Certo, Sherlock

E não é que Sherlock Holmes, adaptação cinematográfica do famoso personagem de Arthur Conan Doyle, agrada? Antes de assistir ao filme, minha expectativa era a pior possível – culpa em parte do trailler, que destaca sequências apressadas do naipe de um Jackie Chan ou coisa que o valha, mas culpa também do costume hollywoodyano em mastigar histórias de modo a agradar o gosto do consumidor médio.

 

De fato, o ponto fraco do filme são as primeiras sequências de lutas mocinho x vilão, que imprimem um desnecessário tom aventuresco. Chega a aborrecer, principalmente quando sabemos que a lógica dedutiva sherlockiana, tantas vezes imitada (não só por Agatha Christie, mas por grande parte do cinema noir), tantas vezes parodiada (O xangô de Backer Street), é mais do que suficiente para dar graça e inteligência ao filme – o jovem que vir este filme e não perceber a importância do raciocínio lógico como estratégia para antecipar situações problemáticas e possíveis soluções, verdade seja dita, deveria ser condenado a assistir às cenas do Masi Oka em Heroes, se isso – claro – não lhe desse um prazer quase masoquista.

 

Voltemos ao que vale a pena. Creio que os pontos fortes do filme foram vários. Primeiramente (mas não principalmente), a manutenção da psique homossexual de Holmes. Lembremos que ele considera Watson um companheiro, não só no sentido etimológico daquele com quem se compartilha o pão, mas também como um irmão espiritual. Aqui o bom entendedor pode perceber duas coisas: o irmão espiritual é mais valioso que o meramente biológico; enquanto este é um mero acaso genético, aquele é quase uma alma gêmea. Daí decorre a segunda inferência: a atração, digamos assim, intelectual que Holmes sente pelo amigo. Mas tem a bela, sedutora e atraente Rachel McAdams, que interpreta a nêmesis sherlockiana neste filme. Sim, ela está lá com seus olhos e olhares, sorrisos e tal, mas o que atrai o inquieto detetive é o desafio que ela lhe representa (não será surpresa se no possível próximo filme o professor Moriarty assumir este papel – queira Deus que o moralismo religioso não impeça essa leitura!).

 

Ainda em relação às virtudes do filme, vale destacar as certeiras atualizações. Se nos livros de Conan Doyle, Holmes injetava-se heroína (no de Jô Soares, ele fuma maconha), na película ele se rende à adrenalina da luta-livre; uma grande vantagem, por sinal, visto que ela lhe estimula a rapidez de raciocínio para vencer adversários supostamente superiores.[1] Além disso, agrada ver um Watson mais participativo e menos caricatural (o que torna mais verossímil a atração intelectual que este exerce sobre seu amigo).

 

Talvez o público de mente jovem sinta que o filme toma de empréstimo muitas das características do dr. House (a frieza racionalizante que chega a doer) ou de Indiana Jones (o gosto pela aventura e o ceticismo intelectual). Quem for menos desligado, porém, perceberá quem de fato serviu de fonte para muitas das aventuras que nos acostumamos a ver nos últimos tempos. Mais um ponto para o filme!

 

Parece que vem continuação por aí. Que venha!, mas, se vier, tomara que as sequências jackchanianas escorram logo pela peneira.

 


[1] Em todo caso, não faça isso em casa – nem fora dela: tomar murros certamente não faz bem para a cuca.

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4 pensamentos sobre “Certo, Sherlock

  1. Pingback: Adjetivações « Mutuca

  2. Professor,
    Eu li um livro do Sherlock(O Signo Dos Quatro, para quem quiser ler) e nele ele injetava e fumava(deliberadamente)cocaina, e não maconha ou heroína.

    • Você está certo, André. Na época dos primeiros livros do Sherlock Holmes, a heroína ainda não estava no mercado.

      Já leu mais algum livro do Holmes?

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