ilusão dos bichos

 (Este texto é uma espécie de fragmento não utilizado do texto anterior)

As palavras alimentam sonhos e esperanças, não raro, porém, se alimentando justamente de nossos sonhos e esperanças. A mesma voz que promete liberdade plena pode tomar o pouco que temos. A revolução dos bichos, de George Orwell, é um ótimo exemplo. Após existências de exploração, os animais de uma fazenda são “conscientizados” a se rebelar contra o proprietário que tanto os maltratou. Com certa facilidade, eles conseguem expulsar o ex-dono e passam a desfrutar de um breve período de alegria. Gradualmente, porém, a boa vida conquistada após a vitória vai dando lugar a uma nova exploração, desta vez conduzida pelos porcos – os animais mais inteligentes do bando, logicamente, os superiores. Mas a situação melhorou muito, afinal desta vez não há um homem tirando proveito deles – o que há é um merecido e justificável sacrifício em prol do grupo. Essa mesma ladinha foi bem explorada no filme A onda (o qual ganhou uma nova versão em 2008, mas ainda não surgiu nos cinemas brasileiros): a massificação, longe de criar uma sociedade forte, apenas anula o indivíduo. Os animais, pouco a pouco, deixam de ter importância individual e se transformam em meros instrumentos em prol de uma coisa abstrata chamada fazenda, a qual – concretamente – só existe enquanto propriedade de porcos cada vez mais parecidos com o velho inimigo de todos, o homem.

É possível encontrar, sem muitas dificuldades, diversas referências críticas ao regime socialista (o porco idealista seria Karl Marx, o porco banido seria Trotsky, o porco tirano seria Stálin, os animais explorados seriam o povo russo etc. etc.), mas creio que o alerta é mais abrangente. No final da história, já não se sabe a diferença entre porcos e homens (socialistas e capitalistas?) ; para ambos o discurso é mero instrumento de poder.

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