Shakespeare e o Mistério do Leão Rampante

Rosângela FS

         A partir de uma anedota registrada por João Manningham, no século XVII, Rodrigo Lacerda publica, em 1995, sua obra de estreia, uma bem-humorada novela, na qual personagens fictícios e reais (Shakespeare, por exemplo) se movimentam e se constroem ao redor de um inusitado sonho – ao menos assim nos pretende fazer acreditar Valfredo Margarelon, narrador desta novela.

         Valfredo justifica a necessidade de contar esta história como uma forma de resgatar a honra de sua prima Maria Margarelon. Segundo o narrador, três homens foram responsáveis por macular a imagem de Maria: João Manningham, autor da mencionada anedota, Shakespeare, que dispensa apresentações, e Ricardo Burbage, famoso ator contemporâneo do teatrólogo inglês. De acordo com Valfredo Margarelon, os mencionados cavalheiros teriam levado a público um acontecido desonroso que consistia em que Maria teria ido ao camarim de Burbage para convidá-lo a passar uma noite com ela (desnecessário esclarecer o eufemismo), tendo, além disso, pedido que ele a fosse visitar vestido de Henrique V, personagem histórico que o ator interpretava na peça a que Maria Margarelon fora assistir. Na noite combinada, Shakespeare, ou Guilherme, o Conquistador, teria ido no lugar de Burbage e recebido, assim, as graças graciosas de Maria.

         O narrador, indignado, pretende esclarecer os fatos, começando por mencionar que a família e o marido de sua prima já estavam cientes do nebuloso ocorrido e, a seguir, inicia a narrativa dos verdadeiros motivos que, segundo ele, Valfredo, levaram Maria a fazer tal pedido a Ricardo Burbage.

         O motivo, segundo o narrador: estando Maria afligida pela recorrência de um sonho, no qual um leão foge, entre flores, carregando algo que Maria tenta alcançar, a moça, assim aflita, não conseguia se satisfazer com seu marido, de modo que o herdeiro ansiado pela família nunca chegava.

         Tem-se aí o início da trama.

         Ainda que apresentando parágrafos longos e um vocabulário que, por vezes, busca reconstituir um passado distante, a leitura se mantém fluida, animada, clara e repleta de bom humor e ironia.

         Personagens de modo algum maniqueístas, eles acabam por representar o papel humano tão valorizado por William (Guilherme) Shakespeare, autor muito apreciado por Rodrigo Lacerda –  algo que também podemos verificar em seu romance juvenil O fazedor de velhos.

         Leitura leve (mas não nos moldes das franzinas obras de Stephen Meyer), essa novela apresenta complexidade e reflexão, sem pedantismo.

 

LACERDA, Rodrigo. O mistério do leão rampante. São Paulo: Ateliê Editorial, 1995.

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