Velório

Não, Isaac não era judeu; o nome bíblico lhe fora dado por uma avó religiosa que não entendia muito de religião. O paradoxo era compreensível por aquelas bandas, afinal quando jovem ela não conseguiu ou não pôde frequentar a escola por mais de três anos; uma semi-alfabetização que lhe permitisse a leitura de títulos e manchetes, e manejar duas  das quatro operações já era o suficiente. Mesmo sendo uma fiel sem conhecimento de causa, havia conseguido certa influência naquela pequena cidade do sul de Minas, ao menos em relação ao povo pobre que dependia, em inúmeras ocasiões, da pouca, mas bem ofertada ajuda daquela senhora. O tempo não a tornou uma pessoa sábia, tolerante ou amiga, mas isso nunca lhe impediu de ser ouvida pelo séquito que ano após ano ia se ajuntando em torno dela por meio do compadrio.

– Aposto que é um afilhado da senhora – alguém disse.

Mais do que um dos tantos afilhados, era seu neto de dez anos – o primogênito, quase um filho. Como sua avó não tivera filhos (casou-se com Benedito, e comungou suas três filhas), Isaac acabou recebendo uma predileção contra a qual um dia iria se rebelar. Mas isso não faz parte da história. Ambos acabaram de chegar à casa de Nicolau, tio materno da avó que estava sendo velado. Nicolau, sim, era uma pessoa de grandes posses. Ainda que também não tenha frequentado escolas e tirado diplomas, ele conseguiu, terreno após terreno, administrar uma grande fazenda de gado leiteiro. Se a produção pecava pelo desperdício e falta de planejamento, ao menos conseguiu lhe dar uma vida muito mais abastada que a de qualquer outro jovem que cresceu junto consigo.

Dia de São João: a maior parte das visitas teve a gentileza ou o cuidado de permanecer na casa, mesmo sendo dia de uma das melhores festas do ano. Marcelo, o filho mais velho, cumprimentava a todos os presentes com uma frequência ameaçadora:

– Muito lhe devo. Meu pai não me deixará esquecer de sua amigável presença. Os amigos a gente não abandona – dizia dando um leve e preciso tapa nas costas dos criados, como se marcasse de vista e tato aqueles que mereceriam mais atenção.

Tudo ali cheirava a marasmo: no céu, nuvens grossas e lentas; na terra ao longe, bois pastavam perto de uma lagoa; dentro da casa, as pessoas regurgitavam elogios e orações ao morto. Isaac não se percebia entediado; fora brincar de seguir formigas: desciam a goiabeira com uma grande folha às costas, cruzavam o quintal, despistando galinhas e pisadas, adentravam por uns galhos secos caídos e desapareciam num canto de terra. Depois, com os olhos fechados, o menino imaginaria a continuação da busca…

– Isaac, meu filho, venha conhecer sua prima.

E Isaac conheceu sua prima Luísa, de treze anos. O sorriso, ingênuo ou malicioso, com que ela o encarou foi forte o bastante para lhe despertar um misto de simpatia e temor.

– Você gosta de observar formigas?

Envergonhado, Isaac não conseguiu responder.

– Venha, vou lhe mostrar umas plantas bem bonitas. Se dermos sorte encontraremos alguns insetos curiosos.

Mãos dadas à prima, caminharam longos passos em volta do quintal, longe da vista de qualquer um. Não encontraram nenhum inseto especial, mas Isaac não pensaria em reclamar da sorte. A prima lhe mostrou uma jabuticabeira, pés de morango, as flores do maracujazeiro…

– Nunca vi algo tão bonito.

– É bom se acostumar, mocinho.

– Mas se eu me acostumar, perde-se a graça, não é verdade?

– Quem lhe falou isso?

– O padre. Ele disse que dia após dia a gente precisa treinar os olhos para enxergarem algo de diferente. Que a partir do momento em que a gente se acostuma, a vida perde a graça e a gente, o desejo de viver. Deus, certamente, não gostaria disso, ele me contou.

– Que padre é esse?

– Ele rezava missas perto de casa, não reza mais. Teve uns problemas, foi embora mês passado. Gostava de conversar com ele.

– Homem sabido. Gostei dessa frase. Você é um rapaz sabido, mais do que os que eu conheço.

– Sério?

– Claro, meu bem. Venha, posso lhe ensinar uma coisa?

– O quê?

– Bonita esta flor, não?

– Sim, muito bonita.

– Sabia que maracujá é a flor da paixão? Foi meu professor de ciências que me contou.

– Por que esse nome?

– Que importa? Tome – E Isaac corou ao receber tão delicado presente.

No céu das cinco e meia alguns feixes vermelhos anunciavam o prematuro anoitecer da mais invernal das noites. Não seria oportuno ficarem os dois sozinhos naquele vazio. Luísa aproximou os lábios do ouvido de Isaac e sussurrou:

– Tenho umas histórias muito interessantes para lhe contar. Histórias da roça.

E assim que voltaram para o velório, Luísa logo tratou de dividir-se às outras crianças – todas menores, de uns cinco, sete anos. Isaac não apreciou o distanciamento da amiga.

– Ora… – pensou, sem conseguir desenvolver uma continuação.

– Que tal um café, jovenzinho? – ofereceu uma velha senhora que acompanhava a cena.

– Não me permitem. É bebida para adulto.

– Você precisa ficar desperto. Afinal, estamos prestando honras a seu tio-avô Nicolau.

E Isaac aceitou, tragando de uma só vez a meia xícara de café amargo que lhe serviram.

– Coma isto!

– Hortelã?

– Não se esqueça de beber meio copo d’água. Ou você quer que todo mundo veja matinhos verdes nos seus dentes?

Isaac, um pouco assustado pela voz imperativa e pelo rosto envelhecido daquela senhora, obedeceu. Seria uma espécie de bruxa? Padre Ludovico, certa vez, havia conversado com ele sobre o assunto. Antigamente, era provável que muitas mulheres tenham sido injustiçadas; afinal como reconhecer uma bruxa? Se elas existiam e eram de fato poderosas aliadas do mal, talvez pudessem se confundir facilmente com uma camponesa qualquer. É difícil distinguir o certo do errado.

Sem ter mais o que fazer, Isaac sentou-se nas raízes de um limoeiro, de onde tinha vista privilegiada do quintal. Armaram uma grande fogueira em torno da qual o povo aquecia as mãos, pequenas doses de cachaça eram servidas, uma carroça trazia pães que a cozinheira iria servir dali a pouco, três capiaus entoavam cantigas à viola. Em sinal de respeito, evitava-se a bebedeira e riso nos rostos, menos as crianças, alegres e vívidas com a presença cativante de Luísa. O que essa prima tinha de especial? Isaac sentia algo em seu corpo, como se órgãos despertassem para a vida – sentiu em sua barriga o movimento e o calafrio de partes que sequer suponha possuir. Fechou os olhos, o calafrio subiu para o peito, sentiu a testa transpirar. De longe, Luísa lhe sorriu. Deve ter corado, como saber? Ele não tinha o costume de ficar acordado tanto tempo; a noite crescia, a penumbra invadia-lhe o espírito, ele sabia – ou desejava – que algo iria acontecer.

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