Nova onda no pedaço

“Estreia hoje em São Paulo o remake de A Onda”, alertou-me um amigo. Agradeci-lhe a preocupação, mas graças à divulgação digital que a internet nos proporciona já tinha visto o filme nas férias.

A primeira versão, feita para a TV norte-americana em 1981, já havia me trazido boas impressões. Para quem não a conhece, eis uma sinopse: professor californiano, tentando explicar a seus alunos o poder de persuasão do nazismo, resolve construir – em princípio – um grupo de estudos baseado na disciplina. Ordem, força e conjunto são os termos que os jovens passam a valorizar conforme vão incorporando os ideais d’A Onda (The Wave), nome dado ao grupo.

A maior parte dos estudantes não percebe, mas em nome de um equivocado senso de coletivismo, eles acabam abandonando suas individualidades – pensam estar se tornando especiais quando na verdade transmutam-se em simples massa.

No fim do filme, o professor lhes revela o verdadeiro propósito do grupo: mostrar de que modo um partido ditatorial, como o nazista, pode ser persuasivo a ponto de conquistar pessoas (ingênuas, mas) bem intencionadas. A cena final é significativa: Robert, o aluno deslocado que viu n’A Onda um sentido para sua vida vazia, fica em prantos. Para ele, talvez, assumir as responsabilidades decorrentes do livre-arbítrio fosse mais um fardo do que uma dádiva. Quando escrevi sobre filme, mais do que me preocupar com a superficialidade de adjetivá-lo como bom ou ruim, hipervalorizado ou menosprezado, preferi analisá-lo como um oportuno recado contra a massificação travestida de solidariedade (a virtude nomeia o vício). Alguns amigos não gostaram do filme, pois viram nele um alerta maniqueísta contra a ditadura comunista. Concordo com eles, mas só em parte. Creio que, assim como A revolução dos bichos, de H. G. Wells, A Onda traz um alerta contra diversas formas de totalitarismos, não apenas contra o império vermelho.

 

O filme que chega hoje em cartaz possui nova estampa: a história é agora ambientada na Alemanha; o professor responsável pelo projeto é caricaturalmente mais jovem em amplo sentido: possui vigor físico, ouve rock, é simpatizante da anarquia e não se preocupa em preparar suas aulas com muita antecedência. Se eu me preocupasse em fazer uma leitura paralela, destacando as vantagens e desvantagens de uma ou outra versão, diria que a segunda é menos clara – talvez menos didática – no que diz respeito a associar A onda (Die Welle) ao partido nazista. No entanto, isso não me parece o essencial. Por outro lado, considero extremamente relevante comparar a diferença nos desfechos.

Na versão norte-america, podemos dizer que, exceto para Robert, há final feliz: o professor se valeu de uma dura, mas competente lição de vida. Me pergunto: qual seria a função de refazer esse filme sem incorporar nenhuma nova reflexão? Sem – digamos assim – atualizá-lo? Imagine o perigo que seria um educador que, inspirando-se no final feliz do primeiro filme, pretendesse pôr em prática ideia similar. Pensando nisso, ou não, Dennis Gansel, o diretor da versão atual, resolveu problematizar um pouco mais a história. Como Reiner Wenger, o professor, assumiu um risco imenso ao tentar controlar os cérebros de seus pupilos, seria forçar demais a barra se ele passasse impune. A história cultural nos mostra que aquele que busca sorver-se de poder absoluto (vide Blade Runner, O Golem, Frankstein, ou o “conto alexandrino”, este de Machado de Assis) acaba se afogando.

Ao contrário do que o amigo me disse, Die Weller não é um remake de The Wave. Trata-se de um, na expressão de Ezra Pound, make it new. Mais importante do que refazer por refazer, é renovar aquilo que a cultura já produziu. É uma diferença pequena, mas fundamental.

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4 pensamentos sobre “Nova onda no pedaço

  1. Discordo do teor da resenha. Os princípios coletivistas pregados pela experiências são positivos. Negativo é o individualismo, egoísta, consumista que prevalece em nossas sociedades.

  2. O’Brien,

    A vida felizmente não precisa ser binária. Há diversas escolhas entre os extremismos.

    Nem a coletividade massificada nem a sociedade egocêntrica são saudáveis ao desenvolvimento saudável do indivíduo.

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