Travessias

Michell Lee

  De um lado da ponte, o poeta admira a margem oposta. Parecia haver maravilhas sob aquele Sol reconfortante, um ar mais límpido, cores mais vivas. Almejando-as, atravessa a ponte: um caminho sem volta-as águas do rio caudaloso devorariam o percurso conforme a travessia era feita. A cada passo, uma desconfiança cada vez maior passa a inquirir a margem idealizada: a que deixara parecia cada vez mais bela vista de longe. É de forma semelhante a esse poeta que todos nós construímos as nossas vidas: atravessamos infindáveis pontes em busca de satisfação pessoal, da construção de uma identidade, em suma, de um lugar melhor. Entretanto, esse contínuo mudar “de margens” envolve mudanças que não podem ser desfeitas, daí a importância de analisarmos se tal empreita é realmente válida.

  A necessidade de provarmos a nossa singularidade talvez seja aquilo que nos conduz a caminhos incertos. Oliver Sacks, em Um Antropólogo em Marte, conta a história de Greg, indivíduo de conturbada adolescência. Cansado das regras e comportamentos dos pais, Greg abandonou a escola, passou a usar drogas e a se ocupar inteiramente com shows e concertos de rock. Tais atitudes, embora extremadas, revelam a necessidade de se buscar novas valores e parâmetros. Afinal, somos seres contemplativos, aprendemos pela imitação; mas é pelas nossa escolhas e decisões que esses valores tomam um sentido realmente nosso, pessoal. Em outras palavras, a adolescência é uma das fases essenciais para a caracterização do “eu”, na qual o indivíduo quer parar de ecoar e, ao mesmo tempo, adquirir um comportamento e personalidade únicas.

  Não é preciso chegar à margem oposta  para saber o que podemos perder. Francis Ford Coppola, em Peggy Sue, o seu passado a espera, apresenta o anseio de muitos: a de voltar ao passado e mudar completamente a direção e conseqüências de suas atitudes. Isso é personificado em Peggy Sue, que volta magicamente ao passado. Assim, ela realiza desejos da adolescência, revive a presença dos pais e, sobretudo, tenta impedir o seu próprio casamento -na sua visão, o marido seria o motivo de sua infelicidade. No entanto, mesmo com a possibilidade de mudar o seu destino, Peggy não o faz: ela percebe que era feliz com a sua vida, que os árduos caminhos percorrido para construí-la não merecia ser desprezada; tudo isso era representado pela saudade dos filhos. Percebe-se, portanto, que alterar a forma com que enxergamos o que nos cerca pode nos poupar de perdas irremediáveis e arrependimentos.

  Mudança ou estagnação, perdas e ganhos. Essa polarização ocorre não apenas na adolescência ou na fase de reavaliação da vida adulta, mas sempre que achamos que não temos nada a perder ou quando já alcançamos o lugar onde queríamos estar. As pontes são úteis; as travessias, desafiadoras; no entanto, a nossa satisfação se dá em uma margem ou em outra: de nada adianta percorrer seguidas pontes sem nada valorizar. O comedimento, aliado ao certo balanço de nossas necessidades, é a chave para não nos perdemos em um eterno saudosismo do poeta e sua margem perdida. 

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Um pensamento sobre “Travessias

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