Nunca contentar-se

 

A contenção, o autoconhecimento, a humildade, eis os pilares em que o indivíduo deve se apoiar em busca de proteção e segurança. A contenção nos ensina a segurar o ímpeto, a respirar fundo antes de qualquer ação precipitada. Esse intervalo de tempo, essa lacuna entre o desejo e a decisão, permite ao indivíduo uma melhor aferição de si, de suas forças, de seu poder. A conclusão lógica desse processo é a compreensão daquilo que está a nosso alcance; saber até onde a mão vai é essencial para evitarmos esforços vãos. Conhecer a si próprio é conhecer seus próprios limites.

Nem todo indivíduo, porém, aprecia a vida em cativeiro. A domesticação não lhes cai bem. Excesso de proteção, eles percebem, é igual a medo em demasia. O melhor autoconhecimento é aquele que se reconhece insuficiente para delimitar o que pode ou não pode o indivíduo. A contenção, analisada dessa forma, é a renúncia à investigação dos nossos poderes, é o descaso com aquilo que vulgarmente chamamos de potencial. Rebaixar-se, aceitar passivamente as conquistas do passado, sem nelas enxergar um estímulo a novos desafios, é desrespeitar o jovem ambicioso que já fomos um dia. A pretensão, por si só, não é um defeito. Pelo contrário, pretender um futuro melhor, sonhar com mudanças que engrandeçam o indivíduo é, ou deveria ser, pré-requisito para que continuemos vivos. Por isso mesmo incomoda saber que muitos confundem ambição com inveja. Enquanto esta se caracteriza por uma postura complacente (invejoso é quem vê, com maus olhos, o mérito alheio), aquela prima por um comportamento ativo (ambicioso é aquele que não teme encarar novos caminhos). Dentro de um contexto que procura domesticar o indivíduo, mais do que nunca é importante relembrar a famosa máxima latina: errar, aventurar-se por caminhos desconhecidos, é sem dúvida alguma humano.

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4 pensamentos sobre “Nunca contentar-se

  1. P.S.: o título veio do famosíssimo soneto camoniano:

    Amor é fogo que arde sem se ver,
    é ferida que dói, e não se sente;
    é um contentamento descontente,
    é dor que desatina sem doer.

    É um não querer mais que bem querer;
    é um andar solitário entre a gente;
    é nunca contentar-se de contente;
    é um cuidar que ganha em se perder.

    É querer estar preso por vontade;
    é servir a quem vence, o vencedor;
    é ter com quem nos mata, lealdade.

    Mas como causar pode seu favor
    nos corações humanos amizade,
    se tão contrário a si é o mesmo Amor?

  2. Engraçado alguém escrever um texto tão interessante visando elucidar uma técnica dissertativa. O Rodrigo é um grande professor, digo isso com todo fundamento, mesmo sem ter tido aulas formais. Muito obrigado por tudo que colaborou com a nossa turma de 2010 indo aos clubes!

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