Almoço em Agosto

De diferentes maneiras um filme pode nos tocar. De relações afetivas externas ou internas a ele, alojam-se em nós a primeira película ou o primeiro escurinho, uma epifania ou um achado intelectual. Às vezes também eles são capazes de nos estimular sensorialmente, e não estou pensando aqui em filmes como Porky’s, Emmanuelle ou qualquer outra coisa que denuncie minha idade, mas sim em Almoço em Agosto, que fui ver na quente tarde do último sábado.

 O Gemini é uma sala retrô que, sem o idealizado conforto clássico de décadas atrás, parece sobreviver pelo simples fato de ser retrô, de nos proporcionar a ilusão de estarmos numa outra época, isolados da mesmice que predomina nas mentes imberbes de agora. O Gemini é um lugar tão descontraído, tão fora do opressivo padrão de limpeza capitalista que até mesmo um suposto rato foi visto nas fileiras inferiores do cinema. Tudo muito naif, muito primitivo, ao gosto modernista de uma curiosa personagem de Ariano Suassuna.

 Mas o que me aguçou o paladar não foi o simpático roedor do qual sequer senti o cheiro. Em diversos momentos do filme, Gianni, o protagonista refresca-se com um leve vinho branco. Supondo-se que este início de ano tupiniquim não seja menos insuportável que o agosto italiano, é fácil entender o efeito que tais cenas provocaram em mim – vale lembrar que o clássico, quase conceitual, cinema da Avenida Paulista não possui ar condicionado.

 Mensagem subliminar ou mero acaso, pouco importa. No calorento domingo que se seguiu, não hesitei em imitar o herói italiano; que dádiva o paladar, não? Fosse só por isso, o filme já teria sido um bom programa, mas seu sabor resiste mesmo em dias frios.

 ***

 Uma rápida sinopse: Gianni, homem de meia-idade, mora com a velha mãe viúva em Roma. Suas contas se acumulam, e o tradicional feriado de 15 de agosto se aproxima. Sabendo de sua dificuldade financeira, o proprietário do apartamento lhe faz uma proposta: se Gianni hospedar a mãe dele no feriado, perdoará parte de suas dívidas com o aluguel (fonte).

 Depois do lugar comum, atentemos para alguns importantes detalhes. A história começa com Gianni lendo uma história (Os três mosqueteiros) para embalar o sono de sua velha mãe. A partir deste pequeno excerto podemos desenvolver duas ou três ideias. Primeiro: a mãe de Gianni é velha, muito velha. E isso não é uma crítica estética, pelo contrário, Valeria de Franciscis parece ter sido escolhida a dedo para representar o papel. A um público acostumado a ver atores de 45 com rostinhos de 25 (Tom Cruise, Brad Pitt) ou celebridades de 60 (Paul McCartney, Sylvester Stallone) querendo aparentar 40, é quase educativo presenciar alguém cujos traços parecem ter sido esculpidos pelo tempo e não por um Frankenstein moderno. Há limites, às vezes muito claros, entre cuidar da saúde e falsificar o corpo. Gosto é gosto, mas ao contrário do que diz o ditado, ele se discute.

 Também é curioso notar a ambígua relação entre Gianni e a velhota. Ele é, a um só tempo, pai e filho de sua mãe. Sim, a velhice é uma segunda infância (e como é divertido ver aquelas senhoras fazendo birra por causa da TV, assaltando o forno de madrugada, entusiasmando-se gradativamente com o vinho ou mesmo tendo ataques hormonais – claro, refiro-me à velha tarada), mas a mãe, por mais velha e infantil que esteja, não deixa de ser mãe – e quem conhece o episódio que Woody Allen fez para o filme Contos de Nova York, sem dúvida, viu como os cuidados maternos, às vezes (sempre?), pretendem a onipresença. Sacar isso é fundamental para entendermos a verossimilhança do filme: num dado momento, Gianni cuida de quatro crianças; mais adiante, sua fragilidade (não só econômica) se deflagra; no fim, as crianças todas se divertem.

 E ainda não falamos sobre a história que Gianni lia para sua velha mãe. O livro de Alexandre Dumas é mundialmente famoso pela cumplicidade de suas personagens (“um por todos…”). O desfecho da história não deixa de lhe ser uma releitura; talvez seja mesmo uma homenagem à importância das relações humanas, um elogio ao afeto perdido.

 Há quem reclame do modo caricatural com que as personagens e as situações são tratadas. Sim, o filme é leve e suave, como o são diversos vinhos brancos. E assim como os vinhos, pode apenas nos servir de refresco, mas também pode estimular sensações – no caso: reflexões sobre o modo como lidamos com a velhice e com os velhos.

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2 pensamentos sobre “Almoço em Agosto

  1. Lendo sua resenha, lembrei-me de quando fui professor temporário de português numa ONG que travata de analfabetos idosos. “Sim, a velhice é uma segunda infância…” Depois dessa experiência que acrescentou muito em minha vida, costumo dizer que os idosos são crianças experientes. É impressionante o brilho no olhar que eles têm quando aprendem algo novo, o mesmo brilho que nós vemos nas salas do primário. Tal experiência foi marcante. Esse filme já está na minha lista de férias!

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