Quanto mais purpurina melhor

Avatar foi o filme das férias aqui em São Paulo. Desavisado, por duas vezes dei-me com a cara nas portas do Bourbon IMax – levando-se em consideração toda a grande propaganda em torno da pretensa revolução digital promovida por este filme, como vê-lo em outro lugar? Antes de conseguir, enfim, ver com meus próprios olhos a película, tomei emprestado olhos alheios para me inteirar do assunto.

Primeiro vi o Merten soltando os cachorros contra o André Barcinscki; depois vi o Inácio reclamar – indiretamente talvez – do Piza. Como o amigo leitor pode perceber, em nenhum dos dois textos, os famosos críticos citam diretamente aqueles que são criticados. Sim, trata-se de uma prática bastante comum na grande imprensa, cujas razões estou longe de elucidar, mas cujas consequências qualquer um percebe: trava-se o debate, limita-se a análise. Sem conhecer devidamente os argumentos contrários, o leitor acaba construindo suas reflexões precariamente, não raro aceitando passivamente as ideias da primeira fonte à qual tem acesso. Enfim, os links estão aí para quem quiser conferir o resumo que irei expor no próximo parágrafo.

De modo geral, a crítica expôs os mesmos dados: Avatar possui riqueza imagética, mas fica devendo na confecção do enredo ou, invertendo a ênfase, Avatar conta uma história simples, mas conta muito bem. A primeira leitura reclama dos chavões; a segunda indica que não há problema algum em se recriar os chavões. Sem tomar partido, fui conferir o filme e cheguei às minhas conclusões.

Avatar é um filme legal, mas não é um filme bom. A satisfação em vê-lo dura exatamente o tempo que a gente consegue ficar sem pensar. Enquanto eu consegui fingir a mim mesmo que estava percorrendo uma bela floresta foi bom – quase tão bom quanto fazer trilhas em Paranapiacaba. Mas quando aquelas plantas fosforescentes iluminavam providencialmente o cenário noturno ou – pior – quando a ideologia do diretor era exposta de modo tão maniqueísta, não tive como deixar de perceber que eu estava numa sala de cinema, recebendo não apenas imagens, mas ideias. Aí o filme começa a mostrar suas falhas.

O elogio à ciência intuitiva do povo primitivo; o conhecimento como maldição (vide o nome do planeta, Pandora), tudo isso culminando na crítica à razão. Não que o tecnicismo não mereça críticas, mas elas poderiam ser mais consistentes, mais racionais. Por isso, concordo com o Piza quando ele diagnostica que o principal problema de Avatar é desenvolver a ideologia do diretor de modo tão rasteiro, tão apegado a clichês. Por isso, não concordo com o Inácio quando este diz que quem reclama dos clichês são reacionários. O problema é menos a opção ideológica, mais a superficialidade.

O Merten, numa alusão clara ao Barcinscki, diz que James Cameron reinventa o clichê. Se isso fosse verdade, o filme estaria recheado de ironia e aforismos, achados preciosos que, infelizmente, não achei.

Sim, sei que para alguns, cinema não se faz com ideias, mas com imagens. Entendo essa opção estilística, o gosto pelas luzes, cores, contrastes e não sei o que mais. Mas esse carnaval fora de hora não é para mim.

P.S.: O título do post remete a esta música do Gilberto Gil.

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4 pensamentos sobre “Quanto mais purpurina melhor

  1. Não percebi no filme crítica à razão.
    Vi a ciência “acadêmica” (simbolizada pela cientista-chefe rabugenta e apaixonada) defendendo os mesmos ideais da ciência intuitiva.O filme não foi a maior revolução ideológica dos últimos tempos mas fiquei feliz por ser bastante didático. A mensagem me pareceu bastante clara : acadêmicos ou intuitivos lutam pelo entendimento, pela simbiose de sua espécie com a natureza, e não apropriação da natureza. Um filme que conseguiu apresentar o ambientalismo de uma maneira menos “chata”.
    Um filme legal para os adultos, por ser visualmente interessante e pela recriaçào de uma biologia.
    Um filme indicadíssimo para crianças, uma ótima maneira de iniciar uma discussão sobre a ação do homem no meio ambiente!
    Adoro o Mutuca!
    Abraços Rodrigão!!!

  2. Olá, Paulão! Obrigado pela visita.

    Vamos aos elogios ao irracional:

    1 – Por mais que a ciência humana tenha evoluído, a ciência intuitiva (visto que eles não estudam) dos selvagens lhe é superior;

    2 – Quando a cética cientista morre, ela vê a divindade dos nativos (ou seja, prova científica da existência de uma verdade além da razão humana);

    3 – É difícil encher um copo que já está cheio – diz a guru primitiva, dando a entender que a razão torna o homem tapado a diferentes formas de cultura (mas isso se aplica a qualquer fanatismo; um fanático racionalista não é o melhor exemplo se ser racional);

    4 – O planeta Pandora remete ao mito; o conhecimento como maldição.

    Didaticamente, acho o filme perigoso, pois ele esquematiza o debate em planos maniqueístas (a ciência bélica como a representação do mal; o povo primitivo, como a representação do bem). Sem contar que novamente vemos o norte-americano se tornar um índio superior aos próprios índios. Haja…

    Muito obrigado pela visita e pelo comentário.

  3. Como diria Liberato Vieira da Cunha, embora os gregos tenham esgotado há milênios todas as situações dramáticas imagináveis, é essencial ousar a criação de algo novo, de original, de único.

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