Não seja

 Certa vez, uma amiga publicitária conseguiu convencer-me da importância social da propaganda, afinal – segundo ela – é importante que as empresas possam dialogar direta e indiretamente com o consumidor. Exemplo do primeiro modo são as fotos com que o Ministério da Saúde estampa embalagens de cigarros; exemplo do segundo são aquelas imagens de viris cowboys fumando na fazenda, a qual aliás pode até não transmitir uma ideia sincera, mas que deixa um ar de poesia no ar, ah isso deixa.

 Mês passado, estava eu perto do metrô Vila Madalena, quando me deparei com uma interessante propaganda da revista Veja.

 

 A maior parte dos meus amigos acha que essa revista serve apenas para higiene pessoal, outros são menos benevolentes. Já eu assumo que leio com gosto o André Petry e o Roberto Pompeu de Toledo. O que achamos da revista, no entanto, não interessa. O intuito desse texto é analisar a dita propaganda.

 A revista em questão lançou uma série de frases imperativas que cheiram a autoajuda: Seja ético, seja indispensável etc. Há sim um tom de pieguice que os de boa memória não demoram a associar a um pretencioso e improvável manual de ética. Isso, porém, também pouco importa. O que os leitores ou não leitores pensam da revista não vem ao caso; a falta de decoro ou bom gosto em suas formas de propaganda, idem. O que convém observar é a frase em questão:

SEJA CONECTADO é um misto de imperativo com voz passiva, equivalente a “Deixe alguém conectar você”. Sendo a frase em questão propaganda oficial da revista em questão, não é exagero pensar que o agente conectante seja a própria revista. Poderíamos então alterar o slogan para “deixe-nos conectá-lo”.

 Uma revista que assume o papel de manipuladora, sem dúvida alguma, merece elogios tanto pela coragem quanto pela cara de pau.

 P.S.: um amigo meu, defensor da revista, argumenta: “Não há nada de mal em a revista conectar o leitor ao saber, por exemplo”. Talvez, mas em todo caso, continuo achando que o indivíduo tem de ser independente a ponto de ele mesmo, ativamente, estabelecer suas conexões. Mas, enfim, quem quiser ser conectado… que seja.

 

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7 pensamentos sobre “Não seja

  1. Já havia notado nessa progaganda da VEJA, e achei interessante.

    Só nao acredito que conseguiria verbalizar na hora, mas acho que descreveria bem proximo de uma ousadia manipuladora. E no fundo, bem hipócrita.

    Eu, sinceramente, prefiro mesmo é o seu título.

  2. Um colega me enviou o link desse blog.
    Gostei do texto provocativo. Assumo que não curto a revista “óia” pois o tom imperativo deles me deixa ranzinza. Obrigado por me dar uma boa leitura depois de um dia cansativo.

  3. Hiper válido o seu comentário a respeito dessa peça publicitária. Sabemos quanto dinheiro circula em torno desse tipo de comunicação, e é importante questionar e analisar de maneira crítica as mensagens que estão sendo propagadas.
    Por outro lado, eu diria que o seu ponto de vista foca apenas uma interpretação entre as possíveis. Não somente com o uso do termo ‘conectado’ como com todos os outros da campanha [‘ético’, ‘indispensável’] podemos sim considerar a proposta de passividade, como se a revista estivesse propondo “conectar” o público, ou por si só torná-lo ético ou indispensável em seu grupo social. A grande questão é que se pode também entender a proposta da campanha como uma apresentação da revista como melhor caminho entre o sujeito e o que ele deseja ser. Nesse caso, a propaganda estaria expondo adjetivos que imagina que o público-alvo almeja incorporar, e se apresentando como uma das ferramentas para alcançá-lo. O que quero dizer é que a revista pode não estar se apresentando como o agente transformador, e sim como a “arma” que o próprio sujeito utilizaria para provocar a ação de tornar-se conectado. A partir dessa interpretação, a afirmação de que o leitor acaba ocupando uma posição de passividade não é valida. O anunciante da peça estaria apenas apresentando seu produto como forma de ajudar o leitor nessa tarefa. O indivíduo estaria sim ativamente estabelecendo suas conexões – a revista seria apenas uma das fontes de informação, e provavelmente não a única. Quero deixar claro que esta versão da análise não torna a campanha mais inocente. Ainda nesse caso podemos discutir a verdadeira relevância do uso da revista para se tornar ético, por exemplo, ou o conceito de ética defendido por esta determinada corporação. Podemos ainda questionar esse caráter de auto-ajuda que você cita, e a pretensão do anunciante em ele selecionar e apontar o que o leitor deve ou não ser – apropriando-se assim, de qualquer maneira, de uma tarefa que é responsabilidade do próprio indivíduo. E é claro que ainda que a revista não afirme em momento algum que sozinha é capaz de fazer a ponte entre o sujeito e o “ser conectado”, é sua pretensão causar a sensação de que pode cumprir essa função.
    Parabéns pelo questionamento.

  4. Luiz,

    SEJA PLUGADO “também” é um misto de imperativo com voz passiva, equivalente a ”Deixe alguém plugar você”. Sendo a frase em questão propaganda oficial da revista em questão, não é exagero pensar que o agente conectante seja a própria revista. Poderíamos então alterar o slogan para “deixe-nos plugá-lo”.

  5. É impressionante a forçação de barra a que chegam os que querem desmoralizar a VEJA. Uma interpretação tão desonesta da publicidade so pode vir mesmo de petistas inconformados com as verdades que a revista publicou sobre seu partidinho corrupto.

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