Cultivando o pensar

E a virtude? – pergunta-se Sócrates. O tutor pode ensiná-la a seu discípulo ou seu papel consiste apenas em estimular a virtude que seus pupilos já possuem? Valendo-me dos mesmos operadores lógicos, mas focalizando outro objeto de ainda maior importância, pergunto-me: E o pensar? Alguém pode ensinar outra pessoa a pensar ou se trata de algo a ser estimulado?

Antes de irmos diretamente a uma síntese, e para que esta não seja apressada e superficial, vale a pena analisarmos ambas as hipóteses.

O educador que pretende ensinar seu aluno a pensar, indubitavelmente, corre o risco de apenas transmitir-lhe conceitos, pressupostos e ideologias que lhe servirão de cabresto e guia, sem nunca traduzirem-se, de fato, em ferramentas para uma desejável independência. No entanto, também temos de reconhecer a importância da elucidação de conceitos, pressupostos e ideologias para uma correta compreensão das ideias e seus contextos.

Na teoria é fácil, bastaria explicitar, por exemplo, numa aula sobre Luís Vaz de Camões, o contexto histórico em que ele viveu, o meio social que ele frequentou, as correntes filosóficas e estéticas de seu tempo… mas nada disso, porém, serve para identificar a identidade do poeta. O que o distingue daqueles de seu tempo não se mede numa análise genérica do grupo, mas sim pela leitura atenta do que o poeta escreveu. Sim, de fato, mas não podemos nos esquecer de que todo homem é produto de seu meio… São inúmeros os modos de se analisar um poeta. O educador está preparado para escolher e indicar o melhor modo analítico?

Por outro lado, muitas vezes acredita-se estar estimulando o pensamento alheio, valorizando-lhe o senso crítico e a independência, quando na verdade o professor apenas abandona as rédeas da situação, deixando o desenvolvimento intelectual do aluno ao deus-dará, como se toda tentativa de elucidação fosse, automaticamente, um modo de coibir a autonomia. Não tenho dúvida alguma de que essa postura tende a ser mais maléfica do que a retratada nos dois parágrafos anteriores.

Hannah Arendt, se não me engano, foi quem melhor analisou o perigo de hipervalorizarmos o novo. O perigo de darmos aos jovens imaturos e despreparados, o poder de decidir o que fazer com a cultura – como se essa grande construção coletiva pudesse ser jogada ao lixo sem mais nem menos.

Como todo educador sabe ou deveria saber, seu trabalho se resume numa palavra: desafios. Encontrar um meio não de transmitir cultura, mas de ensinar como cultivá-la, com todo amor, paixão e dor que a empreitada exige. Encontrar um meio de, sem ser benevolente, valorizar e estimular os achados, as sacadas intelectuais do aluno. Ou, mais do que tudo, o educador deve se ver – ele também – como um estudante em busca do conhecimento. Só assim, enfrentando as dificuldades que o crescimento intelectual nos impõe, gozando os prazeres das metas atingidas e ultrapassadas, o educador estará preparado para compartilhar essa grande dádiva – ou melhor: conquista – que é o pensar.

 

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8 pensamentos sobre “Cultivando o pensar

    • Sim, adoro lecionar. [:)]

      Roteiro? Depende… Para filme ou peça de teatro?

      Roteiro a partir de um mote, creio eu. Depende do mote, da história que se quer contar.

      Dê-me mais detalhes, por favor.

      • Não especifiquei para você ficar curioso =)
        para um curta metragem
        não sei eu estou meio sem ideia e parece que as historias
        que estou criando estão sempre chegando no mesmo lugar
        já dirigi alguns curtas amadores mas todos com roteiros meus
        seria legal dirigir um curta de um roteiro alheio
        até mesmo parar ver se consigo adaptar para imagens que já não vieram prontas na minha cabeça
        enfim;

        Uma pessoa pode ser tanto homem quanto mulher
        sozinha num apartamento com vista para o centro da cidade
        é um apartamento antigo com o chão de taco não tem muitos moveis mas dependendo da historia posso improvisar.
        Se possível ser uma historia com elementos de realismo fantástico.
        Mas sei la se topar fazer fique a vontade para criar
        é claro se não gostar do resultado do filme a achar que estraguei o seu roteio e não finalizo

  1. Gostei muito do texto. Você, de fato, soube apontar as verdadeiras dificuldades (desafios) do educador. Interessante como, sob essa perspectiva, acabo por questionar-me de forma mais aguda acerca da questão do talento ou habilidade do educador. Todo educador deverá, portanto, atingir um estágio de compreensão dos mecanismos de incentivo ao pensar, ao refletir, para que, só então, possa colocar-se na posição de educador? Se for isso, duvido que 10% dos educadores se encontre, verdadeiramente, nessa condição. Eu não me encontraria devidamente aí…

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