Outras torres

Michell Lee

 “Vozes veladas, veludosas vozes”. Névoa translúcida até o horizonte sem fim. O luar, em raios difusos, ilumina o poeta em sua torre de marfim. Para ele, era uma torre tão alta quanto a de Babel seria; para outros, não passava de excentricidade. É de forma análoga a essa imagem poética que muitos de nós temos a nossa existência retratada: subimos e permanecemos em torres de marfim, uns mais ao alto, outros, quase ao chão. No entanto, quanto mais se sobe, quanto mais se avoluma um desejo de Ícaro de se afastar do chão, mais o indivíduo se isola da realidade. Isso pode ocorrer de tal forma que muitos chegam a um limiar ao qual uma sociedade estereotipada, padronizada, passa a chamar de loucura. Mas esses indivíduos aparentemente próximos ao chão se esquecem que também estão, de certa forma, presos a sua torre de marfim: olham para o alto sem olhar para si próprios.

 Há torres tão altas que não é mais possível uma volta pautada em esforços individuais. Em Um estranho no ninho, filme de Millos Forman, é retratado um sanatório no qual há diversos indivíduos com supostos problemas neurológicos. Bastante curiosa é a presença voluntária de personagens que, devido a problemas como ciúmes em um casamento conturbado, ausência de confiança ou medo do mundo social, se isolam neste lugar em busca de apoio e segurança – mais até do que da própria cura. Em uma análise mais profunda do filme, percebemos que o espaço físico do sanatório é uma representação da mente humana: todos nós já tivemos uma fase ou momento em que desejamos nos isolar, nos fecharmos em nossa própria realidade. Isso ocorre porque, no fundo, queremos reestruturar nossas atitudes e pensamentos, direcionar a nossa vida, – em suma – manter a unidade do nosso “eu”. Entretanto, há indivíduos que sucumbem a problemas fisiológicos e, sobretudo, sociais enclausurando o seu “eu” de tal forma que perdem a noção da realidade, dando vazão a ações inconscientes de agressão e insanidade. Apesar da “altura”, porém, há caminhos de volta.

 Certamente “doenças mentais” é um termo a ser repensado. Oliver Sacks, na introdução do livro Um Antropólogo em Marte, nos conta que está escrevendo o livro com a mão esquerda (a outra estava inutilizada). Ele especula que cargas sinápticas, conexões e sinais cerebrais se alteraram para adaptá-lo à sua nova situação. Assim seriam as “doenças” neurológicas: uma adaptação às necessidades do corpo e ao meio social, podendo resultar em mudanças extraordinárias se comparado com uma pessoa “normal”. Um ótimo exemplo é a história de Bennett, que sofre de crises de compulsões, tiques e bruscas alterações de humor – as quais Sacks chamou de síndrome de Tourette. No entanto, Bennett conseguia suprimir tudo isso quando realizava as suas cirurgias médicas – a sua maior paixão -, de forma tão detalhista e com eficácia sem precedentes. Percebemos que é preciso haver algo que ligue o indivíduo ao mundo real, seja a arte, a profissão, a música – em suma, um estímulo exterior à mente, um canal de expressão do “eu”. Até o título, Um estranho no ninho, sugere isso: é preciso que haja algo ou alguém que desperte os pacientes de seu estado de torpor – isso, no filme, é personificado em McMurphy (o “estranho” que gera uma reviravolta no sanatório).

 Um antropólogo em Marte: um homem que estuda o seu semelhante – e as relações sociais envolvidas – em outro planeta, em outra mente que não a sua. Percebemos que todos nós deveríamos ser esta figura: não há torres alinhadas na mesma altura, as nossas mentes se estruturam de forma desigual. Assim, seria preciso ter um conhecimento prévio, mínimo, da mente alheia, de forma a estar com ela numa mesma ou compatível realidade, de forma a compartilhar momentos e prazeres. Infelizmente, muitos acham ter os pés no chão, quando, na verdade, podem estar  tão deslocados quanto o poeta e sua torre de marfim.

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Um pensamento sobre “Outras torres

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