A dialética da existência

Vitor Henrique

A existência é deveras uma dialética. Fundamentalmente ela é ser e sua negação, portanto, em um sentido mais amplo, se viver é sua afirmação, a morte é sua negação. Entretanto, não há vida sem morte nem morte sem vida, então viver cada minuto é morrer cada minuto e desejar a vida em sua maior plenitude é saborear a morte em toda sua grandeza.

Se vivemos cada minuto, morremos cada minuto; ambos os fenômenos são a alma, a grande essência da existência. A afixação humana pelo desconhecido da morte, porém, lhe causa tanto temor que não percebemos sua representação em todos os momentos. O oxigênio, necessário para gerar energia em nossas células, também causa o envelhecimento e a morte das mesmas. Quando um animal foge desesperadamente de seu predador, seu apego à vida e à manutenção da mesma aumenta proporcionalmente à diminuição da distância entre ele e seu carrasco. Portanto, a vida em toda sua plenitude é nada mais que sua própria negação. Não é para menos que nas filosofias e costumes orientais aqueles que detêm maior experiência de vida são os idosos, aqueles que estão mais próximos da morte. E aqueles que possuem e atingem essa plenitude mais cedo padecem, também, prematuramente.

A morte é ensinada como nossa única certeza e nosso maior mistério. Porém, não há mistério algum. Provamos dela a cada respiração, a cada momento que desgasta o corpo e a cada pensamento que desgasta a mente, ou seja, tudo que fazemos implica a criação de algo em detrimento de outro – é como se a vida fosse nosso crédito e a morte a nossa fatura. Logo, se para toda atividade há um desgaste, é necessário um período de inanimação, esse período é o sono, que se configura como uma morte momentânea. Portanto é com muito acerto que se afirma que a morte é o descanso eterno. Então configura-se como uma estupidez dizer que da morte nada se saber, pois ela nos acompanha todas as noites – já aqueles que não dormem, não abdicando de si mesmos momentaneamente, quebram a ordem natural das coisas e são devastados pela loucura. Só não vê a morte no mundo aquele que não quer ver, só não relaciona sua intimidade com a vida aquele que é tolo, e aquele que a vê como um castigo é escravo do próprio medo.

Portanto, vida e morte são duas irmãs que andam de mãos dadas na mais perfeita sincronia. E a existência é deveras uma fênix que precisa negar-se para nascer mais reluzente. Aqueles, entretanto, que só enxergam na fênix sua luz, não a entendem, pois para entendê-la devem enxergá-la como a mais perfeita metáfora da existência.

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Um pensamento sobre “A dialética da existência

  1. Para que ninguém pense que o autor tenha cometido uma obviedade ao dizer “aqueles que detêm maior experiência de vida são os idosos”, gostaria de lembrar que “experiência” está relacionada ao ato de “experimentar”, e não à velhice em si.

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