Mal servido

Sócrates me fez ir ao teatro. Pegar ônibus num dia quente e chuvoso. Ficar na fila mal organizada num dia quente e chuvoso. Tomar a suja chuva paulistana num dia quente e chuvoso. Mas Sócrates vale a pena. Assistir à dialética em ação – discussões, ideias em polvorosa – não abriria mão disso tudo. Foi isso, e não os comes e bebes, que me levou a ver a encenação de O Banquete pelo Teatro Oficina em fins de dezembro.

A decepção não poderia ser maior; a peça já começa concluída: os argumentos cederam lugar à pura exposição de um ponto de vista – o elogio ao amar, verbo intransitivo; não importa o quê, não importa a quem. Contra a conclusão em si, nada tenho, filosoficamente falando. O problema é chegar a ela sem o devido debate, a desejada discussão (Caricaturar o oponente como um fanático fundamentalista cristão – acreditem em mim, chegaram a esse nível – possui a mesma graça que as piadas em que os comunistas são retratados como comedores de criancinhas; esse tipo de humor rasteiro combina mais com a erística do que com a dialética).

 Moralmente falando, não vejo nada contra a excessiva exposição de nudez. Mas não posso concordar com quem vê nisso uma forma de contestação, um modo de sacudir o público. Talvez isso funcionasse se a plateia fosse constituída por velhotas saídas do convento, mas ao público de mente adolescente, já acostumado com novelas e zorras totais da vida, a nudez lhe serve mais de estímulo corpóreo que intelectual. Não por acaso, o vinho servido ao público é leve e suave, fácil de beber, muito adequado a paladares imaturos[1]. Se isso foi uma ironia proposital, ponto para o Zé Celso!

 Infelizmente, não deve ter sido. Infelizmente não conheci o Oficina da década de 1960, quando sua fama parece ter se construído / consolidado, mas a primeira impressão deste que aí está não poderia ser mais brochante.

 


[1] À parte de qualquer discussão artística, a Casa Valduga produz excelentes vinhos.

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2 pensamentos sobre “Mal servido

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